Portugal habituou-se ao inaceitável
Talvez o maior problema de Portugal já não sejam os problemas. Talvez seja termos começado a achar normal viver com eles.
Normalizamos jovens que trabalham e não conseguem sair de casa dos pais. Normalizamos famílias que fazem contas no supermercado antes de chegar à caixa. Normalizamos professores em falta, alunos à espera de escola, dificuldades no acesso à saúde e meses de espera por respostas do Estado. E continuamos. Como se fosse normal. Não é.
Esta semana soubemos que, no espaço de apenas um ano, o preço das casas em Portugal aumentou 16,5%, enquanto a remuneração média cresceu 5,1%. As casas subiram mais de três vezes aquilo que subiram os rendimentos. Entretanto, as rendas continuam a aumentar em muitas zonas do país e o custo de vida continua a pesar nos orçamentos de muitas famílias.
Mas talvez o dado mais preocupante não esteja em nenhuma estatística. Está na nossa reação. Ou melhor, na falta dela. Habituámo-nos a ver jovens qualificados adiar a saída de casa. Habituámo-nos a ouvir famílias dizer que já não conseguem poupar. Habituámo-nos a falar da falta de professores todos os meses de setembro. Este ano voltámos a começar as aulas com crianças à procura de colocação e cerca de mil horários completos de professores por preencher.
Discutimos durante dois ou três dias. Depois aparece outra notícia, outro escândalo, outra polémica, outro vídeo. E esquecemos.
Talvez seja este o verdadeiro problema do nosso tempo: estamos informados sobre tudo e indignados com quase nada.
Nunca tivemos acesso a tanta informação. Nunca soubemos tão depressa o que acontece. Nunca tivemos tantas plataformas para falar, comentar, protestar e exigir. E, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos tido uma memória coletiva tão curta. Uma notícia indigna-nos de manhã, um vídeo emociona-nos ao almoço, uma polémica revolta-nos à tarde e, à noite, já estamos a discutir outra coisa.
Vivemos numa sociedade em que tudo é urgente durante algumas horas e quase nada é importante durante tempo suficiente para mudar alguma coisa.
E isso é perigoso. Porque uma sociedade não começa a desistir quando deixa de ter problemas. Começa a desistir quando deixa de acreditar que vale a pena resolvê-los.
Não escrevo isto para dizer que Portugal é um país sem futuro. Muito pelo contrário. Continuo a acreditar profundamente neste país. Temos talento, empresários extraordinários, trabalhadores fantásticos e jovens preparados como provavelmente nunca tivemos. Temos universidades, empresas, instituições e organizações capazes de competir com os melhores do mundo.
É precisamente por acreditar tanto em Portugal que me custa aceitar a resignação.
Não podemos transformar o “é o que temos” numa filosofia nacional. Não podemos aceitar que um jovem trabalhe e não consiga pagar uma casa como se isso fosse apenas uma inevitabilidade dos tempos modernos. Não podemos aceitar que problemas que se repetem ano após ano passem simplesmente a fazer parte do calendário. E não podemos permitir que a nossa capacidade de indignação dure menos do que uma publicação nas redes sociais.
E atenção: indignação não significa gritar mais alto. Significa exigir melhor. A quem governa, a quem lidera empresas, a quem dirige instituições, a quem educa, a quem comunica. E também a nós próprios.
Porque é muito fácil responsabilizar sempre “os outros”. Mais difícil é perceber que um país também é aquilo que os seus cidadãos toleram.
Há uma expressão que ouvimos demasiadas vezes: “É Portugal.” Dizemo-la quando algo demora. Quando algo não funciona. Quando alguém nos explica que “sempre foi assim”. Dizemo-la quase a sorrir, como se a mediocridade, a burocracia ou a incapacidade de resolver problemas fossem características culturais inevitáveis.
Talvez devêssemos começar a recusá-la.
Portugal não é a burocracia. Portugal não é a resignação. Portugal não é o “logo se vê”. Portugal somos nós.
E talvez a mudança comece precisamente no dia em que deixarmos de aceitar como normal aquilo que sabemos que não está bem. Não precisamos de viver permanentemente revoltados. Precisamos de continuar permanentemente exigentes. Com quem governa, com quem decide, com quem lidera e, sobretudo, connosco.
Porque os problemas de um país podem ser resolvidos.
O que é muito mais difícil de resolver é uma sociedade que já se habituou a eles.
E talvez seja esse o maior perigo de todos: quando o inaceitável deixa de nos incomodar, começa lentamente a tornar-se aceitável.
