Reportagem. Dulce Maria Cardoso: “O SNS está a ser saqueado: há mais hospitais privados a enriquecer, a saúde tornou-se no negócio que não deveria ser”
Foi no Largo Santo Ildefonso, na Batalha, no Porto, que um público interessado se reuniu para ouvir Dulce Maria Cardoso numa sessão moderada por Luís Caetano, no âmbito do festival Babell no dia 26 de Junho. A escritora angolana Ana Paula Tavares era para estar presente também, mas tal não foi possível.
A inteligência Artificial, a noção de Deus, que diz ser “a melhor invenção humana”, as nuances da língua portuguesa e a deterioração da escola pública foram alguns dos temas abordados. À Comunidade Cultura e Arte (CCA), numas breves declarações após a sessão, confidenciou: “Existiram conquistas fundamentais como o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e a escola pública. Sou filha da escola pública e utilizei várias vezes o SNS. Ainda agora esteve aqui uma médica que faz parte de uma equipa de cuidados paliativos que ajudou a minha mãe a morrer em casa, conforme era o seu desejo e isso, para mim, tem um valor inestimável. O que está a acontecer é que há uma regressão dos valores e conquistas do 25 de Abril, no sentido do coletivo, dos seguros privados, das escolas privadas. Quando estudava, andava numa escola privada quem não conseguia andar numa escola pública, agora é ao contrário. O SNS está a saque também, há cada vez mais hospitais privados a enriquecer, porque a saúde tornou-se no negócio que não deveria ser.”
Sobre se houve espaço para uma verdadeira democratização após o 25 de Abril em Portugal, revelou: “Em 1974, estávamos muito lá atrás. Tivemos uma série de coisas, mas fizemos um longo caminho e, infelizmente, há uns anos para cá, estamos a perder muito terreno porque estamos a destruir as tais conquistas de Abril.”
“Estamos cada mais sozinhos, o número de pessoas que toma anti-depressivos atesta isso. Estamos cada vez mais sós mas somos animais de partilha, existimos para ser amados. Ser amado implica essa fragilidade, essa pouca compostura, a vulnerabilidade, sinceridade. Não se consegue amar uma armadura. Quem ama uma armadura?”
Quanto à Inteligência Artificial, na conversa com Luís Caetano revelou que a utilizava, por exemplo, para lhe pedir conselhos para cuidar das suas plantas, mas à CCA também deixou o aviso: “Preocupa-me muito que não saibamos os ideais das empresas que estão por trás da IA porque têm um poder absoluto. Podem ter uma agenda que visa colonizar-nos o pensamento sem que saibamos sequer o que é que se está a passar, portanto, é um poder desmesurado para tão pouca informação.”
Na sessão com Luís Caetano não deixou de salientar, no entanto, o desenvolvimento de uma maior intolerância à falha. Tornamo-nos “intolerantes a esta ideia de errar”, explicou, “é exigível que saibamos tudo”, numa aproximação às máquinas “que tanto admiramos”.
E acrescentou: “As comunidades imigrantes são, por natureza, muito mais unidas do que fora do seu contexto de imigração. Quando estava em Angola, havia também uma ideia de solidariedade mais apertada e mais efectiva porque é a não pertença, é o desconhecido, o problema é quando depois regressamos às nossas vidas e achamos que devemos representar determinado papel porque estamos sempre com máscaras, máscaras e máscaras”. A autora sublinhou ainda que “estamos cada mais sozinhos, o número de pessoas que toma anti-depressivos atesta isso. Estamos cada vez mais sós mas somos animais de partilha, existimos para ser amados. Ser amado implica essa fragilidade, essa pouca compostura, a vulnerabilidade, sinceridade. Não se consegue amar uma armadura. Quem ama uma armadura?”
“Há a ideia de Deus que para mim é uma ideia do bem, o tal bem exterior que não sei de onde vem. Depois há a religião, que é a organização de uma espécie de seita e, aí, já não tem a ver com essa ideia de bem, é uma coisa iníqua.”
Quanto a Deus ser a melhor invenção humana, à Comunidade Cultura Arte explicou após a sessão que “há a ideia de Deus que para mim é uma ideia do bem, o tal bem exterior que não sei de onde vem. Depois há a religião, que é a organização de uma espécie de seita e, aí, já não tem a ver com essa ideia de bem, é uma coisa iníqua. Basta ver na igreja católica os casos de pedofilia. Não estou a falar da organização humana, estou a falar dessa ideia do bem supremo, do Criador, do Justiceiro no bom sentido, ou seja, de uma ideia de bem que nos é exterior. Sinto-me tão imperfeita, os meus sentimentos são tão imperfeitos, como é que posso ter em mim uma ideia de bem que me diz que roubar é mau? Ou seja, apesar dos humanos roubarem, também são os mesmos humanos que sabem que roubar e matar é mau. Portanto, é dessa ideia de bem de que falo, não é da religião, da Igreja, nada disso.”
Sobre se essa ideia de Deus, de bem, nos deveria fazer acolher melhor quem vem de fora, Dulce Maria Cardoso explicou à CCA: “Claro, essa ideia de bem é fundamental, até porque mesmo em todos os ensinamentos, até na religião católica, que é a religião que nos é mais próxima, há muitas parábolas que nos ensinam a não ostracizar ninguém. Os bem-aventurados, os pobres de espírito, será deles o reino dos céus, ou seja, é exatamente o contrário do que praticamos depois, porque procuramos o tal poder, a tal fama, essas coisas todas. Mas, na verdade, muitas vezes a redenção está nos que ninguém dá nada por eles.”
