Rosalía ao vivo: a reinterpretação do clássico com a leveza de um maiô
Poucas artistas concentram em si uma admiração tão consensual como Rosalía, a espanhola que tomou o mundo do flamenco de assalto com a sua interpretação cheia de negrume em Los Ángeles, para depois o levar consigo para a pop alternativa em El Mal Querer e, por fim, abrir-se ao mundo com as influências latinas e eletrónicas de MOTOMAMI e singles tão bem sucedidos como “Con Altura” ou “Despechá”. Quem tende mais para a música alternativa gosta de Rosalía; quem tende mais para a pop também. O que a torna cada vez mais entusiasmante é a sua aparente incapacidade de se repetir — algo comprovado pelo lançamento de LUX no final de 2025.
Depois do enorme sucesso da tour de MOTOMAMI, que a trouxe a Braga e Lisboa para dois concertos esgotados, a artista voltou a esgotar duas datas na Meo Arena, que se encheu de fãs curiosos para ver como Rosalía interpretaria a pop (será?) orquestral do seu último disco ao vivo. As imagens reveladas ao longo das últimas semanas (a digressão já havia passado por cidades como Madrid e Lyon) já deixavam entrever um espetáculo que devia muito ao ballet, à ópera e às artes visuais. Enquanto esperávamos o início, música clássica tocava no fundo e o palco tapado por uma gigante tela virada ao contrário aguçava a nossa curiosidade. Entretanto, a orquestra aflorou e começou a deslocar-se para o palco secundário, em forma de cruz, colocado entre a plateia do golden circle e a plateia em pé.

A tela abriu-se pelo meio, revelando um cenário que parecia um estaleiro de construção, com estruturas cobertas por panos brancos e uma grande caixa no meio. Deu-se então início à azáfama da equipa de palco e dos bailarinos. Os primeiros, enquanto soavam as primeiras notas de “Sexo, Violencia y Llantas” (canção que abre LUX), destapavam duas escadas que faziam a vez de altares, um deles encimado por um piano; os outros desprendiam os lados da caixa para revelar Rosalía no seu interior, em pose de bailarina de caixa de música. De corpo hirto, a artista era manuseada pelos bailarinos enquanto cantava a bombástica canção que, infelizmente, perdeu força devido à pobre acústica da sala que se fez notar ao longo de praticamente todo o concerto.
Tal como LUX, o concerto foi dividido em atos. O primeiro foi estruturado quase como no álbum. Seguiram-se “Reliquia”, “Porcelana” (estendida com um outro eletrónico pujante) e “Divinize”, que foi interpolada com “Thank You”, da Dido. O mote desta interpolação serviu para recordar carinhosamente a primeira passagem de Rosalía por Portugal, no Theatro Circo, em Braga. A artista catalã relembrou a calorosa receção que por lá encontrou e a gratidão que sentiu por poder apresentar o seu flamenco para lá das fronteiras espanholas. Quem diria que, apenas 9 anos depois, esgotaria duas vezes a maior sala do país e cantaria para uma turba de devotos fãs? Talvez por isso estivesse num permanente estado de emoções à flor da pele, emoções essas que lhe serviram para interpretar magistralmente a exigente “Mio Cristo Piange Diamanti” e fechar o primeiro ato comprovando que é dona de uma das melhores vozes da atualidade.

A intensidade da sua música sobe a um nível incomparável em “Berghain”, que surpreendeu toda a gente quando foi lançada como primeiro single de LUX. Um labirinto orquestral, com um final soturno protagonizado por Björk e Yves Tumor, ao vivo toma proporções ainda mais épicas, com a adição do remix de hard techno de Conrad Taylor — algo que já havíamos visto na atuação dos BRIT Awards e que nos tinha deixado embasbacados. “De Madrugá” também se estendeu para um final eletrónico mais intenso que em disco e trouxe de volta o flamenco quase totalmente ignorado no concerto — não pudemos deixar de sentir saudades de El Mal Querer. Mas pelo menos o primeiro disco marcou presença, com “El Redentor”, cuja guitarra distorcida pontuou um dos momentos mais poderosos do concerto.
Entre atos, a seriedade e intensidade da música eram entrecortadas por interlúdios leves, sendo que uns funcionavam melhor que outros. No primeiro, com o cenário coberto de novo, os dois ecrãs laterais mostravam alguns dos bailarinos a tentar atingir as notas mais altas de “Mio Cristo” de forma humorística. A utilização dos ecrãs e de câmaras em palco remete-nos à tour de MOTOMAMI, o álbum anterior de Rosalía, que transporta o público para mais próximo do palco, inclusive aos bastidores que normalmente não vemos.
Noutro interlúdio, recortes de obras de arte famosas eram emparelhados com imagens de elementos do público das bancadas, para que estes as imitassem — desde “O Grito”, de Edvard Munch, a “Rapariga com o Brinco de Pérola, de Johannes Vermeer — com algumas reações verdadeiramente hilariantes. Bem a meio do espetáculo, Rosalía chama ainda o influenciador chinês que divide o seu tempo entre Portugal e a China, Marcelo Wang, para o seu confessionário improvisado, onde Marcelo conta uma engraçada história sobre um caso de uma noite que deu errado, antes de começar “La Perla”, canção jocosa dirigida a todas as “pérolas” — homens que enganam, dissimulam, traem e ainda se fazem passar por bonzinhos.
Apesar da reverência de Rosalía pela arte clássica e pela religião, ela sabe que este ainda é um espetáculo pop para gerações cada vez mais desconectadas destas expressões artísticas. É por isso que esta ideia de não as levar demasiado a sério — nem a si mesma —, adaptando-as à sua linguagem artística, funciona. Canções como “La Combi Versace” ou “Saoko” convivem com a relativa austeridade de LUX, em versões ligeiramente mais orquestrais, de forma fluida. O espetáculo acaba inevitavelmente por ser menos coeso que o da tour de MOTOMAMI, com alguns elementos destoantes, como a sacarina versão de “Can’t Take My Eyes Off You”, em que Rosalía encarna uma Mona Lisa viva e é fotografada/filmada por fãs em palco como num museu.
Apesar disso, um dos motivos pelos quais qualquer espetáculo de Rosalía será bem recebido é o carinho com o qual ela trata o seu público. Entre ler alguns dos cartazes espalhados pela multidão e interagir com os fãs enquanto canta a versão estendida de “Dios es un Stalker”, sente-se uma genuinidade e desenvoltura na sua maneira de estar que é impossível ser fabricada ou forçada. Quando se aproxima do centro da sala, na zona onde a orquestra tocava, a proximidade torna o concerto instantaneamente mais íntimo. É por isso que escolhe esse momento, em Lisboa, nada mais nada menos, para apresentar “Memória” pela primeira vez ao vivo, com a participação já esperada, mas muito celebrada, de Carminho. Foi uma apresentação arrepiante em que, efetivamente, o público da arena fez silêncio para se ouvir cantar o fado.
Logo de seguida, para reativar os músculos, dá-se início à rave de “CUUUUuuuuuute”, uma das canções mais eletrizantes de MOTOMAMI, durante a qual a atenção foi quase toda para um dos elementos mais impactantes do espetáculo: um enorme turíbulo pendurado do teto do recinto, que inicialmente parecia uma coluna de som, balançando e soltando fumo como se numa gigante procissão religiosa nos encontrássemos. A imagética cristã muito associada a LUX esteve presente ao longo de todo o concerto — normalmente em elementos mais previsíveis, como altares, véus ou cruzes, cujo interesse dependerá da afinidade do público com o cristianismo — mas este foi efetivamente o seu ápice, um cruzamento perfeito entre sagrado e profano.
O final foi um presente especial para quem comprou a versão física de LUX (ou para quem ouviu as versões digitais difundidas por meios duvidosos), com a interpretação das canções extra: “Novia Robot” e “Focu’ranni”. Essas canções, em que espanhol, chinês, hebraico e siciliano convivem à vontade na voz de Rosalía — as traduções em português eram transmitidas num ecrã por cima do palco — abriram caminhos por uma pop ora brincalhona, ora esperançosa. Para fechar o concerto, ficou reservado o final apoteótico de “Magnolias”, a maravilhosa canção que também fecha LUX e que, em 3 minutos, cria uma imagem tão vívida de um funeral imaginado de Rosalía que até ficamos atarantados quando o concerto termina de repente.
Para quem espera sempre o melhor de Rosalía, este concerto pode ter ficado aquém em alguns parâmetros. Todavia, um concerto uns pontinhos abaixo de incrível de Rosalía ainda consegue ser um concerto melhor que a maioria.
