Quem é lindo? Quem é lindo?
De nada me valeu ter quinze primos pois quase todos eram demasiado velhos para brincar comigo. Durante a semana havia amigos e ao fim-de-semana também, mas quando chegava o Verão todos iam para as suas faustas famílias com ninhadas de crianças como elas, cheias de energia e com olhos bonitos das cenouras que comiam.
Quando o Verão chegava a Guimarães e os amigos da escola já tinham emigrado para as suas terras mágicas com nomes acabados em «el», sobrava-me a companhia dos cães. Eram eles — tínhamos quatro labradores: dois castanhos e dois cor de mel — que me carregavam de junho a setembro, entre montadas-tipo-cavalo, rebolanços na relva e pêlos molhados da piscina.
A solidão combatia-a deitando-me do seu lado, correndo muito, pondo-me de quatro patas e tentando pertencer à matilha, woof woof. Queria ser como eles: comer tudo, ser estúpido, esquecer-me do que estou a fazer e receber mimo de barriga para cima. Eles aceitavam-me no seu grupo canino: eram os irmãozinhos que amava sem saber que já podia amar.
Uma vez cheguei a casa e já só lá estava a mais velha. Os outros estariam no monte e mais tarde voltariam, disseram-me os pais. Caiu a noite e a infância. Os meus primeiros amigos comeram veneno para raposas e foram encontrados tombados, um a um, pelos homens da quinta. Depois vieram outros e outros, mais e mais. A minha vida foi feita de água, pão e cães — bendita.
A minha mãe preferia cadelas porque eram mais «espertas». Eu não me importava porque assim continuava a ser o único macho da casa. As cadelas gostavam inevitavelmente de mim e eu delas. À noite, no sofá, ela enroscava-se ao meu lado e eu ainda ouvia o seu coraçãozinho acelerado de tantas brincadeiras ganhas no jardim, tanto futebol, protegendo-a com o mesmo carinho que um irmão protege uma irmã que ainda vai crescer, ainda vai crescer.
Depois veio um macho e inevitavelmente competimos pela posição de alfa. Ele era lindo, com uma mancha castanha-avelã no olho direito e um corpo musculado. Em três anos não só perdi a posição de macho como também a de mais bonito da casa. O sujo macho estava proibido de ir para o sofá porque passava os dias a lutar com os dragões, cobras e duendes que havia no jardim, protegendo a sua família como o destino assim lhe impôs. E eu, que tinha os pés limpinhos, apreciava vê-lo da tribuna do sofá, agradecendo à minha mãe a preferência que por mim ainda tinha. Anos mais tarde, encontrei o meu amigo afogado no tanque: morreu numa das suas aventuras, por certo a derrotar um mal que nos cercava.
Os cães são gigantes gomas com pêlos e patas, cheios de amor e baba, mau hálito e traques. Os seus olhos meigos sempre me ajoelham e ridicularizam a voz, devolvendo-me a infância que só tive por tê-los tão perto e com tanto amor, tão perto e com tanto amor. Eis-me, importante homem da city, deitado no chão perante o contacto com a eminência quadrúpede, na esperança de que ela suba para mim e me ataque com lambidelas e cheiradelas.
Há um certo tipo de pessoas amargas, cara fechada, zangadas, dir-se-ia impenetráveis, cuja manifestação de carinho só é resgatada por cães. Não dão confianças, são maus, mordem, mas quando veem um cão derretem-se em mimos, festas na barriga, voz ridícula e «Quem é lindo? Quem é lindo?». São os solitários, que tiveram infâncias sós, mas nos cães encontraram sempre amigos para brincadeiras e segredos – e assim, nas costas deste bicho mágico, trazem alguma paz a si.
E o segredo de infância, esse, mantém-se: «Onde tu vais, eu vou; onde tu estás, eu estou; se houver comida, melhor.»
Sugestões do cronista:
Este mês salto para a vossa esquerda burguesa e recomendo duas associações: a Regional de Vela do Centro porque é lá que se come o melhor arroz de lingueirão malandro malandrinho de Lisboa. Ao seu lado esquerdo terá o azul do Tejo; em baixo o cor-de-laranja do arroz e à frente o amor da sua vida. Saia desse restaurante, ande uns valentes metros para a esquerda e vai dar com outra associação, que é mais tetos – a Brotéria. O senhor entre e levante a cabeça – já está. Nos livros voltei ao ensaio “Prospects: Are We Heading for the Proletarian Revolution?” da Simone Weil e deu-me vontade de rir como a esquerda trocou a luta de classes pelas políticas identitárias: quem vos oprime estruturalmente não é o machismo, mas o capitalismo selvagem. Na música beijei Kanye West e senti a dor que é não conseguir deixar de amar um filho criminoso.
