Quarentena. Não tropeces no banco, Marcelo!

por Rui Cruz,    6 Abril, 2020
Quarentena. Não tropeces no banco, Marcelo!
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Rui Cruz é humorista, stand up comedian e um génio (palavras dele). Escreve coisas que vê e sente e tenta com isso cultivar o pedantismo intelectual que é tão bem visto na comunidade artística.

Depois de há dois dias ter dado um apertão à banca, ali mesmo a encostá-los às cordas com palavras duras como “por favor, sejam nossos amigos… nós também já fomos vossos amigos. Agora é a vossa vez de serem nossos amigos, tá bem? Vamos todos ser amigos?”, o Marcelo reuniu-se hoje com os 5 maiores banqueiros nacionais para saber como vai ser, afinal, isto do apoio às empresas e aos cidadãos. E parece que a coisa correu bem, pelo menos o nosso presidente saiu a dizer que se sentia aliviado, já os seus olhos diziam que ele vai chegar a casa, tomar um duche a escaldar e chorar a morder a esponja enquanto se abana como uma criança com Asperger.

Mas o Marcelo explicou bem o que se passou na reunião. Então, os bancos estão preparados para cumprirem as medidas do governo e também têm iniciativas próprias, nomeadamente várias. Depois, as linhas de crédito já chegaram, estão a chegar ou vão chegar . E quando? Daqui a uns dias ou semanas. E mais! Com estas medidas específicas que são, nomeadamente, várias, os portugueses vão poder ter mais coiso para fazer face lá às situações. Perceberam? Basicamente, o que o Professor nos quis dizer de forma tão eloquente foi que a reunião correu muito bem, mas para os banqueiros.

No entanto, nem tudo foi mau. Por exemplo, pela primeira vez senti-me representado pelo Marcelo. Ele foi tão vago a responder às questões dos jornalistas depois desta reunião que, por momentos, parecia que me estava a ver na adolescência, quando acordava domingo ressacado e a minha mãe me perguntava “onde é que andaste ontem? Nem te ouvi a chegar…”. Houve certas alturas em que, genuinamente, achei que o presi estava mais preocupado em que a malta percebesse que esta crise não foi feita pelos bancos e que também é complicado para eles do que em explicar o que raio se falou na reunião com o banqueiros. E o pior é que, ainda por cima, o Marcelo acabou a dizer que os portugueses podem confiar na banca, o que me trouxe logo aqueles flashbacks com os helicópteros do “Platoon”, a “Adagio” a tocar e o Cavaco e o Zé Gomes Ferreira por trás a dizerem em eco que “o BES está sólido”.

Tenho de pedir desculpa por esta última tirada. O Professor não gosta que ataquem a banca. Aliás, fez questão de dizer, em tom reprovador, que “está na moda bater na banca” (esta foi para ti, Rio. Vê lá se baixas a crista que o Marcelo não quer sombras na opinião pública.), mas que sente os bancos mobilizados e atentos à situação dos portugueses. O que ele esquece é que pedir aos portugueses para confiarem, hoje, na banca é como pedir àquela miúda que foi violada pelo pai, pelo irmão e pelo padrasto que volte a confiar nos homens e ficar muito escandalizado quando ela mostrar alguma relutância. Vai demorar, Marcelo. E vai ser preciso muito carinho e paciência por parte dos senhores banqueiros e, acima de tudo, que deixem de tentar ganhar dinheiro com tudo, desde a manutenção de contas, passando pela cobrança de taxas por transferências MBWay, até chegar aos empréstimos sem garantias a milionários que não os pagam, mas que conseguem meter algum nas contas em paraísos fiscais dos gestores. Isto podia ser um começo.

Até lá, resta-nos esperar que eu esteja a exagerar nesta minha interpretação da conferência de imprensa e que o Marcelo tenha conseguido mesmo encostar a banca à parede, mas não queira gabar-se porque é português, logo muito humilde. E é bem capaz de ser verdade. É que vendo bem o histórico, o Marcelo sempre se deu bem com a malta dos bancos.

E aqui ficam as sugestões para o dia.

Comédia:

Eddie Murphy – Delirious

Música:

Confidance Man – Confident Music for Confident People

Cinema:

Cameron Crowe – Almost Famous

Literatura:

Rui Sinel de Cordes, Paulo Almeida, Rui Cruz, Manuel Cardoso – Very Typical: Os Piores Hábitos dos Portugueses

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