Quando os princípios cedem, o mundo torna-se instável
A História mostra-nos que as ditaduras acabam sempre por cair. Umas mais cedo, outras mais tarde. Caem pelo peso da injustiça, pela pressão interna ou pela erosão do tempo. O que a História também nos ensina é que há princípios que, quando violados, não derrubam apenas regimes: desestabilizam o mundo inteiro.
Nicolas Maduro não é um democrata. Governa sem eleições livres, reprime a oposição, controla instituições e mantém um povo inteiro refém de um regime autoritário. Este diagnóstico não é ideológico nem polémico. É factual.
Mas reconhecer a natureza de um regime não autoriza tudo. E é aqui que reside o verdadeiro perigo.
Bombardear um país soberano ou capturar o seu Chefe de Estado sem qualquer mandado internacional não é um ato de justiça. É um ato de força. E quando a força se sobrepõe à lei, entramos num território historicamente conhecido e profundamente perigoso.
O direito internacional não foi criado para proteger ditadores. Foi criado para proteger o mundo do caos. Para impedir que a política internacional funcione como uma selva, onde os mais fortes impõem a sua vontade e os mais fracos apenas reagem às consequências.
Quando uma potência decide, de forma unilateral, quem governa um país, quem deve cair ou quem merece ser capturado, o problema deixa de ser a natureza do regime em causa. O problema passa a ser a destruição das regras que garantem alguma previsibilidade e estabilidade ao sistema internacional.
Hoje é a Venezuela. Amanhã poderá ser outro país, noutra região do mundo, com outras justificações e os mesmos métodos.
Cada exceção aberta em nome de uma suposta moral superior fragiliza a ordem global. Cada violação “justificada” da soberania alheia cria um precedente que será usado novamente, por outros, noutras circunstâncias. E quando isso acontece, conceitos como democracia, soberania e autodeterminação deixam de ser direitos universais e passam a depender do equilíbrio de forças do momento.
Não estamos apenas a discutir a queda ou a sobrevivência de um regime político. Estamos a testar a solidez do modelo de civilização política construído após as grandes tragédias do século XX, precisamente para evitar que o mundo voltasse a ser governado pela lógica da força.
Há momentos em que o silêncio é confortável.
Mas há momentos em que o silêncio é perigoso.
Este é um deles!

