Privatizar a cultura local, um candidato sem futuro público

por Rui André Soares,    24 Setembro, 2021
Privatizar a cultura local, um candidato sem futuro público
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Decidi ir ao debate final das Eleições Autárquicas do meu município e consegui ouvir de um candidato que se deve “privatizar a cultura local”, e uso aspas porque foram precisamente estas as palavras, não há escapatória de contexto.

Portanto, é candidato a um cargo público e assume que quer delegar parte da gestão a que se candidata a privados. Propõe-se a delegar funções com a sua candidatura. Ou seja, é como se já se se estivesse a demitir de funções por não se sentir capaz de as gerir ou de ter uma equipa para as gerir. Como se não bastasse, deu exemplo de um concerto de um artista estrangeiro para justificar a insustentabilidade de toda a economia cultural do município. Será que o candidato sabe que a cultura se programa a longo prazo e que um momento, um concerto, pode não ser um bom indicador para justificar a globalidade do tema?

Já num município ao lado meu aconteceu outro debate sobre as Eleições Autárquicas e só o tema da cultura ocupou mais de 40 minutos. O próprio responsável da cultura municipal, Luis Sousa Ferreira, o mesmo que fundou e ajudou a criar o festival Bons Sons como o conhecemos, um exemplo crasso de como se pode criar uma economia cultural local sem se desvirtuar os lugares ou entrar em conflito com as gentes dos lugares, refere que “Alguma coisa de bem anda a ser feita para que o debate das Eleições Autárquicas de Ílhavo tenha dedicado mais de 45 minutos ao tema da cultura. Concordando ou não com o que foi dito, os meus parabéns a todos os candidatos pela valorização da mesma. Fossem assim todos os Municípios e a cultura em Portugal estaria noutro patamar.”

Ou seja, todos os candidatos tiveram algo a propor e debateram ideias; há uma narrativa em comum, a cultura faz parte do ADN local, não se restringe só aos edifícios culturais, nem centrais do município, envolve as freguesias em redor, pessoas de todas as idades, e ainda convida pessoas que se desloquem ao município de forma propositada para viver a cultura local durante todo o ano. Há uma programação com várias valências e criou-se uma economia cultural. Tudo com gestão pública e onde ninguém se demite das suas funções.

Já no meu município o candidato que sugeriu privatizar a cultura local disse ainda, e passo a citar: “a arte e a cultura são essenciais nas sociedades modernas”. Ora, a arte e a cultura sempre foram essenciais, os futuros são também feitos disso, basta olhar para o passado de qualquer região ou povo; o candidato é que parece que não tem futuro em cargos públicos ou então precisa de ajuda nesta temática porque não tem visão nem estratégia.

Acabo esta crónica citando Gonçalo Reis, ex-deputado do PSD e ex-Presidente da RTP, grupo este do Estado que tem um resultado líquido de mais de 3 milhões de euros, valor referente a 2020:

“Julgo que este ciclo de gestão — o mais longo desde o 25 de Abril — demonstra que os elefantes públicos não têm de ser cronicamente deficitários, podem ser previsíveis. Não têm de ser defensivos e burocratas, podem ser arrojados e empreendedores. Não têm de ser mais atrasados do que os melhores do sector, podem ser inovadores e assumir a liderança em áreas críticas. Não têm de ter uma gestão politizada, devem antes guiar-se por critérios empresariais e por uma lógica de competitividade. Não têm de ser aborrecidos, podem ser atractivos. Foi isso que conseguimos na RTP e estou seguro de que esta estratégia, esta atitude e esta ambição podem ser exportadas para um conjunto vasto de instituições, públicas e privadas, possibilitando elevados impactos na sociedade.”, afirma Gonçalo Reis no livro “Serviço Público”.

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