Portugal coça o umbigo em frente à televisão

por Henrique Pinto de Mesquita,    16 Maio, 2025
Portugal coça o umbigo em frente à televisão
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Quero lá saber que entre luz pelos «cortinados» do quarto de Montenegro em São Bento: eu quero saber o que pensa do massacre na Palestina. Quero lá saber que ele tenha mudado a «carpete» do palácio: eu quero que nos esclareça melhor sobre a Spinumviva.

É triste este país, em que as televisões preferem alocar o seu horário nobre a entrevistas leves feitas por comediantes em vez de a entrevistas sérias feitas por jornalistas. É amadora esta cidadania, em que as televisões assim optam por saberem que as primeiras dão mais audiências do que as segundas.

“Numa sociedade adulta, caberia aos cidadãos notarem isso e exigirem mais do que entretenimento; caberia aos órgãos de comunicação social, que se esperam vigilantes e responsáveis, não alimentarem cegamente o espetáculo para aumentar audiências.”

Eis Portugal: esparramado num sofá a coçar umbigo enquanto se entretém com perguntas fofinhas de comediantes a políticos. Quando este vazio nos satisfaz, quando esta banalidade nos é suficiente, quando compactuamos com sermos entretidos em vez de informados, passamos a merecer o logro em que estamos.

Os franceses definiram bem a “política espetáculo”: tudo é performance, nada é verdadeiro — só conta o que parece e o que parece é um produto que se escolheu que assim devesse parecer. Numa sociedade adulta, caberia aos cidadãos notarem isso e exigirem mais do que entretenimento; caberia aos órgãos de comunicação social, que se esperam vigilantes e responsáveis, não alimentarem cegamente o espetáculo para aumentar audiências.

“Um país que não escrutina os seus políticos, que não lhes exige mais e que se contenta com programas de entretenimento será sempre incapaz de se emancipar da sua infantilidade democrática.”

Todo este “espetáculo” não teria mal se fosse algo isolado, mas neste caso é o oposto: é o motor das campanhas, a sua natureza, a sua essência. Exemplo disso é o facto, por certo inédito nas últimas décadas, de nenhum dos três principais jornais — PÚBLICO, Observador e Expresso — ter conseguido entrevistar algum dos dois principais candidatos. Ambos os líderes optaram pelo espetáculo — e fugiram do escrutínio.

É a mesma campanha em que ouvimos Luís Montenegro dizer, em orgulhoso peito, que não vê “notícias” oucanais tradicionais”. Apesar de soar a mentira — Montenegro almoça a ver anúncios? —, o desdém que escolhe demonstrar por um dos pilares da democracia revela bem o caminho intelectualmente rasteiro que opta por seguir. Uma postura que teve o corolário dias depois, quando se irritou por um jornalista lhe perguntar novamente sobre a Spinumviva. O nosso primeiro-ministro — e parece que futuro — não gosta de escrutínio nem de jornais, o que diz muito sobre o seu espírito democrático.

“A política pode — deve — ser cool e pop, mas não pode apenas ser cool e pop. A política também é uma competição de likes, mas não pode apenas ser uma competição de likes. O espetáculo não pode ofuscar o que a política realmente é: o governo das nossas vidas em sociedade.”

E quanto mais foge do escrutínio, mais enche o balão do espetáculo. Pensem bem: há um primeiro-ministro que tem uma mulher com quem fala todos os dias; encontram-se, “por acaso”, no caminho para Fátima; o encontro era um “momento pessoal”, mas  também “por acaso” convocou as televisões — apenas. Que tipo de católico monta um circo mediático destes?

“O espetáculo, as redes sociais e as imagens não podem dominar tudo: deve haver espaço para a seriedade, para o debate aprofundado e para o escrutínio.”

A política pode — deve — ser cool e pop, mas não pode apenas ser cool e pop. A política também é uma competição de likes, mas não pode apenas ser uma competição de likes. O espetáculo não pode ofuscar o que a política realmente é: o governo das nossas vidas em sociedade. O espetáculo, as redes sociais e as imagens não podem dominar tudo: deve haver espaço para a seriedade, para o debate aprofundado e para o escrutínio.

O nível desta campanha está para lá de baixo. Um país que não escrutina os seus políticos, que não lhes exige mais e que se contenta com programas de entretenimento será sempre incapaz de se emancipar da sua infantilidade democrática. Portugal é o logro que merece: we’ll always have umbigo.

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