Quarentena. Uma aula por dia nem sabe o bem que lhe fazia

por Rui Cruz,    21 Abril, 2020
Quarentena. Uma aula por dia nem sabe o bem que lhe fazia
PUB

Rui Cruz é humorista, stand up comedian e um génio (palavras dele). Escreve coisas que vê e sente e tenta com isso cultivar o pedantismo intelectual que é tão bem visto na comunidade artística.

Se há coisa que ex namoradas e amigos próximos me dizem várias vezes, para além de “porque é que estás de vestido?” ou “devias beber menos”, é que eu sou um tipo que não se entusiasma ou se surpreende com facilidade, como se fosse um defeito horrível, mas hoje é um daqueles dias em que não só me surpreendi como me entusiasmei quando vi o número de espectadores telescola. Pois é, ontem, o dia em que as aulas pela televisão arrancaram, a RTP Memória não só quadruplicou a sua audiência como passou a CMTV e, inclusivamente, o “Programa da Cristina”, fixando-se como quarto canal mais visto da nossa TV. E se é verdade que muitas das pessoas que assistiram às aulas o fizeram apenas para gozar com os professores nas redes sociais e outras são alunos que estão obrigados a comparecer à chamada, houve um tipo de espectador que me apanhou completamente desprevenido: os idosos.

Ao longo dos dias de ontem e de hoje, fui lendo vários posts de pessoal a dizer que apanhou pais e avós a verem a telescola e, espante-se, a aprenderem ou a quererem aprender com ela. E isso, meus caros, é muito bom. Vivemos num país com a taxa de analfabetização mais elevada da UE (isto sem falar da iliteracia, porque se formos consultar as caixas de comentários de qualquer site de notícias percebemos que esta é bem mais alta do que qualquer equipa all stars da NBA) e muitas das pessoas que dão corpo a estes números são idosos que ainda são testemunhas de um tempo em que ler e escrever era luxo. Ora, apesar de nos últimos anos se terem criado projectos interessantes para aumentar o nível de escolaridade da população (Novas Oportunidades, Universidade Sénior, etc.), podemos ter aqui “descoberto”, acidentalmente, uma coisa que pode ajudar e chegar a bem mais pessoas. A telescola, não sendo o ideal, retira a vergonha que muita gente adulta tem de mostrar as suas falhas. Não é fácil para um pessoa de 70 anos (quem diz 70, diz 40 ou outra idade de adulto) dizer que não sabe escrever ou assumir que não percebe nada de matemática à frente de outras pessoas, não é fácil convencê-lo, também, a procurar e inscrever-se numa escola e muitas vezes nem sequer é viável devido a problemas de saúde ou à distância a que fica, mas é fácil carregar num botão do comando e assistir, em casa, protegido e confortável, a lições de História, Português ou Geografia. Mais do que fácil, é saudável e apenas uma pequena mudança de hábitos: continua-se a ver televisão, mas em vez de ver a Cristina, o Goucha ou a Fátima Lopes a implorarem para idosos gastarem toda a sua reforma a ligarem para linhas de valor acrescentado ou tentarem impingir o Cogumelo do Tempo, vê-se a stôra Teresa a explicar como se conjugam verbos e a mostrar quem é o Cesário Verde. Porque se há coisa que estes números/casos provam é que há gosto em aprender, muitas vezes não há (houve) é oportunidades. Para além disso, e falando aqui um neto de duas avós com Alzheimer e um avô com demência, manter um cérebro activo ajuda (e muito!) a minimizar os sinais de degradação mental e até física. Aprender rejuvenesce e o sentimento de utilidade, de “ainda consigo” e “ainda tenho coisas para fazer”, também.

O que quero dizer com isto tudo é que, mesmo depois da pandemia passar, não seria nada mau o governo sentar-se e pensar em manter a telescola. Não, não estou a dizer para os putos ficarem sempre em casa e  para se acabar com as aulas presenciais e os beijos atrás do polivalente, estou a dizer que manter aulas na TV é uma maneira de não só combater a analfabetização e iliteracia nos mais velhos (e não tão velhos), mas também de lhes dar algo útil. É serviço público e é para isso que existem os canais de TV do estado, para fazerem serviço público. Além disso, até para os professores é bom. Numa altura em que todos os anos há milhares de professores sem colocação, aqui temos uma maneira de empregar mais uns quantos (para além de técnicos, assistentes, etc). E é por isso que um dia vou ser presidente. Do clube de Dominó da Beira Serra.

Mas a verdade é que, sendo sinceros e aqui que ninguém nos ouve, até nós preferimos ver um professor atrapalhado com um powerpoint na TV do que mais uma repetição do “Donos Disto Tudo”.

Aqui ficam as sugestões do dia:

Comédia:

Donald Glover – Weirdo

Música:

Led Zeppelin – IV

Cinema:

Terry Gilliam – Fear and Loathing in Las Vegas

https://www.youtube.com/watch?v=8m662obIvhY

Literatura:

F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados

por ,    2 Maio, 2020

Rui Cruz é humorista, stand up comedian e um génio (palavras dele). Escreve coisas que vê e sente e tenta […]

Ler Mais