Reportagem. Festival de Cannes 2026. O mundo está dividido e a Croisette também: a culpa é das estrelas
Um surto de ébola a espalhar-se em África, uma frente cultural contra um dos maiores canais financiadores de cinema em França e uma competição oficial disputadíssima. Milhares de jornalistas e de acreditados que, esses sim, estão prontos para fazer os maiores negócios da indústria. Tanto contraste, tanto caos e política. Eis, ao vivo e a cores, a 79.ª edição do Festival de Cannes.
Ao chegar ao aeroporto de Nice, um motorista destapa o seu lado mais bondoso. “Não pague o bilhete normal do metro, não anda aí nenhum pica a esta hora, não se preocupe”. Estamos perto da hora de jantar, a cidade parece tranquila, estranha-se a atitude. Amanhã, sexta-feira, dia 15 de maio, é só mais um dia. Donald Trump foi à China. Um surto de ébola começa a nascer em África. O selecionador português Robert Martinez está quase a anunciar os convocados de Portugal para o mundial. A cerca de 30 quilómetros de Nice, o espírito é diferente. As praias da riviera são ocupadas por eternos cocktails. Cada restaurante, bar ou esplanada, pinta-se tal e qual uma passadeira vermelha, cheia de gente endinheirada, demasiado bem vestida, que reservou quartos com diárias a valer milhares de euros. Que nem se fale do que se passa nos iates. Uma cerveja não custa menos de oito euros, junta-se uma sandes à francesa e parece que estamos a jantar num restaurante estrela Michelin. Dentro do Palais, jornalistas e acreditados comungam em salas de cinema, um calendário do advento cinéfilo onde cada porta que se abre para os filmes marcará o resto do ano. Na rua, se for contra Peter Jackson, realizador da saga “Senhor dos Anéis”, ou John Travolta, ícone de Hollywood, não se admire. Cannes tem este encanto de cidade playmobil, fútil, elitista, viciante até dizer não. Bolha que tanto junta magnatas da Arábia Saudita como estudantes de fato rasca com cartazes a pedir bilhetes para sessões no Grand Theathre Lumiére durante onze longos dias.
A 79.º edição veio provar porque é que é este o festival de cinema mais importante do mundo: mesmo sem os norte-americanos em peso na competição oficial, toda a gente quer estar aqui. A Comunidade Cultura e Arte foi acompanhar a fase mais intensa na Croisette, confirmando que nem mesmo o cinema escapa ao estado dividido e divisivo do mundo. Tão estranho habitar esta bolha, tão raro um festival desta dimensão ser tão ciente do que o rodeia.

Não se acredita quando se olha para a programação. Nesta edição, nenhum grande estúdio de Hollywood esteve em competição oficial, ainda que os Estados Unidos da América tenham andado em força à procura do próximo hit no Marché du Film, o principal evento de Cannes (já lá vamos). Pode ser da América estar cada vez menos interessada na Europa e receosa pelos textos dos famosos críticos de Cannes. Pode ser que não haja tempo para estar noutro sítio que não em salas de reuniões para fazer fusões entre Warner ou Paramount. E ainda se dá o caso dos EUA terem aceitado que o cinema será também ele entregue à Inteligência Artificial. Não? Pelo menos a atriz Demi Moore, uma das juradas escolhidas para integrar a prestigiada equipa de júris liderada por Park Chan-wook, diz que temos de a aceitar de braços abertos. É aceitar e resignar, que custa menos.
Mas com o maior elefante fora a sala, foi a vez de nomes como Rodrigo Sorogoyen (“El Ser Querido”), Pawel Pawlikowski (“Fatherland”), Jeanne Henry (“Garrance”), Cristian Mungiu (“Fjord”), Ryusuke Hamaguchi (“All of a Sudden”) ou Andreï Zviaguintsev (“Minotaur”) tentarem a primeira ou segunda Palma de Ouro. Vinte e dois filmes em competição oficial, onze estreantes, oitenta e cinco longas-metragens espalhadas por diferentes secções, tantas outras curta-metragens e documentários. Família em tempos de guerra, teses anti-capitalistas sobre empatia, dramas dentro de guerras culturais, ou traições dentro de casais a viver num país em guerra. Há temas para todos os gostos. Com a crítica sem saber a quem entregar a estatueta principal, foi-se sempre esperando por uma bomba, como “Sirat”, de Oliver Saxe, o ano passado ou “Irreversível”, de Gaspar Noé, em 2002. Essa urgência de um filme pujante, provocador, radical, foi lentamente substituída por duas teses: ou este era um ano fraco e morno, ou era o melhor em muito tempo por ninguém conseguir destacar um claro vencedor. A culpa é de quem? “Eu sinto culpa todos os dias, sim. Nunca me cansei de sentir culpa, é necessário para fazermos o que é correcto”, disse Sandra Huller em conferência de imprensa sobre o passado nazi da Alemanha durante a conferência de imprensa de “Fatherland”, filme cirúrgico sobre o que não se consegue dizer, expressar, partilhar, entre pai e filha em Guerra Fria.

O cinema como ferramenta de catarse perante os demónios da história. Como é que num evento que custa entre 30 e 40 milhões de euros é possível sentir culpa? E será ela verdadeira ou cheia de contrastes? E como é que nunca é possível almoçar em paz, sem pressa para estreias? Eternas questões. O delegado-geral de Cannes há 18 anos, Thierry Frémaux, sempre a andar de um lado para o outro para apresentar sessões em salas como a Debussy ou a Bazin, é respeitado por não se sentir culpado se o que programa for demasiado escandaloso. O jogo de Cannes é, por isso, de espelhos, sem nunca se revelar completamente. Porque se os filmes podem ser imprevisíveis, pouco confortáveis para uma audiência cada vez mais dominada pelo algoritmo, o que acontece na Croisette também. Pode-se vaiar o Canal+ e a sua produtora StudioCanal, maior da Europa, por ter um dono de extrema direita e ter um Javier Bardem furioso com Trump e Vladimir Putin — “homens com bolas grandes que dizem ‘o meu pénis é maior do que o teu, vou bombardear-te”. Ao mesmo tempo, pode-se, mesmo tendo carteira de jornalista, empurrar cicrano e beltrano para tentar sacar um autógrafo ao casal Alicia Vikander e Michael Fassbender que, vá-se lá saber porquê, integrou o mais louco filme de Cannes, “Hope”, ação sul coreana e alienígena em esteroides de Na Hong-jin. Não há ponta de vergonha para certas figuras, mas haverá sempre um mal-estar de quem devia estar mais focado em informar do que em entreter-se.
A culpa é, então, sentimento transversal em Cannes. Mas que não se cometa um erro simples: ninguém se sente mal por estar aqui enquanto o mundo cai aos bocados. Já no cinema, a história é outra. A culpa espalha-se por todos os continentes. A sentida por um resistente francês ao ver camaradas a ser torturados pela Alemanha nazi em “Moulin”, de Laszlo Nemes. Ou a culpa de um jovem homossexual nova iorquino, toxicodependente, a quem será dada nova oportunidade de viver, em “Club Kid”, estreia escaldante de Jonathan Firstman, que já lhe valeu 17 milhões de dólares em Cannes, por ter sido comprado pela A24. E a culpa — ou será frustração? — de quem fica em alojamentos locais lá longe, sabendo quão difícil é levantar antes do sol nascer, e opta por ficar a conversar com estudantes de animação da Roménia até às 2h00 ao lado da anfitriã que parou de trabalhar por causa de três burnouts.
Quem não pode ter este sentimento e deve orgulhar-se de estar nestas bandas é a pequena comitiva nacional que se dispôs em Cannes. Vier em “Lúcido” na Competição Immersive, Tiago Guedes em “Aqui” na Cannes Premiere, Daniel Soares (“Algumas Coisas Acontecem ao Pé do Rio” na competição de curtas-metragens, Clara Vieira (“Onde Nascem Os Pirilampos” na competição La Cinef. Da realidade virtual à adaptações da escrita de J.M. Coetzee, de personagens principais mortas a descobertas juvenis a partir dos pirilampos. O cinema português pode não ter recebido honras de concorrer pela Palma de Ouro, mas consegue-se mostrar por estes lados, uma e outra vez. Só é pena ouvirem-se verdades que magoam: “Sou sul-africana, os meus pais moram em Cascais. Fui tão apanhada de surpresa quando, uma vez, fui ao cinema e não vi lá nenhum filme português!”, conta uma atriz baseada em Londres à Comunidade Cultura e Arte, junto da zona de imprensa, onde jornalistas com poucas horas de sono tentam agarrar a única coisa de borla: cafeína.
Não seríamos Portugal sem este contraste: projeção internacional contra indiferença nacional. Tudo muda e há sinais positivos. De quem é a culpa de estarmos assim? Não vale a pena irmos por aí. São mudanças que levam tempo e precisam das pessoas certas. Já em Cannes, há quem vá dos oito aos oitenta. O realizador Nicolas Winding Refn, desmanchou-se em lágrimas ao recordar, no Palais, quando esteve morto durante 25 minutos por causa de um problema de coração. Dez anos depois, o autor de “Drive”, volta com “Her Private Hell”, Fora de Competição, distopia ao jeito feminino que foi, entretanto, arrasada pela crítica. Poucos foram os que tiveram misericórdia pelo dinamarquês, mas quando dissemos no início que Hollywood não estaria aqui, era para levar a sério, nem que fosse pela falta de vontade de a receber. Mesmo com um cast pujante como Charles Melton ou Sophie Thatcher, o filme não se safou.
Como é óbvio que o outro lado do Atlântico esteve em peso no Mercado de Cannes, o Marché du Film. Foi no pavilhão americano que se apresentou o próximo peso pesado da animação, feito pelo estúdio Laika, o “Wildhood”, após sete anos de “Missing Link”. E não só de dia como também de noite: nas festas das praias, faziam-se apostas para o próximo James Bond, depois de Daniel Craig ter pendurado o smoking no cabide lá de casa. E é certo que Cannes precisa destas estrelas como pão para a boca, não fosse a passadeira vermelha o momento mais alto para tanta gente, incluindo para Kevin Spacey, que estava cancelado mas afinal não. Bem como ter-se conseguido trazer um sempre sizudo Adam Driver, que entrou num bafiento filme de máfia (outra vez…), “Paper Tiger”, de James Gray, figura de culto na Croisette mas que nunca ganhou nada por cá, e se recusou a responder a alegações de maus tratos durante a rodagem da famosa série “Girls”.
Aliás, é tão óbvio que os EUA continuam a controlar uma boa parte da indústria do cinema que qualquer momento mais polémico, como a do actor espanhol Javier Bardem (que protagonita o portento cinematográfico chamado “El Ser Querido”) a dizer que líderes como Donald Trump ou Vladimir Putin estão envoltos em masculinidade tóxica, vai monopolizar maior parte de cada dia de Cannes. Ou basta olhar, outra vez, para o mercado, onde sales agents, produtores e outros players fazem as negociatas do ano. Grande parte dos pesos pesados já estavam comprados antes do festival começar, o que não é habitual. Anda tudo com aversão ao risco mas preferem gastar milhões à cabeça. E, como bem conta a página brasileira Tanto Cine, o panorama está ainda mais estranho, depois de greves e pandemias, com cada vez menos espectadores a sentarem o rabo numa sala: “filmes de diretores consagrados que ainda nem foram filmados já estão a ser vendidos pelo mundo inteiro”. O que é isto? E de quem é a culpa? Será da distribuidora independente Neon, que, já por seis vezes, comprou o filme que venceu a Palma de Ouro?
O que é certo é que este sábado ficaremos a saber quem se ri no final, numa das competições mais disputadas dos últimos anos. Ficarão os encontros dos desgraçados que não têm contactos privilegiados no Petit Majestic por recordar. As imagens inesquecíveis de arquivo do documentário sobre as primeiras edições de Cannes, onde, um espírito anti-fascista andava de braços dados com uma cidade a descobrir os encantos da elite do cinema. Ou de outros documentários como “The Match” e “Once Upon a Time in Harlem”, mostrando que este é também um festival com memória. Ou a entrevista (a sair brevemente na Comunidade Cultura e Arte) com Isabelle Huppert, atriz francesa que protagoniza o esquecível “Histórias Paralelas”, de Asghar Farhadi, ao sabor de uma coca-cola no caríssimo hotel J W Marriott. Ou o de saber que, no meio do caos, da azáfama, dos flashs e correrias, há espaço para o mais banal dos acasos, mostrando-nos que, por muito elitista que seja um festival, nunca poderemos esquecer o fator humano: durante uma projeção do novo filme de Pedro Almodóvar, “Amarga Navidad”, alguém teve de ser assistido de emergência, interrompendo a projeção. E a culpa, foi de quem?
