Reportagem. Festival MED encerra cartaz da “edição mais internacional de sempre” com Orchestra Baobab, Asian Dub Foundation e Tulipa Ruiz

por Ricardo Farinha,    26 Maio, 2026
Reportagem. Festival MED encerra cartaz da “edição mais internacional de sempre” com Orchestra Baobab, Asian Dub Foundation e Tulipa Ruiz
Paulo Silva, diretor e programador do Festival MED / Fotografia de Rui André Soares – CCA

O Festival MED, que se prepara para regressar ao centro histórico de Loulé entre 25 e 27 de junho, encerrou o cartaz dos principais palcos com um anúncio feito este sábado, 23 de maio, no Cineteatro Louletano: a Orchestra Baobab, os Asian Dub Foundation e Tulipa Ruiz são os artistas que completam o alinhamento.

Formação histórica do Senegal, a Orchestra Baobab foi formada em 1970 como a banda residente do Baobab Club, na capital Dakar. Vários dos membros originais já tinham pertencido, na década anterior, à célebre Star Band. Tanto uma como a outra foram fundamentais para definir a música popular senegalesa ao longo das décadas, sendo que a Orchestra Baobab sempre foi particularmente influenciada pela tradição musical cubana e foi apresentando diferentes sons de fusão, cruzando as mais variadas melodias da África Ocidental ou do Norte de África, ao longo dos 20 álbuns que gravaram entre os anos 70 e 80. Agora vêm a Portugal com um novo disco na manga, Made in Senegal.

Por sua vez, os Asian Dub Foundation são um dos muitos grupos inventivos que emergiram da cena eletrónica do Reino Unido nos anos 90. Como outras bandas, são o reflexo da Londres cosmopolita, onde a cultura da diáspora caribenha converge com as influências asiáticas e com géneros de países anglo-saxónicos como o punk rock e o rap. Este verdadeiro caldeirão intercultural apresenta-se em Loulé no próximo mês. O mais recente disco, Access Denied, foi editado em 2020.

A terceira novidade foi a confirmação de Tulipa Ruiz no cartaz. A cantora de 47 anos é uma das vozes mais respeitadas da MPB e da pop brasileira contemporânea. Traz ao Algarve as canções de toda uma carreira, incluindo os temas do último disco a solo, Habilidades Extraordinárias, lançado em 2022.

Ao todo, os cinco palcos principais do Festival MED vão acolher 55 bandas de 30 nacionalidades. Trata-se da edição “mais internacional de sempre”, como descreveu à Comunidade Cultura e Arte, à margem da apresentação no passado sábado, o diretor e programador do evento, Paulo Silva. No cartaz encontram-se também nomes como Tiken Jah Fakoly, Seun Kuti & The Egypt 80, Arooj Aftab, Omar and Eastern Power, Tangomotán, Groundation, Lura, Sérgio Godinho, Mário Lúcio & The Pan African Band, Los Van Van, Fidju Kitxora, Bonga, Arnaldo Antunes, Tó Trips & The Fake Latinos, Expresso Transatlântico ou Ablaye Cissoko & Cyrille Brotto, entre outros, numa verdadeira montra da música tradicional e contemporânea de múltiplos territórios espalhados pelo planeta.

A apresentação incluiu ainda um concerto dos belgas Ão, cuja vocalista Brenda Corijn canta em português, devido às suas raízes lusas e moçambicanas. Como manda a tradição, o grupo deverá estar no cartaz do MED de 2027, provavelmente ainda a apresentar o álbum editado em fevereiro, Malandra, uma música de fusão de referências diversas que funde eletrónica e instrumentação orgânica. Antes disso, em dezembro, tocam na Casa Capitão, em Lisboa, no dia 18; e na Casa da Música, no Porto, no dia 19. A estreia do novo disco em Portugal, porém, aconteceu já este sábado em Loulé.

Ão, depois da actuação no Cineteatro Louletano, em Loulé / Fotografia de Rui André Soares – CCA

“Vir a Portugal é algo com que temos sonhado, porque é o sítio onde toda a gente consegue entender todas as camadas da nossa música. Estávamos super curiosos por saber qual seria o feedback do público português, pudemos conhecer muitas pessoas e esperamos passar muito tempo, voltar muitas vezes, construir algo aqui”, disse a cantora Brenda Corijn em declarações à Comunidade Cultura e Arte.

“É uma honra estar neste tipo de cartaz, parece-nos um festival muito especial”, acrescentou o guitarrista Siebe Chau. “Temos tocado em festivais muito diferentes, alguns de jazz, outros de rock, outros mais tradicionais”, contextualiza. “Temos backgrounds tão díspares e fazemos coisas tão diferentes que poderíamos não caber em lado nenhum”, brinca, por sua vez, outro dos músicos belgas, Jolan Decaestecker. “Felizmente, tivemos sorte e conseguimos encaixar-nos em todo o lado.”

Depois de Marrocos e Cabo Verde terem sido os países convidados das últimas edições, com focos programáticos especiais, desta vez a organização optou por regressar à essência de destacar a diversidade do MED como um todo. “Haver um país convidado continua a parecer-nos muito interessante”, sublinha Paulo Silva. “Mas, nos últimos dois anos, acabou por afunilar o conceito do festival: muita da comunicação que saía estava focada no país convidado. O MED é muito mais do que isso, a diversidade é o grande ADN do festival. Então vamos recentrar o festival na sua génese, neste e no próximo ano, e voltaremos, com certeza, a ter um país convidado, mas talvez noutro formato.”

O diretor e programador do MED salienta ainda que, todos os anos, tentam apresentar um cartaz “mais diversificado” e com estilos que nunca passaram por Loulé. Há quatro anos que Paulo Silva tentava contratar Tiken Jah Fakoly, emblemático cantor de reggae da Costa do Marfim, o que “finalmente” se vai concretizar nesta edição. Outra conquista deste Festival MED será a presença de Los Van Van, “uma instituição da música cubana”.

Também estávamos a tentar um regresso e desejávamos os Asian Dub Foundation, que estiveram cá há uns anos e deram um dos melhores concertos naquele ano. A ideia é sempre tentar cruzar os consagrados com as novas apostas, e o internacional com o nacional, porque o Festival MED é uma montra do que se faz no mundo, mas como temos muitos visitantes estrangeiros, também é interessante a montra funcionar ao contrário para perceberem o que se está a fazer em Portugal e que não é só fado — porque vou a muitas feiras internacionais e o nome Portugal continua a estar muito associado ao fado.”, refere o diretor e programador do Festival MED.

Pessoalmente, Paulo Silva deseja mais do que tudo experienciar ao vivo os SARĀB, uma banda árabe de Paris que se aparenta com uma formação de jazz mas apresenta um som mais ligado ao post-punk, com letras em diferentes línguas, vozes distorcidas e guitarras com afinações invulgares.

O processo de programar um festival como o MED, com dezenas de bandas só nos palcos principais, é um desafio que resulta de três dinâmicas distintas. Por um lado, Paulo Silva está constantemente em busca de artistas, numa procura pró-ativa. Por outro, recebe mais de 500 propostas por ano de agentes de bandas e músicos de todo o mundo. E ainda existem os muitos amigos e camaradas de profissão que vão entupindo as suas caixas de mensagens e emails com sugestões. Uma dessas sugestões está este ano no cartaz — os turcos Lalalar, que fundem punk rock, eletrónica industrial ou grooves funk com música tradicional, são um desses exemplos.

“Independentemente das escolhas para o festival, é gratificante porque acabas por conhecer muitas coisas, muitas bandas e sonoridades que eu desconhecia por completo, instrumentos de que nunca tinha ouvido falar”, conta. “E depois é tentar não repetir sonoridades: se tenho disponíveis três bandas muito ligadas ao Norte de África, se calhar vou ter de escolher só uma para este ano, porque o objetivo é ter um leque super abrangente e dar a descobrir às pessoas tudo o que poderão não encontrar noutro tipo de festival — além, claro, do FMM Sines, que é a nossa referência e começou cinco anos antes de nós.”, sublinha Paulo Silva.

Ao todo, haverá 12 espaços de performance no festival, nos quais se incluem um palco dedicado ao jazz, outro à música clássica, um novo MED Lounge, um espaço a pensar no público infantil e artes itinerantes de rua — que podem ir desde as fanfarras às batalhas de rap, passando pelo cante alentejano.

Um recinto alargado

Este ano, o MED estará maior, com o alargamento do recinto a mais ruas do centro histórico de Loulé, embora a capacidade se mantenha nas 15 mil pessoas por dia. “A nossa ideia não é ter mais público, é tornar a fluidez da circulação do festival mais célere e calma. Nos últimos anos temos notado que o festival está muito cheio, o que é bom, mas os palcos estão muito distribuídos pela zona histórica e muitas vezes um caminho que pensas fazer em cinco minutos transforma-se em 20 minutos de luta para lá chegar. Esta ampliação em três áreas do festival vai permitir novos circuitos, novos acessos aos palcos e distribuir o público por outras artérias.”, refere Paulo Silva.

Paulo Silva, diretor e programador do Festival MED / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Outra novidade relevante nesta matéria é a existência de uma segunda entrada no recinto, numa zona em que muitos festivaleiros costumam deixar o carro, na ponta oposta ao pórtico principal. O objetivo é continuar a alargar progressivamente o recinto nos próximos anos. “Dentro de dois ou três anos chegaremos mesmo ao nosso limite espacial.”

Pela primeira vez, o Mercado Municipal de Loulé também será usado na sua totalidade enquanto espaço do festival, com uma programação própria dedicada à música regional e aos artistas locais. Já na sexta-feira, 29 de maio, será inaugurada a nova loja do MED numa das pontas do mercado, onde se poderão comprar bilhetes mas também o merchandise do festival e eventualmente dos próprios artistas.

O plano passa mesmo por alargar o imaginário do MED ao resto da cidade algarvia, decorando outras zonas de Loulé com adereços alusivos ao festival, promovendo ativações de marca, aproximando o MED do público local e de quem passa pelo município. Também por isso, haverá uma série de iniciativas de antecipação do festival, entre DJ sets, concertos, sessões de poesia e conferências.

“E a ideia é, depois do festival, termos estas iniciativas ao longo do ano, coisa que não fazíamos, mas que é importante para manter esta chama viva e culminar no próximo ano com mais um festival. Queremos sair um pouco desta área do centro histórico, para chegar a toda a cidade e a todas as pessoas, mas sempre com iniciativas gratuitas”, acrescenta Paulo Silva.

O impacto cultural de um festival que se tornou um marco

O MED teve início em 2004 como “um festival muito tímido”, no fundo, uma forma de associar concertos às fanzones do Euro 2004 espalhadas pela região. “Havia várias autarquias que optavam por animações de rua e nós quisemos fazer algo diferente”, recorda Paulo Silva, que começou como parte da equipa de produção e foi gradualmente assumindo responsabilidades maiores na área da programação. “Inicialmente falhou tudo, porque a malta queria cerveja e festa. Mas nós achámos que o conceito era bom, o local e o timing é que não eram certos. Falámos com o presidente da câmara municipal da altura e fizemos a primeira edição na zona histórica em 2005.”

Nos primeiros anos no centro de Loulé, o MED juntava cerca de mil pessoas. Aos poucos, a mensagem foi passando, antes da massificação definitiva da Internet e do aparecimento das redes sociais, e a aposta no reforço do evento também se revelou fulcral para o ponto de viragem que se deu na sexta edição. “Tivemos que aumentar o festival numa escala enorme, porque a partir daí explodiu completamente. A zona histórica também se foi renovando, porque quando começámos estava bastante degradada.”

Ao longo de 22 anos de história, o MED acabou por conseguir formar um público e tornar-se um festival de culto, habituando as comunidades locais a uma lógica de maior pré-disposição para a descoberta musical. “A música tem essa força de poder surpreender e acho que não devemos perder essa possibilidade de surpreender as pessoas. Para não ficarmos presos ao sofá, musicalmente, digamos assim. Já temos um público fiel, conheço pessoas, sejam de Lisboa ou de Espanha, que todos os anos tiram férias para virem ao MED.”

Construiu-se uma marca de confiança em que já são muitos os festivaleiros que adquirem um bilhete às cegas, quando o cartaz nem sequer foi anunciado. Num momento em que o festival tem essa estabilidade e se realiza a partir de um certo conforto conquistado com os anos, Paulo Silva defende que se deve procurar “arriscar mais”. “Acho que devemos ir cada vez mais longe, de forma mais arrojada, tentar trazer sonoridades que nunca passaram por cá e levar as pessoas à descoberta.”

Paulo Silva, diretor e programador do Festival MED / Fotografia de Rui André Soares – CCA

A transformação dos hábitos culturais em Loulé também faz com que, noutras esferas da cultura do município, como a programação do Cineteatro Louletano, se possa fazer uma aposta mais ousada e inovadora. E o MED foi também, desde o início, uma forma de trazer uma oferta cultural distinta num panorama de concertos mainstream que todos os verões ocupam as diferentes cidades algarvias.

“O cineteatro é uma boa referência, porque também fazemos ali uma programação arriscada, digamos, com o mesmo espírito. Se olharem para a programação musical de Loulé feita pela câmara municipal ao longo do ano, não vão encontrar grandes nomes mainstream, tirando duas ou três exceções muito específicas. A aposta de Loulé tem sido sempre a ideia de trazer algo diferente. Foi uma aposta dos vários executivos ao longo dos anos, de várias cores políticas, de ser diferente do resto que podemos encontrar no Algarve. O Algarve já tem essa oferta tão grande a nível mainstream, especialmente no verão que é a loucura dos concertos, que sempre tentámos marcar pela diferença. O país é pequeno mas, queiramos ou não, estamos longe de Lisboa e tudo o que é nomes mais diferenciados acabam por ir a Lisboa. Então, o Festival MED permite que haja também esse espaço no Algarve e isso acabou por derramar para o resto do ano e tentamos manter essa chama viva, dar oportunidade às pessoas de conhecerem novas sonoridades e abordagens. Há 20 anos era impossível trazer certo tipo de bandas porque não havia público, mas as pessoas foram percebendo.”, sublinha Paulo Silva.

Paulo Silva destaca também o papel da autarquia ao apostar num festival sem quaisquer patrocínios como forma de serviço público cultural. Quando encara o futuro, deseja acima de tudo manter a essência e a escala do MED, que muitos (e duros) anos levou a construir. “Gostaria que o festival continuasse a crescer, obviamente, que mais público tivesse a oportunidade de vir cá. Para quem gosta de música, este é um pequeno oásis a sul e o grande objetivo é não perder essa força e dinâmica.”

Cartaz do Festival MED 2026

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