Português em perigo

por Nelson Nunes,    28 Julho, 2025
Português em perigo

A língua portuguesa está a sofrer uma invasão.

Acordas à hora de sempre porque tens um brunch com um cliente. Escolhes o teu melhor blazer. Pensas em beber um smoothie, mas pedes um croissant e um cappuccino. Falas-lhe do teu CEO. Combinam uma entrega, mas a deadline não te agrada. Agendas uma call para a semana seguinte, para um upgrade ao brainstorming. Sais satisfeito da reunião porque sempre foste fã de networking.

Voltas ao home-office, mas passas o dia a pensar no padel. Depois do jogo, vais beber umas jolas enquanto vês o football com os amigos. É noite de Champions. Ouves falar do blockbuster de Verão, dizes que já viste o trailer, mas não queres spoilers.

Quando pedes a conta, irritas-te perante o sotaque do funcionário e as suas palavras expressas com dificuldade. Estes gajos vêm para o país onde sempre viveste e destroem a tua maneira de falar, dizes tu. Uma contaminação que polui a beleza da tua língua, dizes tu.

Não tens um problema com a língua — tens um problema com a pobreza.

Nenhuma língua é estanque. A língua não se preserva. A língua fala-se, usa-se. E, inevitavelmente, transforma-se.

O ténis já foi tennis. O Algarve já foi al-Gharb. A lasanha já foi lasagna. A valsa já foi walzen. Podíamos estar aqui a debitar exemplos até 2047. (Debitar é um verbo originário do francês, com raiz no latim.)

O linguista Marco Neves tem encontrado sucesso nas redes sociais a explicar a origem e evolução da nossa língua. A maior lição a tirar de todos aqueles vídeos é uma, e só uma: a língua portuguesa, como todas as línguas, está em permanente transformação e não é coisa que se cristalize na legislação.

Não são as gramáticas quem manda na língua: são as pessoas que a usam.

“Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom hóspede, nos regios paços de Affonso Henriques, um esplendido jantar a que assistiram quasi todos os cavalheiros da terra. Não quero dizer as notabilidades, por ser palavra peralvilha a que tenho invencivel zanga. As iguarias de legítima eschola portugueza, não menos saborosas e delicadas por apparecerem estremes de sautés e salmis extrangeirados.” Parece escrito com os pés, mas é Português de há 180 anos. O autor? Almeida Garrett.

A língua vive ao ser escrita, falada, manuseada, influenciada, alterada. Dentro de 100 anos, o Português não será a língua que hoje conhecemos, da mesma maneira que a língua de há 100 anos dificilmente passaria agora num exame do Secundário.

Querer conservar para sempre a língua no estado em que ela está é uma prova de falta de cultura. Isso materializa-se numa triste ironia: são os conservadores e reaccionários aqueles que mais erros ortográficos dão.

Os imigrantes mudam tanto o Português como os portugueses, os árabes, os ingleses, os franceses, os brasileiros, os americanos. Ou mesmo os speakers mais fluentes de LinkedInês.

Só há um tipo de língua que se mantém igual para sempre. Aquela que morre.

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