Santa Maria da Feira lança festival literário Miolo que pretende cruzar literatura com filosofia, política, sociologia, ciência e design

por Lusa,    12 Agosto, 2026
Santa Maria da Feira lança festival literário Miolo que pretende cruzar literatura com filosofia, política, sociologia, ciência e design
Joana Bértholo / DR
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Santa Maria da Feira vai lançar a 25 de setembro o festival Miolo, que, inspirado no mote “Do interior do livro ao interior do pensamento”, pretende cruzar literatura com filosofia, política, sociologia, ciência, ‘design’ e outras áreas.

A câmara municipal do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto ainda está a ultimar o cartaz da edição de estreia, mas anuncia já que o evento de três dias contará com figuras como a urbanista e promotora cultural norueguesa Anne Beate Hovind, a escritora espanhola Clara Usón, o ‘designer’ e ilustrador da mesma nacionalidade Isidro Ferrer, e, entre os nomes portugueses, o advogado e ex-governante Adolfo Mesquita Nunes, a dramaturga Joana Bértholo e o escritor Gonçalo M. Tavares.

“O Miolo nasce da convicção de que uma política cultural deve também criar tempo e espaço para pensar”, declarou à Lusa o vereador da Cultura na Câmara da Feira, Paulo Marcelo.

“A literatura é o ponto de partida porque permite entrar no labirinto do pensamento humano, permanecer numa pergunta e aproximar ideias que habitualmente surgem separadas – mas queremos que Santa Maria da Feira tenha um encontro onde a literatura abre espaço às perguntas da ciência, da filosofia e da política, e às formas do ‘design’ e da música”, explica.

O festival irá decorrer na Biblioteca Municipal e será de entrada livre, embora implique reserva individual de lugar para cada sessão do programa – com as inscrições a abrirem no início de setembro.

“Será um programa de pensamento e debate a partir de temas literários e da atualidade. Não seguirá uma lógica comercial editorial clássica; prossegue uma visão de pluralidade de visões e debate”, realça Paulo Marcelo.

Com isso em vista, os oradores convidados para o evento foram selecionados “pelo que acrescentam a esta proposta” e pela experiência que vêm acumulando em “percursos diferentes”, o que os tornará “capazes de introduzir no debate outras perspetivas e de deixar na plateia ideias que permaneçam para além do festival”.

Anne Beate Hovind, por exemplo, tem-se destacado internacionalmente sobretudo pelo seu trabalho de desenvolvimento urbano, ao promover projetos de longa duração que, cruzando arte, arquitetura e espaço público, fundem criação artística, narrativa e cidade. É ainda curadora e produtora do projeto “Future Library 2014-2114 / Biblioteca Futura”, que, concebido pela artista escocesa Katie Paterson com o apoio da Cidade de Oslo e da Biblioteca Nacional de Oslo, irá reunir um manuscrito inédito por ano de forma a divulgar, em 2114, uma antologia de 100 textos pelos grandes escritores, poetas e pensadores do século XXI.

Já a multi-premiada Clara Usón exerceu 18 anos como advogada e é agora apontada como uma das vozes mais marcantes da literatura contemporânea espanhola, enquanto Isidro Ferrer é reconhecido como um dos mais influentes criadores visuais do panorama gráfico de Espanha, por ser autor de uma obra situada entre o ‘design’, a ilustração, a poesia visual e o objeto escultórico.

Relativamente aos convidados portugueses, Adolfo Mesquita Nunes já foi deputado e secretário de Estado do Turismo, mas atualmente trabalha como advogado, administrador de empresas e professor, sendo especialista em políticas públicas e regulação da inteligência artificial.

Joana Bértholo, por sua vez, é a autora premiada de romances, contos, ensaios, literatura infantojuvenil e escrita para teatro e dança, explorando nessas obras as tensões entre o capitalismo contemporâneo, a crise climática e a relação entre o humano e o mundo natural. Quanto a Gonçalo M. Tavares, distinguido com o Prémio Saramago em 2005, assina uma obra traduzida em mais de 60 países e já viu vários dos seus livros adaptados para teatro, rádio, cinema, ópera e outras linguagens artísticas.

Com esses e outros oradores, os três dias do Miolo estarão organizados em três “movimentos”: o dia 25 de setembro será dedicado a “dar forma”, acompanhando o nascimento de uma ideia e os processos que lhe dão linguagem, imagem ou matéria; o dia 26 é para “pensar”, refletindo sobre a atualidade e sobre as forças que transformam o presente; e o dia 27 será para “narrar”, regressando à literatura e o modo como ela “guarda a memória, reabre o que se julgava resolvido e imagina o que ainda não existe”.

Para Paulo Marcelo, cada encontro partirá assim da literatura “para aprofundar uma pergunta, confrontar perspetivas e tornar menos simples o que parecia evidente”.

Exposições, espetáculos e atividades de mediação também vão constar do cartaz da primeira edição do Miolo, que, “pensado para diferentes gerações e relações com a leitura”, se propõe abordar diferentes temas com familiaridade, “sem lhes retirar complexidade”.

“Será um encontro literário de pensamento, onde os livros não encerram assuntos – abrem é a discussão”, conclui o vereador.

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