Presente com cuidado

por Luis Sousa Ferreira,    8 Junho, 2026
Presente com cuidado
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Chego a casa e sinto que já não sou o mesmo que daqui saiu na quinta-feira. Ultimamente, tenho andado mais desiludido ou com quebras de entusiasmo. Fruto dos tempos. Eu bem sei que o nosso desânimo é programado. É construído e resulta de uma estratégia mais alargada. Se não acreditas, não lutas, não fazes.

Nas redes sociais, principal canal de socialização, entre bots, conspirações e frustrações, perdemos o sentido e deixamo-nos levar. Com a importação desse registo, a televisão e outros meios de comunicação adotam o mesmo tom e a mesma linguagem, e aquilo que, há meia dúzia de anos, era impensável está hoje a ser rapidamente normalizado. Muitos de nós sentimo-nos sós, sentimos que não vale a pena, que somos muito pequenos.

Contudo, tenho a sorte de a minha bateria carregar facilmente. Uma reunião que corre bem, um espetáculo que nos permite sonhar, um livro mobilizador, estar com amigos que fazem coisas importantes: a minha esperança nas pessoas sai renovada. Que o planeta me perdoe, mas gosto de estar em trânsito, de ligar lugares em pouco tempo. Como se ativasse novas células no mapa, as conectasse e aproximasse.

A maior parte das pessoas associa sustentabilidade à redução das deslocações, não consigo alinhar nisso. A viagem é o princípio da relação, a deslocação quando vulnerável é uma forma de ligação, aprendizagem e possível criação de comunidade. Não podemos ver o mundo através do computador. Esse já está todo legendado.

No dia 6 de junho fui ver o concerto dos Lavoisier no Festival A Porta, em Leiria. Uma visita de médico que nem deu para dizer um olá à família, mas foi suficiente para ver a simples felicidade das pessoas por estarem juntas. Leiria fica muito mais bonita com a ação dos Casota e da Omnichord, que muito admiro e respeito. Havia crianças a correr por todo o lado, projetos colaborativos com artistas de diversas paragens, vizinhos que pareciam não se ver há meses e mesas ocupadas sem pressa. Ninguém parecia ter vontade de ir embora. Apesar dos meses difíceis que Leiria tem atravessado, ou até mesmo por isso, é o encontro que nos faz resistir.

A visita foi curta e segui rumo a Cem Soldos, para comer umas garfadas de produtos da horta com os meus pais e chegar atrasado à reunião do BONS SONS. Tive aquela sensação muito relaxante de quando ia à Biblioteca de Tomar e pedia ajuda para uma determinada pesquisa, e a bibliotecária se entusiasmava e começava a pesquisar por mim. Um misto de observador participativo que se tranquiliza ao ver uma equipa imensa a relatar tudo o que anda a fazer, liderada por jovens praticamente com a mesma idade do festival. Esta edição tem como mote a resistência e todos sabemos que é tempo disso.

Depois de um dia de teletrabalho, subi até Ílhavo para rever esta terra que me ficou cravada no coração e viver um pouco do Rádio Faneca. Sob o comando da incansável equipa do 23 Milhas, o Rádio Faneca é um festival que convoca a comunidade para transmitir alegria. Muito amor transformado em pertença e cuidado. A visita foi curta e privou-me de viver a maior parte dos projetos mais emblemáticos do festival, mas já sabia que apenas teria tempo para abraços.

No dia seguinte, desci para assistir ao documentário Feitos de Betão, sobre as gentes de Mem Martins, realizado pelo Canivete, com o apoio do Espaço Kultural. Juntei o útil ao agradável, uma vez que queria acompanhar o trabalho do Canivete, com quem temos colaborado no âmbito do Atos, e conhecer um pouco mais de perto o Espaço Kultural que, em conjunto com a malta da Unidigrazz, está a fazer a necessária diferença na freguesia mais populosa e mais jovem de Portugal. Na conversa após a exibição, falou-se muito da importância da cultura para a forma como nos vemos e sentimos enquanto lugar.

Em cada paragem, uma resistência e um cuidado. Uma esperança renovada.

Chego a Lisboa 20 minutos antes de começar o concerto de Sílvia Pérez Cruz, no Tivoli, na avenida da Liberdade, por onde tinha passado a Marcha dos Amores e da diversidade horas antes. A banda sonora mais do que perfeita desta digressão de amor e sentido. Um espetáculo maravilhoso que se vai superando a cada quadro. Um hino ao cuidado e ao cantar em conjunto. Entre cordas e sopros, com a força das grandes Sopa de Pedra, convidadas especiais, o amor trespassou-me. A delicadeza da voz texturada, que gravitou entre capelas e surpreendentes grandes produções, despertou-me para a força do cuidado, da atenção. Que amor desavergonhado. Não há nada mais poderoso do que fazermos algo em conjunto.

E é isso ser-se comunidade. Palavra que tem origem no latim communitas, que resulta do prefixo con, que significa “juntos”, e de munis, associado à prestação de serviços e trabalhos. Comunidade local não é sobre o que nos aproxima ou afasta, é principalmente sobre o que podemos fazer em conjunto. Não é sobre identidade, é ação partilhada.

Lugares diferentes, linguagens diferentes, mas todos pareciam responder à mesma pergunta: como continuamos a cuidar uns dos outros? Se o desentusiasmo é programado, então que a programação cultural também semeie a resistência, a curiosidade e a consciência da necessidade do outro.

Há muita coisa poderosa a acontecer, muita gente boa a erguer e a imaginar outros futuros. A resistência de que mais precisamos talvez não seja a da oposição, mas a da permanência: continuar a cuidar dos lugares e das pessoas.

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