Quarentena. Aguenta, coração

por Rui Cruz,    4 Abril, 2020
Quarentena. Aguenta, coração
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Rui Cruz é humorista, stand up comedian e um génio (palavras dele). Escreve coisas que vê e sente e tenta com isso cultivar o pedantismo intelectual que é tão bem visto na comunidade artística.

Epá, eu sei que estamos todos em quarentena, aborrecidos em casa e que tudo o que apareça que ajude a distrair parece uma benção dos deuses, mas era mesmo necessário terem lançado, neste momento, a nova season d’ A Casa de Papel?! É que um gajo como eu, que não viu a série, acorda muito sossegado, abre o twitter, vê nas trends “Nairóbi”, “Berlim”, “Lisboa” e tem logo dois ataques de ansiedade a pensar que o vírus exterminou cidades inteiras enquanto dormia até perceber que está toda a gente a falar das personagens da série! Não se faz… Ainda tenho aqui o coração todo aos raters, pareço um tuning em dia de maratona de “Fast and Furious”, mas sem a erecção.

Continuando em coisas que me fazem bater o coração, viram o Marcelo? Tão lindo… a pedir que a banca retribua o esforço que os portugueses fizeram quando salvaram os bancos. Tivesse ele hipóteses ou poder para fazer algo e obrigar a banca a fazer coisas, pudesse ele aprovar leis ou assim, não é? Infelizmente para nós, o Marcelo é apenas um simples Presidente da República, uma figura menor, tem de se contentar em apelar à bondade de quem manda. Agora é esperar que os olhos cândidos e voz mansa do nosso telepresidente tenham surtido efeito e eu tenho quase a certeza que sim, pelo menos costumava funcionar quando pedia as chaves da casa de férias ao Salgado.

Mas se acham que o Marcelo pode ter uns problemas com a banca, ainda não ouviram nada. Problemas está a ter o André Ventura no CHEGA. Então não é que o candidato a Presidente do Conselho vai pedir a demissão da liderança do seu partido? E porquê? Porque lá no Führerbunker ficaram descontentes com a sua abstenção na votação do estado de emergência, aquele estado de emergência que ele antes tinha defendido e exigido. Estás a ver, André, não fosses tu tão avesso às minorias e tinhas aprendido a lição com a Joacine.

O mais giro é que aqui o Trump sem solário absteve-se só por causa da medida que aplica a prisão domiciliária aos presos que tivessem saídas precárias ou cometeram crimes sem violência, indo ainda para as redes sociais dizer que isto é tudo para libertar o Armando Vara, mesmo depois de já se saber que as penas de ex políticos e pessoal com cargos públicos não iam ser abrangidas pela medida. Mas também, desde quando é que os factos interessam para alguma coisa, não é?

No entanto, não é caso para ficarmos contentes. É que com esta jogada, o pequeno Duce vai sempre sair bem. Caso ganhe novamente as eleições no partido, fortalece poderes, centra ainda mais a coisa na sua pessoa e abafa a contestação interna podendo, assim, continuar o show off pelas televisões e redes sociais, dizendo mais umas “verdades que se dizem nos cafés”, que é mais ou menos um eufemismo para preconceito, teorias cuja única prova é “disseram-me” e mentiras, o que lhe vai permitir ter uma boa falange de apoio ou o protagonismo necessário para outros saltos. Caso perca as eleições, o generalíssimo vende a narrativa de que os seus valores morais não se corrompem, que sai em cisão com os extremismos que cresceram dentro do partido e que ele “nunca apoiou”, que sai de cabeça erguida porque quis ajudar os portugueses e ser diferente e foi traído por pessoas com outra agenda que se infiltraram na “família”, ficando como um anti-herói para os sabujos que o seguem, numa linha muito parecida com a de outra grande personagem mediática da nossa praça a quem falta Mebocaína. Pois é, seja qual for o resultado, ainda vamos gramar com o 50 Shades of White mais uns tempos.

Mas como nem tudo é mau, parece que uns australianos descobriram um medicamento já existente que mata o COVID em 48 horas. E mais, o comprimido é feito em Portugal! Chupa, ciência das probabilidades! Segundo consta, é um desparasitante que mata piolhos. E isso é que me está a dar alegria, saber que vou ver tudo o que é tia e beto a ir comprar remédio dos piolhos quando o comprimido sair para venda, daqui a uns meses. Quem haveria de dizer que a igualdade estava num parasita?

E aqui ficam as sugestões do dia.

Comédia:

Diogo Batáguas – Relatório

Música:

Os Mutantes – Os Mutantes

Cinema:

Richard Curtis – The Boat That Rocked

Literatura:

Júlio Verne – A Ilha Misteriosa

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