Reportagem. Happiness Camp 2026: olhar o horizonte sobre um chão a ceder

por Marco António Vieira,    1 Outubro, 2026
Reportagem. Happiness Camp 2026: olhar o horizonte sobre um chão a ceder
Fotografia de Rui André Soares – CCA
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Num momento em que o conceito de caos é convocado para a compreensão do tempo em que vivemos, resultado da aproximação à singularidade tecnológica nunca antes experimentada pela espécie humana, levanta-se, dessa massa uniforme que escapa às previsões mais especializadas, uma montanha de questões que estão já a abalar as fundações da nossa civilização. A imprevisibilidade contém, em doses equiparadas, entusiasmo e receio que produzem aparentemente tantas questões quanto visões e pensamentos contraditórios. O mundo corporativo parece hoje reconhecer a impotência dessas vozes outrora messiânicas e a ineficácia de respostas individuais para problemas que há muito transbordaram a esfera privada e se tornaram universais. É provavelmente isto que ajuda a compreender a recente e inédita concordância entre os líderes da Anthropic, da OpenAI e da xAI a cerca da urgência em desacelerar a corrida. Sugerindo, para isso, intervenção dos governos.   

Foi sobre esta ausência de terra firme que, na quinta-feira (24 de Setembro), aconteceu na Alfandega do Porto o Happiness Camp. Esta quarta edição desenhada sob o chapéu Reset propunha centrar a discussão em novas formas de liderança e desafiar o pensamento para a reflexão sobre estratégias, dados e comportamentos numa era dominada pela tecnologia e o poder das máquinas, colocando à disposição de empresas, empresários, colaboradores e estudantes sediados em Portugal, o know-how de especialistas de algumas das multinacionais com mais influência do planeta. 

Fotografia de Rui André Soares – CCA

Ficou claro desde as primeiras horas que as projeções da organização, que apontavam para milhares de inscrições, se confirmavam. O interesse suscitado na comunidade corporativa manifestou-se em longas filas no acesso ao evento desde as 8h00 e que se foram renovando sucessivamente até à hora de almoço com pessoas a chegar de vários pontos do país. Apesar de a língua mais ouvida nos corredores e nos pátios da Alfândega fosse o português, praticamente todas as intervenções que se desenvolveram a partir do palco serviram-se do inglês, mesmo quando por lá passavam rostos bem conhecidos do espaço mediático nacional. Foram 15 conversas apenas nos palcos principais, com outras tantas a acontecer em simultâneo nos secundários ao longo das mais de 10 horas em que decorreu o evento.

Se de uma forma geral, as lideranças, a felicidade e o bem-estar no trabalho eram o ponto de partida, a conversa foi bem mais longe e abordou política, inteligência artificial, atenção das novas gerações, saúde mental, guerras do Ocidente e mercados negros. Pelos palcos e ecrãs passaram gestores de gigantes tecnológicos, um dos podcasters mais ouvidos do mundo, um eurodeputado e ainda uma surpresa revelada a poucos minutos de acontecer, Sir Richard Branson, fundador da Virgin, em vídeo-conferência. Ainda assim, pelo que fomos confirmando ao longo do dia, a conversa que suscitava mais interesse e curiosidade entre o público tinha como dois protagonistas os portugueses que fecharam o Happiness Camp: Pedro Abrunhosa e Mariana Van Zeller.

Desta panóplia de temáticas e convidados uma ideia parece ter resistido e atravessado quase todas as conversas e discursos a que assistimos: a importância da empatia nas relações humanas.

“Se tiverem de facto o poder de ter tudo o que querem, sabem o que querem?” – Bruno Gonçalves

Depois de António Pedro Pinto, fundador & CEO do Happiness Camp, dar as boas-vindas e abrir o palco principal do evento com um discurso de agradecimento à equipa organizadora e que sublinhou a importância do evento permanecer parcialmente gratuito, coube ao eurodeputado socialista Bruno Gonçalves lembrar que a felicidade também é matéria política. “Não acredito que haja felicidade sem liberdade“, afirmou, defendendo que a democracia, a liberdade e a prosperidade são “condições primeiras ao bem-estar humano“. Numa era em que as máquinas “passam a fazer parte da colmeia“, deixou à plateia uma pergunta desconfortável: “Se tiverem de facto o poder de ter tudo o que querem, sabem o que querem?“

“Ninguém quer um chefe no camarote a tomar decisões, mas sim um treinador dentro de campo.” – Adam Hickman

Seguiu-se Adam Hickman, vice-presidente de desenvolvimento de pessoas, gestão de talento e sistemas de informação de recursos humanos na Walt Disney Company, e que passou mais de uma década na Gallup a estudar o que distingue os bons líderes. Hickman reduziu a resposta a quatro necessidades: confiança, estabilidade, compaixão e esperança. Não são aspiracionais, garante, mas “preditivas” de quem consegue criar seguidores. Segundo Hickman, as chefias respondem por até 70% do envolvimento dos trabalhadores, e por isso “ninguém quer um chefe no camarote a tomar decisões“, mas sim “um treinador dentro de campo“. A receita para a compaixão cabe num anagrama: em inglês, silent (silêncio) tem as mesmas letras de listen (ouvir). Já perto do final da intervenção deixou um desafio que a sua coach lhe havia lançado: “Faz o seguinte: pega no teu organigrama e vira-o ao contrário. Se as tuas pessoas estiverem à frente, e estiveres a falar das vitórias delas, fizeste bem“. Ainda antes de fechar expressou uma vontade inusitada: criar o cargo de “Chief Hope Architect” (“arquiteto-chefe da esperança”).

Fotografia de Rui André Soares – CCA

As salas e corredores do edifício estavam densamente povoadas por pessoas de diversas faixas etárias e situações profissionais muita distintas. Jovens estudantes e empresários, especialistas em início de carreira e chefias das mais diferentes áreas corporativas. Havia filas para as casas de banho e muita afluência para todas as salas. Aproximava-se a hora para a intervenção de um dos oradores mais esperados entre as gerações mais novas e atentas às lideranças: Steven Bartlett, empresário, investidor e anfitrião do podcast The Diary of a CEO, conversou a partir da Austrália por vídeo-chamada com Jen Fisher, diretora de impacto e comunidade do Happiness Camp, e deu uma das respostas mais cruas da conferência. Questionado sobre se as empresas querem mesmo locais de trabalho mais saudáveis e se estão de facto interessadas na felicidade dos colaboradores, não hesitou: “Para a maioria dos fundadores e dos CEO, trata-se de um meio para atingir um fim. Preocupam-se com isso porque se preocupam com outra coisa: o sucesso.” Para Bartlett, tudo começa na atenção, “o centro da nossa influência sobre a própria vida“, de onde decorrem as relações, a saúde e as finanças.

O empresário britânico aposta no que a tecnologia não substitui: “Ninguém nos vai dizer, daqui a dez anos: ‘Quem me dera ter menos ligações humanas’“. Num tempo em que a IA escreve por nós, defende precisamente o gesto contrário, porque “escrever é uma forma de pensar com clareza“. Aprendeu também que os melhores objetivos “são os que nunca se completam“.

Com quase 20 milhões de subscritores no YouTube e, segundo o próprio, cerca de 160 milhões de downloads por mês, The Diary of a CEO é um dos podcasts mais ouvidos do mundo, e já contou com convidados como Michelle Obama, o neurocientista Andrew Huberman, o psicólogo Jonathan Haidt, o produtor musical Rick Rubin e o coach Tony Robbins. Quando lhe perguntaram qual o convidado que ainda não tinha conseguido alcançar, respondeu: “Falta-me Barack Obama, mas já tenho uma data aproximada.” O mundo dele, esse, é pequeno: “Tenho cinco melhores amigos, uma noiva e um cão“.

“O bem-estar do colaborador garante, de certeza, a qualidade do trabalho que é entregue.” – Caetana Aguiar

Entre os participantes havia estreantes e repetentes. Caetana Aguiar, analista de mercado e estratégia no CEIIA, em Matosinhos, descobriu o Happiness Camp por acaso: “Foi nos Aliados, durante um concerto da Carminho, naquele evento da Livraria Lello. Estavam a apresentar num painel e inscrevi-me logo.” Veio “sem expectativas“, na perspetiva de “conhecer pessoas e perceber este tipo de eventos, que acontecem pouco e que trazem sempre alguma coisa boa“. Diz ter a sorte de trabalhar numa empresa com “imensa atenção ao colaborador“: “As instalações são ao lado da praia, à hora de almoço dá sempre para dar um passeio, apanhar ar e ver o mar. É a minha primeira experiência no mundo corporativo e acredito que vai ser das melhores que vou ter. O bem-estar do colaborador garante, de certeza, a qualidade do trabalho que é entregue.“

Fotografia de Happiness Camp

Maria Amaral, acabada de concluir o mestrado em Ciência Política, veio com outro propósito: “Estou sempre à procura de perceber como as pessoas que estão no topo das empresas pensam e o que priorizam. Nestas conversas dá para ver quais são os focos.” E acrescenta: “Uma pessoa pode nem estar a fazer uma coisa que adore, mas sentir-se bem numa equipa é crucial.“

A inteligência artificial e o bem-estar dominaram grande parte as conversas nos corredores. Joana, técnica de recursos humanos da Procalçado, veio por iniciativa da empresa, que “estimula muito a que possamos conhecer o que está a acontecer no mundo” para depois implementar ideias. A equipa está a preparar formação em IA para todos: “O objetivo é formar as pessoas para um bom uso, porque acredito que se partilha muita coisa que não se devia partilhar, e ninguém tem bem noção do perigo, pelo menos quem não está dentro da área.” Ela própria usa estas ferramentas para comparar perfis em processos de recrutamento longos, mas traça a linha: “Não é isso que seleciona um candidato. Mau era, senão perdia-se muito a parte humana.“

Fotografia de Rui André Soares – CCA

Jorge Braga, que lidera a Melo Braga, empresa de marketing de eventos criada em 2021, olha para o futuro com alguma cautela: “Hoje já usamos algumas coisas internamente e não substituímos ninguém por inteligência artificial. Mas há que ter esta perspetiva: o que vai ser no futuro e como é que isto vai interferir no espírito de liderança de uma equipa. Num prazo de dez anos, muita coisa vai alterar.” Jessica Schultz, sueca a viver em Lisboa, consultora de recursos humanos e coach de líderes na Successum Leadership, vê o problema de perto: “Se não cuidarmos do nosso bem-estar mental, não temos como render no trabalho nem no mercado. Muitos dos líderes e profissionais com quem trabalho lutam contra o burnout e estão a tentar encontrar uma nova identidade no novo local de trabalho.“

A verdade é que não foi só de sorrisos que se fez esta edição do Happiness Camp. Nem todos conseguiram entrar e havia muita insatisfação entre dezenas de pessoas à porta da Alfândega na pausa para almoço. Isabel Barros não escondia a indignação: “Posso começar por uma expressão: isto é uma vergonha. Estamos a falar de centenas de pessoas que se deslocaram para um evento que supostamente tem bom nome.” Com o bilhete na mão, diz ter estado na fila desde as 10h20 e só às 12h40 lhe disseram que não podia entrar. “Umas pessoas vêm de longe, outras de mais perto. Estivemos duas horas na fila e ninguém nos deu qualquer informação. Chegámos agora depois do almoço e estão a dizer-nos que quem não fez o check-in de manhã também não pode entrar de tarde.” Para justificarem a ausência junto das entidades patronais, relata, um segurança distribuía “uma folhinha com um email escrito à mão“, sem mais explicações. “Isto é impensável num evento que se chama Happiness Camp, que pressupõe um certo conhecimento e know-how em gerir pessoas, não saibam gerir um evento de pessoas. É inadmissível em qualquer parte do mundo.“

Fotografia de Happiness Camp

No interior do edifício a circulação era congestionada e havia muitos participantes que simplesmente não conseguiram aceder às salas onde aconteciam as conferências principais, pois era dada a prioridade a quem havia pago o bilhete e quando atingiam a lotação máxima era colocadas baias que impediam a passagem. Nesses casos a única solução era a assistir à transmissão streaming nos ecrãs gigantes.

 “As empresas levam-se demasiado a sério” – Richard Branson

Para depois de almoço estava marcado o tal encontro surpresa que colocou António Pedro Pinto à conversa, por vídeo-chamada, com Richard Branson. Era notório o entusiasmo na sala com muita gente de telemóvel na mão a registar o momento. Recentemente pairou sobre Branson a nuvem Epstein formada a partir de um email de 11 de setembro de 2013, incluído nos documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA, em que Branson escreveu que Epstein seria bem-vindo “desde que traga o seu harém”. A Virgin não contestou a autenticidade do email e explicou que a expressão foi usada primeiro pelo próprio Epstein, para se referir a três funcionárias adultas, que os contactos foram poucos e há mais de 12 anos, e que o empresário recusou um donativo e cortou relações quando soube das acusações. Branson não é acusado de qualquer crime. O assunto ficou de fora: a sessão não previa perguntas do público nem da imprensa. 

Aos 76 anos, o excêntrico fundador do grupo Virgin, Sir Richard Branson, revisitou as histórias que construíram a lenda como o episódio do dirigível que mandou pôr no ar para sobrevoar a London Eye, patrocinada pela British Airways, que permanecia estendida no chão sem conseguir ser levantada, com uma provocação escrita e as manchetes do dia seguinte garantidas. “Ter humor em tudo o que se faz é muito importante. As empresas levam-se demasiado a sério“, defendeu. Mas nem tudo foi riso e flores nesse percurso: recordou a guerra suja da British Airways, que tinha pessoas “a fazerem-se passar pela Virgin” para desviar passageiros, e a disputa perdida com a Coca-Cola com a fotografia do próprio ao comando de um tanque em Times Square como pano de fundo.

Falou do avião fretado no aeroporto, depois de um voo cancelado para as Ilhas Virgens, com os lugares vendidos aos outros passageiros, e que acabaria por dar origem a uma companhia aérea. E ainda a célebre história da editora que criou para lançar uma cassete de que ninguém queria saber mas que ele gostava, e que viria a assinar os Sex Pistols e, mais tarde, os Rolling Stones ou as Spice Girls.

Fotografia de Happiness Camp

O empresário quis ainda abordar o tema político da atualidade mundial. Afirmou que, em toda a sua vida, nunca viu o Ocidente travar “uma única guerra justa“, com a exceção da defesa da Ucrânia. Afirmação que lhe valeu um efusivo aplauso de toda a plateia. Deixou ainda um elogio direto a Portugal na luta para que as drogas sejam tratadas “como um problema de saúde, e não como um problema criminal“, disse, “Portugal deu um exemplo ao mundo“, sublinhou. Questionado sobre o que é mais importante na sua vida referiu que era um homem de sorte. “No fim, o que fica é a família, os amigos e a saúde“. “Ainda me sinto com 25 anos, desde que não me veja ao espelho“, brincou, antes de anunciar que dentro de algumas semanas vai à Venezuela falar da libertação de presos políticos. Para quem hesita em arriscar, o lema de sempre: “Que se lixe, vamos a isso.” Porque, lembrou, “só se vive uma vida“.

“O diferente constrói diferente” – Camille Phillips

Camille Phillips, ex-líder global de Employer Branding da Meta, onde passou nove anos, abriu com uma confissão: “Nem acredito que vou dizer isto, por isso vou dizê-lo em voz alta: acabei de subir ao palco a seguir ao Sir Richard Branson, e isso é incrível.“. Servindo-se uma capacidade de comunicação ao alcance de poucos, explicou que a escolha de um empregador se forma “muito antes de alguém se candidatar“, com o que se vê online e se ouve nas notícias, e admitiu que isso pode ser “polarizador, como a Meta tem sido nos últimos anos“. A investigação da empresa junto dos engenheiros mostrou o que procuram: pessoas inteligentes, projetos que não fariam noutro lado e impacto real, sem serem “apenas uma peça da engrenagem“. Muitos, reconhece, sentem que o trabalho representa “em algum aspecto, quem são“. Desse estudo que partilhou com a plateia revelou a ideia que sobrou: “o diferente constrói diferente”. Foi o conceito que daí resultou, “porque ouvimos vários trabalhadores falar nisso: Trabalho numa empresa que valoriza pensar de forma diferente, e estou aqui porque tenho uma perspetiva única, porque a minha voz conta e posso ter impacto.”, sublinhou.

Fotografia de Rui André Soares – CCA

Na única vez que nos conseguimos deslocar ao palco secundário, foi para ouvir Miriah Steiger, responsável global de saúde psicológica e bem-estar do TikTok que trouxe o lado menos visível das plataformas: a saúde mental de quem modera conteúdos. Ao analisar desinformação em grande quantidade, alguns moderadores com quem trabalhou desenvolveram o chamado efeito de ilusão de verdade: “começavam a acreditar” no que viam, e passaram a discutir com a família e os amigos porque os seus valores “estavam a mudar“. A psicóloga alertou ainda que as médias escondem problemas, e contou um caso perturbador: em equipas pequenas, sem anonimato garantido, dados de bem-estar foram usados em avaliações de desempenho. “É a saúde mental de alguém, e foi usada contra essa pessoa.“

“A decisão é nossa. Não se pode delegar na IA, porque somos sempre nós que respondemos por ela.” – Kate Schmidt

Regressámos ao coração do Happiness Camp para a mesa-redonda moderada por Inês Borges, diretora de transformação da Sonae Sierra, onde a IA foi olhada de perto por quatro mulheres especialistas na matéria. Fay Kallel, diretora de produto e engenharia da Headspace, lembrou que a utilização principal destas ferramentas é hoje, surpreendentemente, “a terapia emocional e a companhia emocional“. Jacqueline Beauchere, responsável global de segurança da plataforma Snapchat, teme que a bajulação constante e a disponibilidade total das máquinas mude o que esperamos das pessoas, porque “é com a discordância que se aprende e se cresce“. Revelou também que a Snap deixou de recomendar conteúdos gerados só por IA no seu feed Spotlight.

Fotografia de Happiness Camp

Paula Goldman, diretora de ética e uso humano da Salesforce, trouxe um argumento que os gestores entendem: “quando os trabalhadores controlam as ferramentas de IA, a motivação dispara; quando se sentem vigiados sem saber porquê, cai“. Kate Schmidt, diretora de operações de IA Aplicada da Deloitte, apontou a falha das empresas: nomearam responsáveis de IA à pressa, mas “não lhes demos poder para travar o que não deve avançar“. Fay Kallel fechou com uma lição da própria equipa: a IA gera ideias mais depressa, mas parecidas entre si, porque é “treinada no passado“. E as ideias verdadeiramente novas, diz, “precisam do génio humano“.

O índice de bem-estar digital que a Snap publica há cinco anos contraria as narrativas fáceis: o risco para os jovens online está a aumentar, mas o seu bem-estar digital também. A diferença, explicou Beauchere, está nas redes de apoio. Os jovens com nove a doze adultos de referência, em casa, na escola ou na comunidade, são os que mais prosperam; entre os que têm quatro ou menos, “a grande maioria, infelizmente, está em dificuldades“.

Quando a moderadora perguntou o que deve continuar humano, aconteça o que acontecer, a resposta foi quase unânime: a responsabilidade. “A decisão é nossa“, resumiu Kate Schmidt. “Não se pode delegar na IA, porque somos sempre nós que respondemos por ela“.

“Compreender não é desculpar. Ter empatia não significa desculpar o comportamento de alguém.” – Mariana Van Zeller

Chegávamos, por fim, à última conversa do Happiness Camp, um dos momentos mais esperados do dia: a conversa de Pedro Abrunhosa com a jornalista de investigação Mariana van Zeller, premiada com 16 prémios Emmy. O músico abriu com uma provocação: como é que uma “betinha de Cascais” vai parar à selva amazónica ou ao interior dos cartéis de Sinaloa? A resposta veio entre risos: “Eu disse ao Pedro que, se ele me chamasse betinha de Cascais, eu saía do palco. Mas sou, com orgulho, uma betinha de Cascais.” Seguiu-se um excerto do programa Trafficked, da National Geographic: uma entrevista a um assassino a soldo em Los Angeles, que diz nunca matar “mulheres nem crianças” e que acaba por abandonar a conversa quando a jornalista lhe pergunta pelos filhos. “Levámos mais de um ano a encontrar alguém disposto a falar connosco, e ele vivia a cinco quilómetros da minha casa em Los Angeles, o que é ainda mais assustador“, contou. “A primeira coisa que fez quando lá chegámos foi mostrar-nos a arma e dizer: ‘Se isto for uma armadilha, tu e a tua equipa estão todos mortos‘”. Acabou por ser “a entrevista mais curta que alguma vez fizemos.“

Mariana Van Zeller / Fotografia de Rui André Soares – CCA

A vocação nasceu aos 12 anos, em frente ao televisor. “Numa casa portuguesa tradicional, se querias ver as telenovelas brasileiras também tinhas de ver o Jornal da Noite. Lembro-me de ver os pivôs a falar da economia na China, da violência no Brasil, das eleições nos Estados Unidos, e achava que eram os seres humanos mais inteligentes da Terra. Não fazia ideia de que estavam a ler de um teleponto.” Depois de Relações Internacionais na Universidade Lusíada, foi recusada duas vezes pela escola de jornalismo de Columbia. À terceira, apanhou um avião para Nova Iorque e foi bater à porta do reitor. Foi aceite nesse ano, mas a confiança demorou mais a chegar: “Sempre achei que era uma betinha loira de Cascais que nunca seria inteligente o suficiente para lá chegar. Lembro-me de estar em frente à universidade, a tremer, a pensar: ‘Vou dar meia-volta. Este não é o meu lugar. É ridículo achar que vou encaixar aqui’. Mas decidi avançar.” Abrunhosa viu nessa dúvida uma virtude: “Acho que é uma característica tremenda achar que não se é suficientemente inteligente, porque as pessoas que se acham mais espertas do que toda a gente acabam normalmente a fazer coisas pouco saudáveis.“

Porque é que traficantes, falsificadores e assassinos aceitam falar com ela? Mariana van Zeller aponta três razões: o ego, a impunidade e, sobretudo, a vontade de serem compreendidos. “Digo a toda a gente: não estou aqui para julgar, estou aqui com empatia, para tentar perceber porque fazes o que fazes. Compreender não é desculpar. Ter empatia não significa desculpar o comportamento de alguém“, sublinhou. “O meu trabalho como jornalista é ouvir, ouvir por inteiro, com atenção, porque só assim se consegue mostrar o quadro completo, compreender o crime e a motivação por trás do crime. Mas o meu trabalho também é fazer perguntas e confrontar as pessoas tanto quanto posso“. E deixou um número que dá nome ao seu podcast, The Hidden Third: segundo a jornalista, os mercados negros e cinzentos valem um terço da economia mundial. “Tendemos a pensar que acontecem em sítios distantes, em túneis escondidos. Na maior parte das vezes acontecem à vista de todos. Estão no nosso quintal, mesmo ao nosso lado.“

“Quando há tanta desigualdade, vai haver violência.” – Mariana van Zeller

A desigualdade também atravessou toda a conversa. “Em 99% das pessoas que conheço, consigo ter imensa empatia. São pessoas como nós, com os mesmos sonhos, que têm filhos, famílias, pessoas que as amam. Quando há tanta desigualdade, vai haver violência“, defendeu. O exemplo foi Tweety, uma burlona jamaicana que engana idosos europeus e americanos, e que começou depois de o avô morrer por não ter dinheiro para uma cirurgia de dois mil dólares. “Ela trabalha num resort em Montego Bay e ganha num ano inteiro menos do que uma família de férias gasta numa semana naquele resort. Quando se ouvem estas histórias, é muito difícil não pensar: o que é que eu faria? E se fosse a minha família? E se fosse o meu filho?” Abrunhosa defendeu uma redistribuição da riqueza mundial, e a conversa chegou à política. “Temos sistemas quebrados em todo o mundo. Quando há desemprego, quando falta comunidade, quando as pessoas estão sozinhas, vão procurar soluções, e às vezes quem lhes dá respostas está fora do sistema“, afirmou. “Não culpo as pessoas que votam em movimentos de extrema-direita. Culpo-nos a nós. Culpo o nosso sistema. Culpo os nossos políticos.“

Ameaçada “muitas vezes”, a jornalista confessou que o mais assustador não foram os criminosos, mas as cartas de farmacêuticas que investigou, a ameaçar enviar “um batalhão de advogados”. “Isso é bastante assustador, mas não nos fez desistir.” Em outubro estreia Super Scam Me na National Geographic, no Disney+ e no Hulu, um filme em que se fez passar por outra pessoa em sites de encontros para mostrar que qualquer um pode cair numa burla. No fim, ainda admitiu que o palco lhe custa mais do que o terreno: “Prefiro estar rodeada de dez homens mascarados e armados do que estar aqui a olhar para vocês. Detesto isto. Mas o Pedro tornou tudo muito fácil.“

A Comunidade Cultura e Arte (CCA) tentou uma declaração de balanço junto da organização que não chegou a tempo da publicação desta reportagem. A CCA foi parceira media do evento e não existiu qualquer interferência externa na realização desta reportagem.

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