Rescaldo presidencial
Há uma barata morta nas escadas do parque de estacionamento. Jaz deitada, de patas para cima, desde o início do ano. Alguém devia fazer alguma coisa, ou se calhar alguém podia fazer alguma coisa. Fico a pensar nisso, preso como sempre na armadilha deôntica que regula a vida de todos nós, juristas ou não: o poder e o dever. Depois passo do menos dois para o menos um e do menos um para o rés-do-chão, e saio do parque em direção ao trabalho. Quando voltar, ao final da tarde, quando já estiver escuro, o cadáver da barata terá desaparecido. E noite vai seguir o seu rumo.
Algures nesse dia vou entrar no Café para almoçar. É cedo, e só me apercebo disso devido às mesas vazias. Escolho uma a meio, de costas para o balcão, virado para a janela, onde dois americanos discutem qual dos bolos é que é o melhor: se o de chocolate, se o de café. Pouso a minha companhia, também ela americana, na mesa, e abro algumas páginas para acabar de vez com um capítulo importante. O piano – um noturno? – ouve-se pelas colunas, muito baixo e ainda assim muito presente. Olho à volta e vejo outros como eu: sozinhos, com livros ou jornais, sentados nos seus cantos, a comer. Sinto uma paz enorme.
Georges Steiner dizia que isto é que era a Europa: os cafés, e os jardins. Mas a América também são os bares, e as estradas. Qualquer vida é o cruzamento de individualidades diferentes, reunidas à volta de uma qualquer forma de congregação. Chamem-lhe fé, filme, viagem, ou apenas hora de almoço. Este Café é um formato, mas bem executado, com personalidade própria, e sempre que aqui venho sinto uma breve saudade cosmopolita de ambientes assim, mais centrais do que ocidentais, onde o frio é mais comum e o álcool mais saboroso.
O ano começou com pouco álcool, muito frio e alguma chuva. Às nove da manhã do dia um de janeiro estava numa bomba de gasolina em Ílhavo, a fotografar uma imagem banal, esteticamente desinteressante, mas que quis guardar. O Editor, se não estou em erro, é natural destes lados do noroeste nacional. Não lhe disse que vinha, apenas falámos mais recentemente sobre sondagens e previsões. Estamos alinhados no que parece ser o cenário mais provável para as eleições presidenciais mais tristes da nossa história. Imagino-o a suspirar, como eu, ao pensar no que se pode passar.
Mas falava de Ílhavo, e antes disso, da Europa, e dos cafés. Como serão os cafés na Gronelândia? Como será viver num dos frios mais nortenhos que existem? Devia ser relaxante, pacifico até. Até agora, quero eu dizer. Têm-me pedido para comentar estas coisas, estes eventos, da Venezuela à Gronelândia, passando pela Ucrânia… Todo este ano parece o meme de quarta-feira. Que semana, hein? Capitão, é apenas… é apenas um pouco tarde, como dizia o Manuel António Pina, quando lhe perguntavam se isto era o fim do mundo. Se é, então o Café dá-me ares de Steiner, mas de outra obra: “No Castelo do Barba Azul”. Nessas notas para a redefinição de cultura, Steiner fala do grande aborrecimento, da parálise que nos tomou enquanto civilização europeia antes da catástrofe que foi a segunda grande guerra. O que se seguiu foi o poder, maciço e arbitrário, e um gigantesco buraco existencial. Um perigo ao qual não queremos regressar.
Que devemos, então, fazer com estes dias? Por exemplo, com o sol solto que cai, generoso, sobre os telhados dos meus vizinhos, entrando pela janela da minha sala? O azul do céu é claro, limpo, tal como a minha decisão de voto. Vai chover muito, e muito mais tarde, e eu. Apenas peço para que a bactéria que se instalou nas gargantas cá de casa não ataque a minha. E que a direita não se lembre de se armar em esperta e optar por uma guerra clubística em vez de apoiar a única candidatura segura para a democracia liberal. Desculpem a piada fácil, mas estamos a viver tempos difíceis. E ainda nem é quarta-feira.
Recomendações do cronista:
Gostei do punk new-wave do novo disco dos Dry Cleaning. Ando a ler Devil’s House de John Darnielle e tem momentos, tem momentos. Tenho outras coisas para ler e ouvir, mas não tenho ainda ideias sobre as mesmas. Está demasiada chuva lá fora. Um novo semestre está a chegar. Ah, comecei um novo blog – https://pfes.blog. Deem uma espreitadela.

