Quem nos convenceu de que só os doutores têm sucesso?
A educação continua a ser o maior elevador social que existe. Sempre acreditei nisso. Continuarei sempre a acreditar.
Estudar transforma vidas, abre horizontes, cria oportunidades e muda o destino de famílias inteiras. É precisamente por acreditar nisso que defendo que todos os jovens devem ter a oportunidade de estudar e de chegar o mais longe possível.
Mas há uma pergunta que precisamos de ter a coragem de fazer. Quando foi que começámos a confundir educação com estatuto? Talvez tenha sido nesse momento que começámos a desvalorizar milhares de profissões indispensáveis ao funcionamento da nossa sociedade.
Durante décadas, convencemos uma geração inteira de que o sucesso passava inevitavelmente por um diploma universitário. Sem querer, fomos criando profissões de primeira e profissões de segunda. E hoje estamos a pagar essa fatura.
Há muitos licenciados à procura de trabalho. E há muito trabalho à procura de profissionais. Faltam eletricistas. Faltam canalizadores. Faltam mecânicos. Faltam soldadores. Faltam tantos profissionais que mantêm o país a funcionar todos os dias.
Não porque estas profissões tenham deixado de ser importantes. Mas porque, durante demasiado tempo, deixámos de lhes dar a importância que mereciam.
O problema nunca foi incentivar os nossos filhos a estudar. O problema foi fazê-los acreditar que estudar era o único caminho para uma vida com dignidade, reconhecimento e sucesso. Isso nunca foi verdade.
Hoje, um excelente eletricista pode ganhar mais do que muitos licenciados. Um canalizador competente dificilmente fica sem trabalho. Um mecânico especializado é disputado. Porque o mercado não paga títulos. Paga competência.
Nenhum hospital funciona sem eletricidade. Nenhuma fábrica produz sem manutenção. Nenhuma escola abre portas sem quem garante que tudo funciona. Nenhuma cidade vive sem quem constrói, instala, repara e resolve. Todos somos necessários. Todos contribuímos. Todos merecemos o mesmo respeito.
O problema nunca foi valorizarmos médicos, engenheiros, professores ou advogados. Essas profissões merecem toda a admiração. O problema foi fazermos acreditar que todas as outras valiam menos.
Criámos uma cultura onde muitos pais sorriem quando um filho diz que quer ser engenheiro. Mas hesitam quando esse mesmo filho diz que quer ser eletricista. Como se a dignidade de uma profissão dependesse do título e não da forma como é exercida. A verdade é exatamente a contrária. O valor de uma pessoa nunca esteve no nome da profissão. Nem no grau académico. Nem no cargo que ocupa. Está na competência. Na ética. Na dedicação. Na capacidade de fazer bem.
Talvez tenha chegado o momento de mudarmos a pergunta que fazemos às novas gerações. Em vez de perguntarmos: “Queres ser doutor ou engenheiro?” Talvez devêssemos perguntar: “Em que podes tornar-te verdadeiramente extraordinário?” Porque Portugal precisa de mais licenciados. Mas também precisa de mais eletricistas. Mais canalizadores. Mais mecânicos. Mais técnicos. Mais profissionais de excelência.
Não precisamos de menos educação. Precisamos de menos preconceito. Talvez o maior erro que cometemos não tenha sido incentivar os nossos filhos a estudar. Foi ensinar-lhes que algumas profissões valem menos do que outras. E esse é um erro que ainda vamos a tempo de corrigir. Porque a melhor profissão do mundo nunca será a que dá mais estatuto.
Será sempre aquela que permite a alguém deitar a cabeça na almofada com o orgulho de um trabalho bem feito.
O futuro não precisa de mais títulos. Precisa de mais talento.
