Reportagem (parte II). Viver da escrita em Portugal
Esta reportagem está dividida em duas partes. A primeira parte pode ser lida aqui.
Para ser escritor, basta escrever. E para ser autor — aquele que é reconhecido e prestigiado pelo que cria e inventa — é preciso muito mais do que apenas publicar uma obra literária de qualidade. A promoção é um aspeto crucial do trabalho de quem assina livros. Porque depois da escrita e da edição, o processo não termina com o lançamento do volume literário. Há, ainda, o que pode vir a ser uma longa tournée de eventos de divulgação. Hoje em dia, “ouve-se muito dizer que não se vendem tanto livros, vendem-se escritores”, mas Madalena Sá Fernandes não sabe se concorda com a afirmação. Afinal, “a promoção só existe por causa da escrita”. Para a autora de À deriva, é preciso saber gerir o que possa vir a surgir com a visibilidade de um livro. “Quando eu era pequenina”, diz, “lembro-me de estar a andar de triciclo, é das minhas primeiras memórias, de estar a pedalar e a pedalar e a família toda a aplaudir. Isso é bonito, mas é importante que não haja mais aplauso do que pedalo. Na minha opinião, a função de um escritor é escrever.”

Nesta era da rapidez, é talvez mais fácil do que nunca ter sucesso — da noite para o dia até. O fenómeno das redes sociais permite a formação de massas consumidoras que transformam visualizações em vendas. O que, logicamente, não invalida a qualidade dos trabalhos que se tornam tendências de TikTok. É, no entanto, um mercado que se movimenta de maneira muito distinta do que era há apenas 15 anos. João Tordo ainda lembra esses tempos: “Se não fizesses uma coisa nova, que fosse diferente e só tua, não tinhas espaço”. Estreado na literatura em 2004 com Os Homens Sem Luz, pertence a uma geração de escritores que teve uma iniciação semelhante, “esta coisa de passares pelos passos todos do processo, ler muito, escrever muito sem resultados, começar então a adquirir uma voz”. A indústria onde “era muito mais difícil publicar” tem vindo a sofrer alterações nos últimos tempos e “abriu-se espaço para um novo tipo de livro”. Ao contrário da inovação que Tordo sentia ser “quase obrigatória”, nesta nova categoria literária “já não é preciso nada de novo, é preciso que tenhas um bocadinho de faro para o negócio e que dês às pessoas aquilo que elas querem ler”. De certa maneira, vai ao encontro da perceção de Alice Neto de Sousa, que vê ser algo necessário um entendimento do mercado: “Estamos todos à espera de ser descobertos, à espera que os outros façam as coisas por nós, mas acho que é importante também termos a capacidade de saber ler a indústria”. A questão é que entre escritor e empreendedor há uma grande diferença, até porque quem se dedica à escrita, diz Tordo, “em princípio não é uma pessoa que tenha um faro para o negócio muito grande, são pessoas bastante distanciadas dessa zona da vida”. É, sim, prudente cumprir alguns requisitos no que toca à comunicação do próprio trabalho, começando pelo contacto com o público. Afinal, e tal como coloca o escritor, “são eles que compram os meus livros e são eles que me permitem escrever o próximo”. Se para viver da escrita é preciso vender livros, então também é preciso manter essa proximidade, “seja através das redes sociais ou de encontros pessoais com os leitores, através de feiras do livro”. É o caso do evento que acontece todos os anos em Lisboa, no Parque Eduardo VII e que, em 2024, atraiu mais de um milhão de visitantes. João Tordo passa “muitas horas” no encontro da capital, ainda que se possa tornar num “exercício desgastante”. Admite que não é “tendencialmente uma pessoa que goste de estar em grandes grupos nem de estar sempre em viagem”. Não é apenas uma questão de personalidade — tal como Madalena Sá Fernandes, para quem tempo e silêncio são “a coisa mais importante para um escritor”, Tordo precisa de ter “muito tempo sozinho porque faz parte da profissão”.

A faceta promocional da vida de escritor foi, em parte, o que dissuadiu Filipa Martins de “procurar viver da escrita”. Efetivamente, concorda, “é um trabalho árduo, longo, não só de disposição pública, mas de contacto quase permanente com o leitor”. O que implica, ainda, “uma gestão da imagem pública”, a divulgação dessa mesma “figura e pensamento” e, claro, um investimento de tempo. Porque há um mundo além das feiras do livro: escolas, bibliotecas e eventos de lançamento e apresentação de novidades. Há cerca de 10 anos, as visitas de escritores a esses encontros eram vistas “como quase um ato de autopromoção”. Raramente eram presenças pagas. “É difícil falar em Portugal sobre dinheiro” e Filipa Martins atribui a mudança na abordagem em parte aos escritores internacionais, para quem estava mais estabelecida a prática de pedir pagamento. “Os próprios portugueses começaram a recusar trabalhos não pagos e a pedir cachê à cabeça. Esse pequeno movimento também interno, de solidariedade entre autores, fez com que o mercado esteja muito mais profissionalizado”. Agora, sente que o escritor já é visto como “um profissional da escrita que quando se desloca para entrar num debate, dar uma palestra ou a uma sessão de autógrafos merece ser pago pelo seu trabalho”. Aliás, para a autora a diferença é notória mesmo da parte de entidades públicas, como escolas e bibliotecas, cujos convites já incluem um “pacote” com “deslocação, estadia e cachê”. Ainda assim, Filipa Martins admite que não é “boa a discutir” valores e até prefere “não o fazer” — aqui entram as editoras, que “têm um papel fundamental, servindo de intermediário entre autor e entidade”, para que o escritor não tenha também de ser empreendedor.

E Afonso Reis Cabral reitera a ideia: “Só se eu fizer de agente de mim mesmo é que as pessoas abrem os olhos e veem” que as atividades que rodeiam a publicação de um livro são, realmente, trabalho. Não só “idas a festivais e a encontros com leitores”, mas também “solicitações” de escritos. Tem-se quebrado um pouco aquele imediatismo de “quero um texto teu, não tenho nada para te pagar”, diz, notando uma mudança tal como Filipa Martins. Reis Cabral sente que há “um certo pudor nacional em falar de dinheiro”, especialmente no que toca a produtos artísticos ou culturais, “algo tão puro, tão bom, tão bonito como um texto, que não se deve conspurcar isso com dinheiro”. Ainda que seja precisamente o que um escritor tem para oferecer: “é o nosso tempo, a nossa vocação, a única coisa que temos para trocar”. Porque o texto e o livro são produtos de mercadoria que não são facilmente produzidos. O escritor, como quem vende aquilo que faz, é um artesão cujos bens têm um valor, independentemente da sua natureza — “os artistas não vivem de ar”.
Ter a escrita enquanto única fonte de rendimento é “muito difícil, é quase uma utopia”. Para Afonso Reis Cabral, os livros que escreve são apenas uma fatia dos seus ganhos, até porque não é “de ficar parado, nunca”. É editor freelancer e colaborador regular da Imprensa Nacional, escreve uma coluna semanal para o Jornal de Notícias, está aberto a “encomendas de textos que vão surgindo”, é um dos cinco apresentadores do programa da Antena1 “Cinco à Quinta” e tem ainda a seu cargo “a presidência da Fundação Eça de Queiroz”, trabalho que classifica como “voluntariado cultural”. São atividades que “vão enchendo a vida de coisas” — ou, como diria Filipa Martins, são “combustível externo” que têm “um contributo muito positivo no resultado final” que é o livro. “Poderia estar a fazer o que for para ganhar dinheiro, mas a escrita nunca se apagaria”, diz Reis Cabral. Ainda assim, com tantas atividades que exigem não só tempo, mas a criatividade de que vive um escritor, por vezes diz que precisa “de um período de nojo ou de calma para retomar um romance”. Afinal, “escrever não é ligar e desligar um botão”.

Chegar ao fim do mês e pagar as contas com os rendimentos de obras publicadas depende também, como diz João Tordo, “da quantidade de títulos que tens no mercado”. Dificilmente bastaria ter um ou dois grandes sucessos porque o valor que o escritor recebe de direitos de autor é uma pequena fração do custo de um livro. Ronda os 8% “em início de carreira”, conta Afonso Reis Cabral, para quem esta percentagem está devidamente justificada, uma vez que há “uma galáxia à volta [do escritor], que vai do editor ao revisor, à editora, à distribuição e à livraria”. São fases necessárias do processo e a verdade é que “sem estes profissionais o livro não chega a uma distribuição nacional”. Este valor não seria efetivamente baixo se houvesse números bem mais altos de tiragem e vendas. Reis Cabral lembra José Saramago — que “com o selo do Nobel é diferente” — cuja obra As Intermitências da Morte “em 2005 teve a primeira tiragem de 100 mil exemplares. Isto já não existe hoje em dia”. Aliás, o escritor assume mesmo que “se um livro, um romance, vender 10 mil exemplares é muito” e, com estas vendas, “não dá para viver”.
Há de facto “uma cristalização e uma certa fantasia ligada ao artista”, como diz Alice Neto de Sousa. Uma idealização que vive do “glamour que as pessoas esperam”, e que resulta no tal pudor que tanto Filipa Martins e Afonso Reis Cabral identificaram. A poeta concorda que “normalmente associamos algo de que gostamos com algo que faríamos de forma gratuita, mas não é suposto ser assim”. Ainda que seja percebida de certa maneira à parte da lógica de consumo — enquanto não necessariamente um produto, mas uma expressão inevitável entendida num plano quase espiritual —, a arte não deixa de ser o resultado de uma elaboração. É, por isso, natural que haja um “debate sobre esta ideia deste lado mais mercantil, que acontece em relação àquilo que a arte também abarca, mas a verdade é que os artistas também comem”. E desta conversa, que tivemos com estes cinco autores, é fácil retirar uma conclusão: é improvável encontrar, até raro, o escritor que consiga viver do seu ofício em Portugal. Uma realidade que nem sempre vai de encontro à perceção que o público possa ter deste emprego. Alice Neto de Sousa conta que depois de ter viralizado nas redes sociais, foi abordada por uma pessoa no metro de Lisboa que perguntou “És a Alice? Então o que andas a fazer?”, ao que a poeta respondeu que estava “a sair do trabalho”. Foi recebida com um “mas” confuso de quem imagina “um romance tão grande em relação àquilo que é a vida do artista”. Porque entre adiantamentos, direitos de autor, visitas a escolas, bibliotecas e bolsas de criação literária que exigem exclusividade, são precisas várias fontes para que o rendimento de um escritor seja suficiente para o sustento. “É muito raro também conhecer alguém que viva da escrita por um longo período”, diz Madalena Sá Fernandes. Para tal, são precisas condições que não dependem necessariamente do mérito. Um sistema que tem por base receitas fruto de vendas tem chances de funcionar num contexto de maior dimensão, mas não neste mercado nacional que, como diz Filipa Martins, “ainda é tímido”. Ser escritor em Portugal é, ao que tudo indica, um ofício de horas vagas.
