“Reality Politics”: a economia da atenção
Nunca tivemos tanta informação à nossa disposição. Acompanhamos debates em direto, comentamos intervenções enquanto ainda decorrem, vemos discursos reduzidos a excertos poucos minutos depois de serem proferidos e acordamos, não raras vezes, com a polémica que deverá ocupar o resto do dia. A política tornou-se omnipresente e, paradoxalmente, essa abundância não significa necessariamente que tenhamos mais tempo para a compreender. Significa, antes, que ela passou a disputar a nossa atenção num espaço onde informação, entretenimento e reação competem segundo regras cada vez mais semelhantes.
É nessa aproximação que começa aquilo a que podemos chamar Reality Politics. A política sempre teve uma notória dimensão performativa. Os grandes comícios foram concebidos para mobilizar multidões muito antes da televisão, os líderes sempre cultivaram uma imagem pública e a retórica nasceu da necessidade de persuadir. A novidade está noutro lugar: na intensidade com que a lógica dos meios de comunicação passou a organizar o espaço político.
A ciência política e os estudos da comunicação descrevem parte deste processo através do conceito de mediatização da política: os media deixam de ser apenas o canal através do qual a política chega aos cidadãos e tornam-se um ambiente cujas regras os próprios atores políticos precisam de aprender. Um político que queira comunicar já não pensa apenas no conteúdo daquilo que pretende dizer, mas também na forma como essa mensagem sobreviverá à televisão, à manchete e, hoje, ao reels.
Esta transformação seria relativamente inofensiva se as regras da atenção fossem neutras – acontece que não são. Uma explicação sobre política migratória, habitação, fiscalidade ou Segurança Social precisa de contexto, admite frequentemente dúvidas e raramente termina numa conclusão absolutamente satisfatória. O conflito, pelo contrário, é imediatamente inteligível.
Talvez por isso tenhamos começado a falar dos debates políticos de uma maneira curiosamente semelhante àquela com que falamos de competições. Perguntamos quem ganhou, quem perdeu, quem teve “o momento da noite”, quem conseguiu encostar o adversário às cordas e qual será a frase que sobreviverá no dia seguinte.
Os próprios formatos televisivos acompanham esta mudança. À volta de dois candidatos acumulam-se moderadores, jornalistas, comentadores e painéis de análise que, em alguns casos, ocupam muito mais tempo do que o debate que lhes deu origem. Não deixa de ser curioso que tenhamos criado um modelo no qual os candidatos dispõem de poucos minutos para explicar posições complexas e, imediatamente depois, várias pessoas dispõem de muito mais tempo para explicar ao público aquilo que os candidatos terão querido dizer.
Deste modo, entre o acontecimento político e o cidadão instala-se uma segunda narrativa que é produzida praticamente em simultâneo com a primeira. Ainda o debate não terminou e já existem vencedores, derrotados, momentos decisivos e interpretações consolidadas. A informação deixa de se limitar a relatar aquilo que aconteceu e participa, inevitavelmente, na definição daquilo que deverá ser considerado importante no que aconteceu.
É neste ponto que a Reality Politics deixa de ser apenas uma reflexão sobre televisão e começa a tocar num dos fenómenos políticos mais importantes das últimas décadas: o crescimento do populismo.
Começo por esclarecer que não pretendo inverter qualquer causalidade: os media não criaram o populismo, tal como as redes sociais não explicam, por si só, o seu crescimento. As diferentes transformações económicas, crises de representação, mudanças sociais, insegurança cultural e perda de confiança nas instituições fazem parte de uma explicação necessariamente mais vasta. Mas o populismo moderno encontrou na economia da atenção um ecossistema particularmente favorável à sua linguagem.
Assistimos a uma afinidade caricata e profunda: o populismo tende a desconfiar dos intermediários, porque a sua narrativa assenta numa ligação supostamente direta entre o líder e o “verdadeiro povo”. As redes sociais tornaram tecnicamente possível uma comunicação quase permanente sem mediação jornalística, ao mesmo tempo que os meios tradicionais continuaram a oferecer enorme visibilidade aos protagonistas que melhor dominam o conflito.
Daqui resulta uma relação aparentemente contraditória, mas bastante funcional. Um ator político pode construir parte da sua identidade através do ataque aos media e depender, ao mesmo tempo, da atenção que esses mesmos media lhe dedicam. Cada confronto confirma a narrativa de perseguição perante os seus apoiantes e, simultaneamente, multiplica o alcance da mensagem perante todos os restantes. A polémica deixa assim de constituir um custo inevitável da comunicação e pode tornar-se uma estratégia particularmente eficaz de comunicação.
Foi difícil não pensar neste mecanismo perante a súbita projeção mediática das Mulheres Conservadoras Portugal. A questão não está em saber se posições conservadoras devem ter espaço na televisão; evidentemente que devem, como devem as posições progressistas, liberais ou outras que participem legitimamente no debate democrático. Seria contraditório escrever sobre os perigos da simplificação política para acabar a defender uma espécie de controlo ideológico sobre quem merece falar.
O que me interessa é uma pergunta diferente: como decidimos atualmente aquilo que merece horário nobre?
A representatividade social de um movimento deveria importar. A consistência das posições que apresenta também. A capacidade de acrescentar alguma coisa a uma discussão pública deveria, pelo menos em teoria, contar mais do que a facilidade com que uma intervenção se transforma num excerto viral. No entanto, quando um movimento recente e ainda com implantação difícil de medir recebe rapidamente uma exposição mediática muito significativa, vale a pena perguntar se estamos apenas a observar uma realidade social ou se a própria exposição começa a participar na sua construção.
O mecanismo é relativamente fácil de compreender. Um movimento começa a gerar atenção nas redes sociais e essa atenção torna-se notícia. A notícia aumenta a notoriedade do movimento, que passa a justificar entrevistas e debates precisamente porque se tornou mais conhecido. Não é preciso presumir qualquer intenção política por parte de quem programa estes espaços; basta reconhecer que a procura de audiência, a procura de visibilidade política e a procura de interação digital podem reforçar-se mutuamente.
É neste sentido que a lógica comercial da informação tem consequências políticas mesmo quando não existe qualquer agenda partidária por detrás dela. Ao escolher aquilo que merece atenção, os media não determinam aquilo que devemos pensar, mas contribuem inevitavelmente para determinar aquilo sobre que pensamos. Esta é, aliás, uma das intuições clássicas da teoria do agenda-setting, e tornou-se ainda mais relevante num espaço público em que a notoriedade pode ser produzida simultaneamente pela televisão, pelas plataformas digitais e pela reação entre ambas.
É também assim que uma alteração do sistema mediático pode acabar por produzir uma alteração da própria cultura democrática. Se tudo tiver de ser imediatamente compreensível, haverá menos espaço para a dúvida.
Uma democracia liberal parte de uma premissa bastante menos excitante do que qualquer narrativa populista: pessoas razoáveis podem discordar profundamente sobre a sociedade em que querem viver e continuar, ainda assim, a reconhecer-se como membros legítimos da mesma comunidade política.
A política submetida à economia da atenção convida-nos constantemente a escolher campos, a identificar adversários e a acompanhar o conflito seguinte. A democracia exige uma disposição diferente e muito menos espetacular: reconhecer que, depois das eleições, dos debates, das tendências e das polémicas que ocuparam o dia, aqueles de quem discordamos não desaparecem.
Continuaremos a votar de maneira diferente, a discutir sobre aquilo que deve mudar e a disputar legitimamente o sentido das decisões coletivas. Mas continuaremos também a encontrar-nos nas mesmas instituições, a depender dos mesmos serviços públicos e a decidir sobre um futuro que nenhum de nós pode construir sozinho. É essa circunstância, simultaneamente banal e exigente, que a lógica do espetáculo tende a fazer-nos esquecer.

