Quarentena. O cofre do homem vivo

por Rui Cruz,    25 Março, 2020
Quarentena. O cofre do homem vivo
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Rui Cruz é humorista, stand up comedian e um génio (palavras dele). Escreve coisas que vê e sente e tenta com isso cultivar o pedantismo intelectual que é tão bem visto na comunidade artística.

Hoje não vi notícias. É verdade, decidi que ia tirar o dia para fazer outras coisas que não ficar especado à frente da TV a ver o contador de infectados, os comentadores a falar do vírus, os mortos, o caos económico, a esperança e essas coisas todas. Hoje foi um dia só para mim. Resultado? Estou ainda mais aborrecido do que ontem. Quão aborrecido, perguntam vocês? O suficiente para ter experimentado fazer Pilates. Sim, nem sequer estou a gozar. Eu, Rui Cruz, passei meia hora a fazer posições estranhas, de fita na cabeça e t-shirt do “The Godfather”, enquanto ouvia bandas de Manchester. Fiquem com esta imagem e façam com ela o que quiserem.

Bom, mas o facto de ter estado o dia todo sem ver notícias, apesar de me deixar aborrecido, deu-me tempo para pensar em algumas coisas e há uma dessas coisas que agora não me sai da cabeça. Man… Onde raio está a Igreja?

É que, parecendo que não, estamos no meio de uma pandemia que afecta não só a saúde da malta, mas também a economia, há hospitais sem material para acudir a todos os doentes, há pessoas em risco de perderem o emprego e o sustento e, a não ser que me tenha escapado algo enquanto esticava uma perna de rabo para o ar esta tarde, a única coisa que a Igreja, essa instituição cuja sede é uma cidade-estado, fez foi… escolher dois dias para rezarmos todos, certo?

Não deixa de ser estranho que uma instituição que, supostamente, defende a solidariedade e que, por acaso, até tem coisas como altares em ouro, carros blindados e perfumes feitos exclusivamente para Papas ainda não se tenha chegado à frente para, sei lá, oferecer algum dinheiro para material hospitalar, desenvolvimento de vacinas ou até criar um fundo para ajudar pessoas e pequenos negócios que estão a passar dificuldades. Lembro-me de ler, há uns anos, uma frase de um cardeal que versava qualquer coisa como “os tesouros da Igreja não lhe pertencem, mas sim a toda a humanidade”, se isto é verdade, se calhar estava na hora de irmos buscar a nossa parte.

É que mais do que a falta de acção dessa instituição que tanto gosta de apregoar o bem que faz, como se a soberba não fosse um pecado mortal segundo o Livro que seguem, intrigam-me as palavras do Papa Francisco que diz que se deve combater a pandemia com “oração, compaixão e ternura”. Epá, eu não sou médico, mas estou em crer que com medicamentos a coisa era capaz de resultar melhor. E se seguirmos o raciocínio deste pessoal e acreditarmos que Deus está por trás de tudo o que acontece, vamos estar a rezar ao gajo que não só criou o vírus como também o mandou para aqui, que é mais ou menos a mesma coisa dizer ao carrasco que ele é muito bonito e cheira bem na esperança de que ele pare de afiar a guilhotina.

Mas pronto, se a Igreja não está com muita vontade de abrir os cordões à bolsa, não a podemos obrigar, até porque ela não tem de o fazer contrariada, mas deixo aqui só uma achega aos sacerdotes que me possam ler: meus caros, entre os grupos de risco do corona estão idosos e recém nascidos. Ora… não é por nada, mas a continuarem assim, impávidos e serenos, não se queixem que daqui a uns meses não têm ninguém para vos encher as missas e aquecer as camas.

Sugestões do dia:

Comédia:

Marc Maron – End Times Fun

Música:

Fields of the Nephilim – Nephilim

Cinema:

Wes Anderson – Rushmore

Literatura:

Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo 

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