Prémio Goncourt exclui romance de Thélyson Orélien após acusações de uso de inteligência artificial
A Academia Goncourt excluiu da corrida ao principal prémio literário francês o romance de estreia do escritor canadiano-haitiano Thélyson Orélien, “C’était ça ou mourir”, após acusações de ter sido escrito maioritariamente com recurso a inteligência artificial (IA).
A decisão “é motivada pela vontade de preservar a integridade do Prémio Goncourt e da própria Academia, cujo papel central é promover e distinguir a literatura escrita por mulheres e homens”, justificou a instituição, segundo noticia a AFP.
“C’était ça ou mourir” (“Era isso ou morrer”), publicado na primavera pela editora canadiana Boréal, estava integrado na primeira seleção de mais de uma dezena de obras candidatas ao Goncourt, cujo vencedor será conhecido em novembro.
A Academia citou elementos segundo os quais o livro será, “com toda a probabilidade, em grande medida produto da inteligência artificial”, referindo também acusações de plágio.
A exclusão pretende “enviar uma mensagem clara” e mostrar que a Academia “não aprova nem sanciona, de forma alguma, a criação de textos gerados com a ajuda da IA”, acrescentou.
As acusações surgiram esta semana numa conta designada “Balance ton Claude” (“Expõe o teu Claude”, em tradução literal), numa referência ao assistente de inteligência artificial Claude, e desencadearam polémica no meio literário francês sobre a utilização desta tecnologia na criação literária.
O ensaísta e comentador francês Samuel Fitoussi, colaborador do diário conservador Le Figaro, revelou hoje fazer parte do coletivo responsável pela conta “Balance ton Claude”, que lançou as acusações contra Thélyson Orélien, afirmando ter agido por recear que, “depois de vários milénios de civilização fundada na escrita, a IA provoque o desaparecimento da leitura e da escrita”.
“Eu não estive sozinho, era um projeto coletivo. Os outros revelarão a sua identidade a seu tempo, se assim o desejarem”, afirmou.
Para Samuel Fitoussi, à medida que as atuais limitações tecnológicas forem ultrapassadas, a IA “será cada vez mais capaz de […] produzir obras excecionais de forma quase autónoma”.
“Um dia, o escritor humano perguntará a si próprio: para quê?”, acrescentou.
O ensaísta considerou ainda que os autores que façam “copiar-colar” de conteúdos produzidos por IA, apresentando-os como trabalho próprio, “traem o pacto moral que os liga aos seus leitores”.
A editora Boréal anunciou entretanto a suspensão das “atividades promocionais” relacionadas com o romance, justificando a decisão com a necessidade de assegurar o “bem-estar de Thélyson Orélien”.
“Infelizmente, nesta fase, é-nos impossível confirmar ou refutar as alegações de que o autor é alvo”, afirmou a editora, apelando a que não sejam tiradas “conclusões precipitadas”.
Thélyson Orélien, de 38 anos, nega ter recorrido à inteligência artificial para escrever o romance.
“Gostei sempre de criar e de escrever, não vejo porque haveria de utilizar uma máquina”, afirmou ao diário francês Libération.
O escritor disse ainda estar “a preparar um dossiê” com os seus editores “para provar” que escreveu o livro.
Em declarações à AFP, explicou que, para a elaboração do romance, conversou com numerosos haitianos que viveram a experiência do exílio.
No livro, conta, na primeira pessoa, a história de Jonas Dorléon, um professor de História e Geografia que foge do seu país, mergulhado na violência dos gangues.
Começa então uma perigosa viagem através de 12 países até chegar ao Canadá.
Até à publicação de “C’était ça ou mourir”, Thélyson Orélien era praticamente desconhecido no meio literário, mas o romance de estreia recebeu elogios e tem publicação prevista em mais de 20 países.
Além disso, o livro está também entre os selecionados para os prémios literários Médicis e Femina.
A AFP submeteu os excertos selecionados pela conta como tendo sido escritos por IA a outros detetores, obtendo resultados inconclusivos: a disparidade de respostas foi desde que tinham sido “muito provavelmente escritas por um ser humano” até à probabilidade de 100% de essas passagens serem obra de uma IA.
A polémica em torno do livro relançou o debate sobre o impacto da inteligência artificial na criação literária e sobre os limites da sua utilização por escritores.
