Quarentena. Dia do trabalha a dor

por Rui Cruz,    1 Maio, 2020
Quarentena. Dia do trabalha a dor
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Rui Cruz é humorista, stand up comedian e um génio (palavras dele). Escreve coisas que vê e sente e tenta com isso cultivar o pedantismo intelectual que é tão bem visto na comunidade artística.

Então e essas comemorações do Dia do Trabalhador? Caraças… isso é que foi uma festa! Carrinhas com música, ajuntamentos em lugares públicos com várias centenas de pessoas e muitas delas sem máscara, coreografias… só faltou porco no espeto para a coisa ser ‘mêmo top’. Engraçado… Tanto se criticou meterem 130 pessoas na AR (e foram menos) para comemorar o 25 de Abril e, dias depois, já se está tudo a lixar para lotações e distâncias de segurança. Somos um grande povo.

Mas apesar da festa ter sido bem asadinha, o mais giro nisto, para mim, foi a maneira como estas comemorações do 1º de Maio acabaram por dar razão e, ao mesmo tempo, tirar razão aos dois grupos de sábios que, nos últimos tempos, têm tomado conta das redes sociais e do espaço de discussão política e ideológica. E sem perceberem! Hilariante.

É que de um lado temos os esquerdalhos, esquerdalhos esses que são contra o fim do estado de emergência porque este só foi decretado para servir os interesses do grande capital às custas do risco de vida dos trabalhadores. É o capital que está a obrigar o mais fraco a enfrentar a morte para os pançudos não perderem dinheiro nas suas multinacionais! Os trabalhadores devem permanecer em casa e o estado garantir que a qualidade de vida não se altera, e etc. etc. Mas quando o motivo para sair de casa é uma comemoração “organizada” pela CGTP ou PCP, aí já não há risco de vida, já pode ir tudo para a rua e está tudo bem camarada, o vírus também é camarada e vem dos camaradas da China e os camaradas não atacam camaradas. Camarada.

Do outro lado temos os liberachos, liberachos esses que acham que se devem abrir todas as actividades e acabar com qualquer restrição porque isso é um atentado à liberdade individual e não estamos na URSS. As medidas de restrição e a quarentena foram um erro e, acima de tudo, uma maneira de estraçalhar a economia para a geringonça institucionalizar a narrativa de que o capitalismo não funciona e assim partir para a nacionalização de empresas, matando o investimento privado porque tem ódio aos ricos. No entanto, quando a actividade tem a ver com qualquer coisa relacionada com a esquerda, seja o 25 de Abril ou o 1º de Maio, já é um escândalo ver pessoas fora de casa, uma afronta aos portugueses e um perigo para a saúde pública que só num estado de extrema esquerda é permitido. Milhões de portugueses não se puderam despedir dos seus familiares e beijar os pés do nosso Senhor Jesus, o Cristo, mas quando é para festejar o marxismo cultural o governo assobia para o lado. Temos de ficar em casa, para o bem da nação. Mas só nestes dias vermelhos.

Percebem a incongruência dos extremos? É ou não é divertida? Enfim… Olhem, na verdade, façam como quiserem, já não estou para me chatear e ando carregado de dor ciática. Ainda por cima hoje é feriado, nem devia estar a escrever, principalmente quando nem sequer sou pago. Saiam de casa e mamem-se na boca ao som do Arménio Carlos a gritar chavões, fiquem em casa a ler Adam Smith e a baterem canholas enquanto usam as lágrimas como lubrificante, o que vos souber melhor, agora desamparem-me é as redes com queixumes e discussões inúteis que por vossa causa já há semanas que quase não vejo nem cães nem mamas na minha timeline e não é para trocar emojis em DMs que eu pago net.

Aqui ficam as sugestões do dia:

Comédia:

David Spade – Take The Hit

Música:

Massive Attack – Mezzanine

Cinema:

Francesco Bertolini, Adolfo Padovan, Giuseppe De Liguoro – L’Inferno

Literatura:

Manuel Rui- Quem Me Dera Ser Onda

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