Quem foi Mary Jane Patterson, uma das primeiras licenciadas afroamericanas?

por Lucas Brandão,    4 Agosto, 2025
Quem foi Mary Jane Patterson, uma das primeiras licenciadas afroamericanas?
DR

Mary Jane Patterson, registada a 12 de setembro de 1840, cresceu no seio de uma família de Ohio, a norte dos Estados Unidos. A comunidade afroamericana na qual a sua família estava inserida era bastante coesa, composta por várias famílias, em que muitas delas advinham de escravos que passaram a ser livres e de outros fugitivos. Ohio, que era um dos estados relativamente mais progressistas do país e que chegou a acolher a formação de escolas e de institutos que recebiam homens e mulheres em simultâneo, algo em muito inovador para essa sociedade dos meados do século XIX.

Apesar de Lucy Stanton Day Sessions, onze anos antes, ter sido graduada, e, de igual modo, se mencionar o nome de Grace A. Mapps, em Nova Iorque, na mesma década de 1850, seria Mary Jane Patterson, em 1862, a receber a primeira licenciatura oficial para uma mulher afroamericana. A sua infância seria vivida nas redondezas do estado da Carolina do Norte, embora tenha partido para Ohio ainda criança. Aqui, Patterson teve uma educação esmerada, contactando de perto com o grego, o latim e as matemáticas, beneficiando do espírito aberto e instrutivo da vila de Oberlin, um lugar que acolhia uma forte comunidade afroamericana e que partilhava de ideais abolicionistas, antiescravagistas. Oberlin, que seria um lugar no qual germinariam muitos outros vultos relevantes para a história dos direitos dessas comunidades, perfilhando um caminho em muito alimentado pelo ativismo dos seus.

Nesta, viria a ingressar num curso feito somente para cavalheiros, isto apesar do ensino misto que se ia manifestando. Isto depois de ter fintado o ingresso num programa formativo dedicado somente a mulheres, como era tipicamente feito, depois de concluir o programa preparatório do ensino superior de Oberlin com boas notas. Este curso no qual entrou era vocacionado para os estudos clássicos, nos quais se enquadram as aprendizagens dos idiomas referidos. Concluiria em quatro anos, com altas honras, no ano de 1862, proferindo um discurso de graduação sobre o libertador e unificador italiano Giuseppe Garibaldi, e juntar-se-ia aos anais da história do ensino do seu país.

Depois da sua formação, herdaria a vocação letiva do seu pai — um alegado ex-escravo, era amigo de infância do futuro presidente Andrew Johnson e dava aulas a jovens afroamericanos para sustentar a sua família, para além da sua profissão de canteiro — e viria a lecionar em Chillicothe, uma pequena localidade no sul do Ohio. No entanto, aos 22 anos, e apesar de um tentador convite para regressar a Oberlin, deslocou-se para o estado da Pensilvânia, para a cidade de Filadélfia, na qual deu aulas durante sete anos, no seu Instituto da Juventude de Cor. No rescaldo da Guerra Civil, que assolou os Estados Unidos e os dividiu ainda mais, mostrou estar totalmente dedicada à causa de formar cidadãos conscientes da sua realidade, da sua raça e da sua história. Como perfil de docente, foram-lhe reconhecidas qualidades como uma erudita de formação cristã, que pautava a sua conduta pela gentileza e pela alegria, refletida na sua vocação para a canção. Da Pensilvânia, onde garantiu um ensino de referência pela qualidade e pelos resultados obtidos, passou a dar aulas na futura capital do país, Washington D.C..

Nesta cidade, teve a companhia do primeiro estudante afroamericano a graduar-se em Harvard, de seu nome Richard Theodore Greener, que seria nomeado diretor da Dunbar High School. Esta escola, que passou de informal para uma instituição credenciada de ensino secundário, era onde dava aulas e onde chegou a dirigir como antecessora e sucessora de Greener, já que a passagem deste se resumiu a um ano. Foi uma fase em que duplicou em dimensão – tanto em estudantes como em professores, na qual estes também eram formados – e na qual a personalidade forte de Patterson pesou, ajudando a aumentar o rigor intelectual dessa instituição. Aliás, seria a primeira faculdade pública na cidade e a primeira do país para afroamericanos, na qual Patterson ficaria até 1884.

Patterson nunca chegaria a casar, vivendo com as irmãs e o irmão — que também se viriam a graduar em Oberlin e a tornar-se professores — ou com os pais. O tempo que, porventura, dedicaria à sua família foi-o direcionado para inúmeras organizações afroamericanas, como a Casa para as Pessoas de Cor Idosas e Enfermas. O trabalho começava nas bases, desde o infantário, passando pelas classes sociais mais necessitadas, pelas domésticas e pelas primeiras industriais do país. Com isto, preparava as próximas gerações, tanto as mais chegadas, como aquelas que viriam nas décadas seguintes.

De igual modo, envolveu-se na frente da defesa dos direitos das mulheres com a sua colega Fanny Jackson, na Pensilvânia, da qual foi assistente. Posteriormente, com as ativistas Josephine Beall Bruce, Anna Julia Cooper, Charlotte Forten Grimke e Mary Church Terrell, fez parte da fundação da Liga de Mulheres de Cor da futura capital dos Estados Unidos; para além de investir as suas poupanças no ensino de outros tantos jovens como Patterson fora. Estes seus intentos marcariam os primeiros passos da Associação Nacional de Mulheres de Cor, visando, então, somente treinar as mulheres nos seus afazeres letivos e domésticos. A sua vida acabaria a 24 de setembro de 1894, aos 54 anos. Imortalizada ficou a sua residência, o número 1532 na 15th Street, NW, fazendo parte dos roteiros turísticos da cidade, em especial do roteiro da história das comunidades afroamericanas.

Mary Jane Patterson trouxe um enorme legado consigo desde muito cedo, mal se formou. Seria das primeiras afroamericanas a conseguir um grau académico que lhe permitisse mudar a sociedade. Uma mudança fermentada pelo seu investimento na educação dos seus e pela criação de oportunidades para estes jovens. A sua personalidade vincada e destemida serviu para quebrar preconceitos e garantir políticas de qualidade nas escolas nas quais trabalhou. Assim, contribuiu para que o ensino público se tornasse rigoroso e trabalhoso, mas também dinâmico e sempre ligado ao que a sociedade pedia. Fazendo da adversidade força e caminho, Patterson plantou e sedimentou frutos que, ainda hoje, são saboreados com vulnerabilidade e incerteza. Para isso, o processo de luta que defendeu como estandarte e pilar da educação.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados