Reportagem (parte I). Viver da escrita em Portugal

por Joana Rodrigues Stumpo,    17 Julho, 2025
Reportagem (parte I). Viver da escrita em Portugal
Madalena Sá Fernandes, Alice Neto de Sousa, Filipa Martins, João Tordo e Afonso Reis Cabral / Fotografias de Rui André Soares – CCA

Esta reportagem está dividida em duas partes. A segunda parte pode ser lida aqui.

Afonso Reis Cabral, Alice Neto de Sousa, Filipa Martins, João Tordo e Madalena Sá Fernandes. A composição de nomes é digna de mesa redonda. A relação entre eles é, à primeira leitura, clara: todos são relevantes escritores portugueses que se juntam para descrever o estado da arte da literatura nacional. A convergência é ampla o suficiente para esbater as diferenças que os dividem, entre elas o género literário a que se dedicam e a maneira como encaram a escrita enquanto profissão.

Destes cinco autores, uns fazem dela o principal ganha-pão, outros tentam atingir esse patamar, e há ainda os que resistem à monetização da palavra. Unir vocábulos e dar-lhes sentido com o fio invisível que é um misto trabalhado de intuição e prática é, sim, um emprego (não fosse categorizado na Classificação Portuguesa das Atividades Económicas com o código 90110). Mas as vendas de livros ainda aquém de outros mercados e a forma como a leitura vem a ser encarada com pouco entusiasmo impelem a que se coloque a questão: ainda é possível fazer da escrita profissão?

João Tordo / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Aos 34 anos, João Tordo pensou que “aos 40 gostava de estar a viver da escrita”. Foi em 2009 que estabeleceu este objetivo, recém-vencedor do Prémio Literário José Saramago com a obra As Três Vidas. Foi o terceiro livro que publicou e quanto bastou para que se entusiasmasse com o prazo. “Depois tive de acrescentar alguns anos a essa meta”, mas não o fez com qualquer ressentimento. Para o autor, escrever é uma coisa que “demora muito tempo para aprender e, portanto, a única coisa que tu podes fazer é ir passo a passo”. Também Madalena Sá Fernandes optou por não se precipitar, embora admita que “sempre soube que era o que gostava de fazer. Só queria mesmo publicar o meu primeiro livro quando tivesse a certeza que havia os mínimos de qualidade literária”, conta. A estreia acabou por ser com Leme em 2023, este que é um produto de superação do “medo de entrar mais a sério no mundo da literatura”. E, para lá chegar, teve de fazer um caminho que a levou ao Brasil para terminar o curso em Línguas, Literaturas e Culturas. Do outro lado do Atlântico, descobriu “uma porta para as crónicas” e para “uma nova abordagem, mais leve”. Filipa Martins reconhece a importância não só de viajar, mas de conhecer o que há lá fora: “há autores que precisam de calcorrear os caminhos, de perceber o relevo dos percursos que estão a atravessar na escrita, no sentido que têm de ir, de viajar, de conhecer, têm de ser de alguma maneira interpelados pelos exteriores”. Autora de seis obras e “uma contadora de histórias”, vê os livros como oriundos “sempre de confrontos interiores” e a escrita enquanto “um território de liberdade”.

Foram os versos que levaram Alice Neto de Sousa à literatura, embora assuma que “em nenhum dos meus sonhos mais remotos eu pensava, ou pensei, em tornar a poesia um ofício”. Mas o destino funciona de maneiras misteriosas e, em março de 2022, a poeta estava no Pátio da Galé a declamar um poema da sua autoria que marcou o início das comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de abril. “Quando era pequena o objetivo era simplesmente escrever” e, mais tarde, lembra-se mesmo “de ter dito com muita força que não queria viver da escrita”. Afonso Reis Cabral também aponta o dedo à poesia enquanto introdução ao ofício. Era jovem quando começou a compor versos, “na altura era a maneira mais imediata e instintiva de começar a escrever”. Até aos 15 anos, assinou vários poemas, embora agora reconheça que “era uma espécie de teatro literário”. A escrita, contudo, era o passo lógico: “eu cresci com livros e, portanto, era muito natural querer, de certa maneira, responder a um chamamento que estava nas prateleiras”. Sentámo-nos com o escritor no dia em que celebrou um dos maiores feitos da carreira. Há “exatamente 10 anos”, ganhou o Prémio Leya com O Meu Irmão, o romance de estreia. Começou a escrita aos 21 anos e, três anos mais tarde, estava a obra publicada.

“O Meu Irmão”, de Afonso Reis Cabral

Os tempos antes de entrar oficialmente na indústria foram confusos: “Eu pensava que seria muito difícil escrever um romance e publicá-lo, não tinha nenhum contacto, não tinha ideia nenhuma de como chegar a um editor”, refere Afonso Reis Cabral. Portanto, “o prémio Leya, sendo um concurso de inéditos, para mim era a maneira lógica de tentar que alguém lesse o romance.” Foram três anos passados a escrever entre os pingos da chuva, numa tentativa de equilibrar esta tarefa com outras que garantissem uma fonte de rendimento estável. “Tinha uma bolsa de investigação, um part-time num escritório de turismo e estava a escrever a tese de mestrado” em Estudos Portugueses na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, “com a ideia de ter o lado profissional na edição”. Tempos com muito que balançar, mas, no fim, deram azo a “um momento fundador” da carreira de Reis Cabral. Mais tarde, em 2019, sagrou-se vencedor do Prémio Literário José Saramago com Pão de Açúcar e entendeu o impacto que determinadas honras têm na carreira de um escritor: “O livro já estava há uns meses nas livrarias e tinha vendas”, mas quando ganha o prémio “não só foi para os tops, como o próprio O Meu Irmão também, de arrasto. Há alguns prémios que têm esse condão e que ajudam, de facto, à carreira e a chegar a leitores”.

Também João Tordo foi vencedor do mesmo galardão, dez anos antes, e confirma que “teve um impacto muito grande. Acho que o livro publicado a seguir ao Prémio Saramago deve ter vendido quase 10 vezes mais do que o anterior”. Ainda assim, “não significa que eu tenha conseguido passar a viver da escrita a partir desse momento”, até porque “tu que és escritor só ganhas uma percentagem relativamente curta daquilo que é o bolo total” do valor de venda de um exemplar. O caminho até lá chegar “foi um processo lento” guiado por uma “determinação de não deixar de escrever, mesmo que os resultados comerciais não fossem extraordinários e eu tivesse outra profissão na altura”. Foi jornalista e correspondente em Londres, embora agora veja que “não gostava muito, mas era o que eu podia fazer naquela altura que estava mais associado à escrita”. Do jornalismo passou à tradução (de inglês para português), “um trabalho interessante para começar a perceber como é que as outras obras se cosem”. Durante vários anos, escrever era algo que ficava reservado para as horas vagas, algo que hoje “seria impossível. Não teria nem energia, nem disponibilidade, nem paciência para me sentar a escrever. Aquela ideia do tipo que escreve em horário pós-laboral e à noite dá frutos quando tu tens 28 ou 30 e poucos anos, mas às vezes aos 49 ou 48 já não consegues”.

Alice Neto de Sousa / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Para conseguirem ter um rendimento relativamente confortável, [os escritores] tendem a abarcar outras atividades que são satélite da escrita”, diz Filipa Martins, que partilha desta necessidade que parece ser a regra no universo da literatura portuguesa. Jornalista de formação, construiu um percurso que passa “por jornais, pela Assembleia da República, por executivos”. Martins é escritora, embora não a tempo inteiro: “Estou desde há alguns anos a trabalhar no setor empresarial, na área de comunicação”. Mas foi uma escolha. “Se dependesse da escrita para pagar as contas, teria com ela, se calhar, uma relação menos apaixonada e mais utilitária”. Além disso, aquilo que faz no dia-a-dia é a fonte de onde bebe para mais tarde aplicar nos livros, já que “essas contaminações, esses vírus que os diferentes universos colocam nos sistemas uns dos outros, enriquecem-me do ponto de vista como escritora”. Assinou também vários argumentos de televisão, como é o caso de 3 Mulheres. Diz que “escrever para cinema ou para televisão é diametralmente diferente de escrever um romance ou uma biografia”. A experimentação já é hábito para a escritora, que tem “um desejo de dedicar-me sempre a coisas que não sei fazer. Acho que isso, de alguma maneira, vai prolongar a minha longevidade”. Até porque a indústria cinematográfica tem uma grande vantagem: “O cinema tem, genericamente, muito mais dinheiro que a literatura e ainda assim tem pouco”.

No que trata a livros propriamente ditos, o rendimento do escritor vem de uma percentagem do valor de venda de cada exemplar, que pode oscilar à volta dos 10%. Porém, nos casos em que o autor recebe um adiantamento, os direitos de autor só começam a ser pagos assim que atinjam o valor adiantado. Há sempre bolsas artísticas, embora Filipa Martins acredite que funcionam “de maneira deficiente. Estamos a falar de valores muito reduzidos mensalmente e exigências de exclusividade, portanto, para mim é difícil compreender que o Estado ponha, no fundo, um teto ao rendimento mensal de um escritor”. É o caso das bolsas de criação literária da Direção-Geral dos Livros, dos Arquivos e das Bibliotecas, cuja página de perguntas frequentes explicita que “Toda a atividade por conta própria ou por conta de outrem deverá ficar suspensa durante o tempo da bolsa, com exceção da receção de direitos de autor de obras já publicadas, ou de participações pontuais na comunicação social ou em palestras e debates, para as quais os bolseiros deverão pedir autorização à DGLAB”. E, se um recipiente da bolsa estiver a receber o subsídio de desemprego, “terá de abdicar do subsídio”. Filipa Martins traduz: “o que o Estado está a dizer, no caso de uma bolsa literária, é que um escritor tem de viver obrigatoriamente com cerca de mil euros por mês, ponto. Independentemente de ter 10 filhos, de viver em Lisboa, em Trás-os-Montes, de ser um escritor no começo de carreira ou já alguém consagrado”.

Filipa Martins / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Para Alice Neto de Sousa, a atribuição “da bolsa da DGLAB, foi o momento em que eu percebi que poderia respirar”. O apoio surge numa fase em que “estava como funcionária pública, ou seja, vida estável”, embora vivida a meias com a poesia. E o equilíbrio nem sempre foi fácil, especialmente na altura da famosa declamação de “Março” no Pátio da Galé. No próprio dia, estava escalada para “um turno da meia noite às 7h” que tinha pedido para trocar, mas “ninguém conseguiu”. Mas o convite era irrecusável e o dia acabou por ser um longo périplo. “Trabalhei da meia noite às 7h, saí do trabalho, fui para casa, dei um cochilo e depois estava ali, no Pátio da Galé, «caindo chuvas de março sobre a cidade»”. São conflitos que “volta e meia acontecem quando temos um trabalho que também exige de nós”, mas, para Neto de Sousa, são prova da “resiliência que implica a parte da paixão à arte”. A persistência, ainda assim, não é sustentável quando se atinge este nível de exigência e “chegou o momento em que eu senti que tive que parar”. Aí, a prioridade foi a poesia e a bolsa da DGLAB o fôlego necessário. “Larguei o emprego na função pública, e acabei por fazer este período de escrita” que, apesar de “angustiante”, foi “importante, porque me permitiu perceber qual poderia vir a ser o meu processo de escrita”.

Madalena Sá Fernandes / Fotografia de Rui André Soares – CCA

Encontrámo-nos também com Madalena Sá Fernandes numa manhã de setembro em que se preparava para uma sessão de autógrafos nos Jardins do Palácio de Belém. Na altura, estava a usufruir de uma bolsa da DGLAB com a duração de 6 meses que dedicou ao “terceiro livro” (que entretanto partilhou nas redes sociais já estar terminado e entregue). “Esse tipo de apoio é muito importante”, já que, para se ser escritor, “é sempre preciso contar com estruturas à volta”. Cronista do jornal Público desde 2020, chegou a trabalhar “com publicidade e redes sociais”, percurso pelo qual enveredou no Brasil por necessidade. Era “uma área na qual nunca fui feliz e nunca gostei de o fazer, mas que foi importante para me aguentar lá, financeiramente”. Optou por uma profissão que não se desviasse demasiado da palavra, mas a distância acabou por ser demasiada, e aí percebeu que “na verdade o que eu gosto mesmo é da escrita em si. Ou seja, esse andar à volta não me motiva e não é o que eu gosto”. E para ir direta ao assunto foi preciso um salto de fé que a fez “largar então as outras coisas”, incluindo o emprego a tempo inteiro, “e começar a escrever diariamente para experimentar”. Mas para dar esse passo é preciso fazer contas. Se é necessário dedicar tempo a escrever e a escrita não rende o suficiente, como se chega ao fim do mês? A resposta, aí, pode passar então por iniciativas como bolsas de apoio à criação e oportunidades de residências artísticas, porque, como diz Sá Fernandes, “a coisa mais importante para um escritor é tempo e silêncio”.

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