Romance académico
Não sei porque é que pus uma gravata. Quer dizer, sei, claro que sei: porque era a última aula do semestre. E a última aula é como a primeira, apesar de dizerem que não, que não é, que a primeira não se dá, e que a última não se assiste. Quando dei a minha primeira aula também usei gravata – sou capaz até de ter usado a mesma, o que seria uma coincidência engraçada, se fosse capaz de me lembrar. Mas na última aula do semestre sabia que teria de usar gravata, até porque esta última aula significava, também, o fim da primeira: da primeira vez que regia a cadeira que dei, pela primeira vez, como assistente, nesta faculdade.
Eles repararam. Alguns, pelo menos, repararam na gravata. Quando forem ao vosso funeral, é bom que se vistam bem – podia ter dito isso, mas não, disse outras coisas. Disse que pensava muito no mundo em que o meu filho vai viver, o que é verdade. Disse que o mundo em que eu vivi era um mundo diferente deste, nem muito melhor nem muito pior, mas diferente. O que não sei se é verdade, mas eu disse à mesma. Disse-lhes também que tinha sido um gosto dar estas aulas, apesar de tanta coisa que se passou (das dores de costas, do sono, dos atrasos, e dos meus saltos lógicos e referenciais). E, claro, dei-lhes uma espécie de aula. Ou algo do género.
Falei-lhes de Hannah Arendt, falei-lhes de George Smiley, falei-lhes até um pouco de “Twin Peaks”. Não lhes falei de “Bleeds”, o disco dos Wednesday, um dos melhores discos que já ouvi, duro, confiançudo, raivoso, divertido, profundo, triste, e bonito, muito bonito. Acabei uma das aulas da cadeira com uma música desse disco, na versão inacreditável que a banda entregou (adoro essa expressão inglesa, “delivered”) no programa do Stephen Colbert (que, como tantas outras coisas da minha vida – qual delas? – vai acabar, para o ano). Dentro de uma espécie de mansão gótica, toda ela de madeira escura, uma mulher e quatro tipos com a mundanidade (em inglês soa melhor – “worldliness” – ou não, talvez não) cheia de potência que só os americanos conseguem vestir, sem vergonha ou pudor, sem medo, capazes de todo o mais e do muito menos, e do sublime assim-assim, mas dizia: uma mulher e os tipos (um deles, o ex-tipo da mulher) entregam um hino de melancolia tão tocante como o quintal de casa no lusco-fusco de verão.
Podia ter-lhes falado disso. Mas falei do António, o tipo mais feliz que podem conhecer, e da Carolina, a melhor professora que eles alguma vez vão ter, se tiverem essa sorte. Eu tenho a sorte de viver com ela, e de ser o pai do seu filho, que é também meu, o António, o rapaz-vida, o tipo mais espetacular de sempre. Não há canção que o explique, apesar de ele gostar mais de umas do que doutras. Por exemplo: prefere a versão de “Dancing in the Club” do MJ Lenderman à versão original do This is Lorelei, e é capaz de ter razão. É bem capaz de ter razão.
Eu sei porque é que pus uma gravata: foi porque a ocasião o exigia. Para mim, isto é uma aula, e é um espaço sagrado, o espaço onde eu estou para eles, a tentar passar-lhes o conhecimento que precisam, e muito outro que não, na realidade não precisam, mas que levam, ainda assim. As piadas, os passos, o andar – tudo aquilo sou eu, a pessoa eu, sem máscaras. Mesmo a gravata não bate muito certo – e ainda assim, porque não? Numa das fotografias que lhes mostrei, sobre o mundo de ontem, estou num palco de um bar em Cowgate, com menos quinze quilos de carne e músculo e mais cinco de cabelo, a tocar guitarra enquanto dois colegas lançavam batidas e melodias a partir de teclados. A seguir tocou o Oneothrix Point Never, um tipo simpático, que nos deu um abraço antes de começarmos o espetáculo. Depois, bem, depois voltei para a academia, e nunca mais voltei a sair.
Este é o meu primeiro ano como professor, depois de chegar a doutor. Foi o primeiro ano em casa sem a Rampa, e o primeiro ano com o António Pires na nossa vida. Nunca mais foi, e ainda bem, a mesma vida. Faz valer, todos os dias, o mundo de hoje, e o romance académico que lhe dedicamos.
Sugestões do cronista:
Han Kang, “A Vegetariana”. John Le Carré, “Smiley’s People”. A versão de “Christmas Times is Here”, original de Vince Guaraldi Trio, dos Khurangbin. A canção “She Came Along to Me” de Billy Bragg e Wilco, num regresso nostálgico à Adolescência. “Urlop”, o último disco do Filipe da Graça. Bolo rei. Um bom Natal para todos.

