Reportagem. Lídia Jorge: “Criou-se globalmente um estado de alucinação: acreditamos em qualquer mentira para não enfrentarmos a realidade”

por Ana Monteiro Fernandes,    2 Julho, 2026
Reportagem. Lídia Jorge: “Criou-se globalmente um estado de alucinação: acreditamos em qualquer mentira para não enfrentarmos a realidade”
Lídia Jorge / Fotografia de Ana Monteiro Fernandes – CCA
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Para Lídia Jorge o ADN humano é só um. Somos todos da mesma espécie e, por isso mesmo, recordou as palavras de Victor Glover aquando da expedição Artemis II – “Todos somos homo sapiens” – e a sua importância no momento em que o país por trás da expedição “está a desenvolver uma luta xenófoba enorme contra imigrantes.

Quanto a uma possível explicação face aos extremismos actuais, avança que “a população que está ansiosa por mudança vota em qualquer coisa, porque há um princípio psicológico de que quando se está em sofrimento prefere-se uma mudança, seja para onde for, do que permanecer no sofrimento. É isso que está a acontecer.” Rematando que essa é uma das explicações que nos faz acreditar “em qualquer mentira para não enfrentarmos a realidade”. A globalização ainda é recente e isso faz com que o corpo se mantenha nómada, mas a alma permaneça sedentária: “As pessoas mantêm-se agarradas a princípios religiosos e culturais, portanto, a pessoa apanha um avião e vai para longe, mas leva o seu mundo atrás.” Isso faz com que cada um queira “manter o que tem” e “olhe para o outro que não é como ele como inimigo.”

Frisou que os portugueses têm “um ADN cultural de adaptação e de acolhimento, fomos acolhidos por toda a parte. Admiro muito que essa memória desapareça neste momento, que se faça da bandeira política aquilo que é rechaçar o outro. Acho estranho e penso que os portugueses vão pensar que isso é contra a nossa cultura.” Referiu que lhe causou espanto o impacto do seu discurso do dia 10 de Junho pela frase: “Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou” e pela ideia de que “não há sangue puro”. Disse que se fosse há 20 anos este discurso não causaria tanto impacto, mas diz também que uma das coisas que mudou “foi o facto do projeto económico não estar a funcionar como queríamos.” Alerta também que há muitos cristãos que se dizem cristãos, mas não o são verdadeiramente. Foi o que Lídia Jorge revelou em entrevista à Comunidade Cultura e Arte, no âmbito do festival Babell, no Porto, acrescentando que “ao mesmo tempo, há uma parte dos cristãos que ameaçam com um cisma porque, de facto, há uma Igreja à volta do mundo reacionária que, felizmente, em Portugal não é assim tão forte. Temos uma das igrejas mais abertas da Europa, felizmente, e entendo que – pelo menos é a minha perspectiva – o receio de que possa haver um cisma é concreto, verdadeiro. Há muitos cristãos que não são verdadeiramente cristãos.” [A 2 de Julho, após a realização desta entrevista a 29 de Junho, o Vaticano excomungou dois bispos do grupo ultratradicionalista Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX) que na quarta-feira ordenaram quatro bispos à revelia do Papa, sendo este um acto cismático.]

Duas das grandes marcas do seu discurso do 10 de Junho foram as seguintes: a frase “Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou” e a ideia de que não há sangue puro. Impressionou-a o impacto que estas ideias geraram na altura?

Causa-me bastante admiração porque é uma evidência tão grande. E penso que esse discurso, pronunciado 20 anos antes, não teria criado qualquer tipo de polémica. Significa que há um tempo novo, um tempo de intolerância e mesmo anti-científico, porque a ciência mostra que somos, de facto, profundamente miscigenados. Mesmo que não fôssemos, os tempos dizem que vamos ser todos miscigenados e, portanto, vale a pena criar essa cultura de abertura, de entendimento, de que o ADN humano é só um. É muito interessante, por exemplo, que um dos astronautas [Victor Glover] daquela viagem magnífica à Lua, quando se despediu da Terra disse: “Todos somos homo sapiens” [“And from up here you also look like one thing: homo sapiens as all of us no matter where you’re from or what you look like, we’re all one people.” É um recado para a humanidade que diz que todos nós somos homo sapiens, num momento em que o próprio país que promoveu a expedição está a desenvolver uma luta xenófoba enorme contra imigrantes. Há aqui, portanto, duas ondas, dois momentos, e só assim se compreende que dentro dessa onda retrógrada, que neste momento domina a agenda, se tenha criado uma polémica tão forte em torno de um texto e discurso inocente. 

Referiu que se fosse há algum tempo se calhar não teria causado tanta polémica. Parece que houve aqui um recrudescimento de valores, de ética. Mas o que é que falhou? Pensámos que a escola poderia tomar conta de tudo? Pensámos que os valores de Abril estavam já conquistados, que nunca poderíamos voltar atrás?

Há várias razões e acho que uma delas foi o facto do projeto económico não estar a funcionar como queríamos. Temos hoje um desejo de partilha dos bens e, à medida que as pessoas têm acesso à comunicação social, tornam-se muito mais conscientes do seu valor em face dos outros, reivindica-se  muito mais um valor de justiça. Ora, a partilha dos bens, daquilo que se produz, em vez de ser muito mais equitativa tornou-se exatamente o contrário, criou uma revolta nas pessoas. A certa altura não lhes interessa já a ideologia que vão perfilhar, querem revoltar-se contra o estado em que estão. E, portanto, encontraram expressão no discurso demagogo de alguns que querem o poder e que utilizam todas as formas para atingirem o poder. A população que está ansiosa por mudança vota em qualquer coisa, porque há um princípio psicológico de que quando se está em sofrimento prefere-se uma mudança, seja para onde for, do que permanecer no sofrimento. É isso que está a acontecer.

DR

Isso lembra-me uma entrevista em que citou uma frase de Freud: “A dor de ficar é maior do que a dor de partir.” 

Exatamente, é isso mesmo. A dor de ficar é muito mais forte do que a dor de partir. A certa altura abre-se a janela e vai-se para onde for, nem que seja para o vazio, para não se estar dentro. É isso que acontece num incêndio. Se a casa está a incendiar, mesmo que se saiba que se vai morrer, a pessoa sai pela janela. Claro que é um exemplo dramático, exagerado, mas é um pouco isso que está a acontecer. Criou-se globalmente uma espécie de estado de alucinação: acreditamos em qualquer mentira para não enfrentarmos a realidade.

Vivemos num mundo globalizado e os jovens também querem essa mobilidade. Mas ao mesmo tempo que existe essa mobilidade, não é paradoxal o facto de estarmos mais globais e, ao mesmo tempo, mais protecionistas? 

Porque o corpo é nómada, mas a alma é sedentária, isto é, as pessoas mantêm-se agarradas a princípios religiosos e culturais, portanto, a pessoa apanha um avião e vai para longe, mas leva o seu mundo atrás. Haverá um momento em breve, possivelmente, em que será o contrário, em que o contacto cultural acabará por reverter a favor de uma noção maior de fraternidade. Mas este nomadismo global é algo recente do ponto de vista antropológico. A meu entender, é demasiado recente para que as pessoas não caminhem umas em relação às outras, levando atrás aquilo que é a sua raiz uniforme. Essa raiz uniforme impede que as pessoas olhem umas para as outras e façam uma comunhão daquilo que trazem. Cada um quer manter o que tem e olha para o outro que não é como ele como inimigo, e isso é o que provoca tudo o que está a acontecer atualmente.  

“O corpo é nómada, mas a alma é sedentária, isto é, as pessoas mantêm-se agarradas a princípios religiosos e culturais, portanto, a pessoa apanha um avião e vai para longe, mas leva o seu mundo atrás.”

E o cristianismo também fala, essencialmente, na aceitação do outro também, é uma ideia cristã.

É uma ideia cristã, exatamente, só que o que acontece é o seguinte: há muitos que se dizem cristãos, mas que não praticam o cristianismo. Filosoficamente, Cristo foi um profeta que anunciou um mundo absolutamente extraordinário quando diz: “Se me deres uma bofetada dou a outra face.” É de um pacifismo tão extraordinário, tão alto, tão elevado, mas muitos cristãos não são cristãos. Dizem-se cristãos, mas não praticam o cristianismo. E por isso é preciso ser forte. Há pouco tempo uma pessoa cristã dizia que precisamos de voltar a não dar a outra face se quisermos sobreviver. O que é dramático quando os cristãos dizem isso. Quando dizem, temos de não dar a outra face senão vamos desaparecer. É alguém que perdeu a paciência. Acho que não se pode perder a paciência. 

O Papa Leão IV é também ligado à questão da imigração, tem falado bastante sobre isso. Como é que vê a forma como a Igreja Católica está a lidar com estas questões, principalmente este Papa? 

É a minha interpretação, a Igreja é muito heterogénea e há, de facto, este Papa que me surpreende porque não se percebia que ele tinha, afinal, um perfil tão forte. Acho que está a desenvolver aquilo que foi a filosofia do Papa Francisco e acho que qualquer pessoa que perceba ou que pense com abertura e justeza naquilo que está a acontecer no mundo, percebe a mensagem positiva de Leão XIV. Mas, ao mesmo tempo, há uma parte dos cristãos que ameaçam com um cisma porque, de facto, há uma Igreja à volta do mundo reacionária que, felizmente, em Portugal não é assim tão forte. Temos uma das igrejas mais abertas da Europa, felizmente, e entendo que – pelo menos é a minha perspectiva – o receio de que possa haver um cisma é concreto, verdadeiro. Há muitos cristãos que não são verdadeiramente cristãos. 

Pela nossa história, o povo português teria uma outra responsabilidade em também saber como acolher quem vem à procura de uma vida melhor?  

Sim. Os portugueses têm uma diáspora imensa, andaram por toda a parte, chegaram a toda a parte de pés descalços, viveram mal em todo o sítio e foram acolhidos pelo trabalho e miscigenaram-se com toda a gente. Trazemos um ADN cultural de adaptação e de acolhimento, fomos acolhidos por toda a parte. Admiro-me muito que essa memória desapareça neste momento, que se faça da bandeira política aquilo que é rechaçar o outro. Acho estranho e penso que os portugueses vão pensar que isso é contra a nossa cultura. Que a gente ultrapasse num ciclo medianamente breve isto que está a acontecer.

“Cada um quer manter o que tem e olha para o outro que não é como ele como inimigo, e isso é o que provoca tudo o que está a acontecer atualmente.”

Ainda tem esperança? 

Tenho esperança, sim. Tenho esperança porque há duas velocidades: uma velocidade de superfície que é a que grita, a que exige, a que mais se faz ouvir, que é a mais rápida, mas há uma outra profunda que não se faz ouvir tanto, mas que é constante, feita pelas pessoas de bom senso. As pessoas que constituem as comunidades de ajuda, as pessoas, como os portugueses fazem, que organizam comunidades de vizinhança, que fazem sobreviver comunidades inteiras, que praticam realmente aquilo que são os princípios humanísticos que nós recebemos dos gregos e da cultura greco-cristã. Tenho a ideia de que sim, que a visão humanista vai preponderar-se, porque é ela que salva, ela não condena.

Sobre o papel dos escritores e da ficção. Vivemos numa altura de fake news, em que convivemos com o falso, é a era da pós-realidade. Ao mesmo tempo temos a ficção declarada. Uma ficção que, apesar de ser ficção, demonstra uma realidade mais profunda.

São dois caminhos que se cruzam em sentido contrário, dois carros que chocam. 

“Tenho esperança porque há duas velocidades: uma velocidade de superfície que é a que grita, a que exige, a que mais se faz ouvir, que é a mais rápida, mas há uma outra profunda que não se faz ouvir tanto, mas que é constante, feita pelas pessoas de bom senso.”

Mas precisamos também deste tipo de ficção? 

Não precisamos de fake news, que é uma ficção. Acho que são as pessoas que não estão alfabetizadas na ficção literária, na ficção artística, que mais aceitam a outra ficção. A pessoa precisa de ficção, precisa de ficcionar, precisa de dizer: “A realidade é esta, mas quero que ela não seja assim. Há uma educação que é feita pela ficção. A ficção ensina-nos a brincar, digamos, com a outra realidade, a dizer isto não é real, mas é uma outra realidade que me educa, que me completa, que me ensina, que me ajuda e que me diverte ao mesmo tempo. Isso é uma educação que vai sendo feita. Passados 20 anos, quando a pessoa tem 23, 24 anos, está um leitor, acabou por fazer essa aprendizagem. A pessoa que não a faz está aberta às fake news. A pessoa sabe que a realidade não é assim, mas ama ser enganada e enganar, precisamente porque não está habituada à ficção verdadeira. 

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