“Rainha de Copas”, de May el-Toukhy: manipulação e riqueza sensorial

por João Estróia Vieira,    6 Outubro, 2020
“Rainha de Copas”, de May el-Toukhy: manipulação e riqueza sensorial
“Rainha de Copas”, de May el-Toukhy
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May el-Toukhy traz-nos aqui em “Rainha de Copas”, disponível na plataforma Filmin, uma história que vamos vendo por aí, de tempos a tempos, num cinema perto de si, mas com clivagens que tornam esta sua obra num objecto único. É que aqui, apesar da mulher ser a “predadora sexual”, a vítima é o jovem, seu enteado, numa viagem pela tragédia grega (aproveitando a ligação da autora ao teatro) Fedra, onde a esposa de Teseu se envolve, num acto de pura luxúria, com o enteado Hipólito.

David Mourão Ferreira escreveu certo dia “quis a tua nudez, não quis que te despisses.” Depois de muitos anos com esta frase na mente, ainda hoje não ouso dizer que reconheço a totalidade do seu significado, mas sei que muitos filmes pecam no que Mourão Ferreira aqui nos diz, dando gratuitamente o que a mente saboreia sem precisar de ver. A nudez aparece-nos de forma atabalhoada e sem sedução ou desejo plausível que a sustente ou legitime. Não tem de haver querer, tem de haver, mais que isso, a sua demonstração interior. Não temos de ver os gestos, temos de os ver a ser pensados e processados, e nesse aspecto, tão importante quanto o que se quer colocar em cena, é o motor que o transporta, o actor. No tarot, a rainha de copas está ligada ao domínio sobre as emoções, bem como o seu controlo e equilíbrio. Esta é também a “Rainha de Copas” de May el-Toukhy.

Em 2013 Anne Fontaine trazia-nos o overlooked “Paixões Proibidas” (“Adoration”, no título original), com as soberbas Naomi Watts e (sobretudo) Robin Wright nos papéis de amigas de infância que se apaixonam pelos filhos uma da outra. Traz-se Robin Wright à colação por várias ordens de razão. A primeira – e a mais óbvia -, pela óbvia parecença física com a protagonista de “Rainha de Copas”, Trine Dyrholm (já lá iremos ao que interessa: a sua interpretação). A segunda, pela inevitável referência que Robin Wright traz consigo, o seu papel enquanto Claire Underwood no clássico contemporâneo que foi a série “House of Cards” onde interpretou uma das mais memoráveis e emancipadas personagens femininas dos nossos tempos e de onde a “Rainha de Copas” vai buscar grande fundamento. Terceiro, pelo look quase obrigatório que as personagens emancipadas femininas têm consigo de tempos a tempos no Cinema: a loira, de meia idade, com carreira conseguida e de cabelo ora mais longo ou mais curto, permanecem forças motrizes imutáveis (dos clássicos do cinema à intemporal Sharon Stone).

Trine Dyrholm é Anne, uma reputada advogada especializada em casos de violência sexual e com um casamento teoricamente feliz cuja rotina é abalada com a chegada do filho rebelde do seu marido, fruto de um relacionamento anterior. Coincidente com a chegada temos em Anne o crescimento das inseguranças próprias e óbvias da sua idade, o corpo, o envelhecimento e a rotina sexual. Mas porquê só às mulheres são atribuídas tais características? Porquê só a mulher é “frágil” nestes aspectos? Se o filme rompe com algumas correntes já assumidas, acaba por se ladear de outras tantas desnecessárias e, porventura, mais óbvias. Interessante é ver o crescimento do conflito, a forma com que os actores nos trazem esse desenvolvimento emocional e nos proporcionam cenas de nudez explícita tantas vezes omitida. Mas a vida não só poemas, e às vezes queremos despir-nos, poderíamos responder a Mourão Ferreira. E há espaço para tudo.

Este “Rainha de Copas” é a demonstração mordaz e desconfortável, personificada aqui na fragilidade masculina do marido de Anne, uma figura quase descartável para ela, de que a incerteza corrompe muito mais o espírito do que a certeza. Há algo com que o ser humano sempre teve dificuldade em lidar: a sua ignorância, o desconhecimento. O saber pode magoar, mas a ignorância é uma dor que se prolonga sem prazo de validade. “Rainha de Copas” é cinema rico em sensações, desconfortos e frieza, bem regada pela performance estelar de Trine Dyrholm, e que se desenvolve para criar segredos numa família rica, e perfeita vista de fora – mas quem é, de facto? O cinema enquanto imposição imagética que numa personagem que se rebate e ganha a vida pela oratória demonstra também que, acima de tudo, argumentar enquanto se foge é assumir a culpa na própria discussão.

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