Segurar a época

por Henrique Pinto de Mesquita,    24 Janeiro, 2026
Segurar a época
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Vir da direita e apoiar Seguro não é sinalizar virtude, é saber de onde se vem: dos que construíram a Europa liberal que emancipa os pobres; dos que a fizeram tão humanista que olha pelos que não conseguiram; dos que a criaram tão livre que hoje Pessoa e amanhã Cesariny.

Vir da direita e apoiar Seguro é continuar a ir por aí: é encasacar essa velha Europa, que, apesar de manta de retalhos de diferentes culturas, ainda nos dá paz e põe os filhos na escola. A mesma que, embora abalada pela época, se vai equilibrando na corda – e, sendo luz, ilumina o caminho.

Foi essa luz —  e as suas sombras, esquinas, maravilhas e relevos — que fez a Europa, Portugal, Arronches. Arronches não está ligado a Espanha por uma ponte: é Sá Carneiro quem está ali esticadinho. A esperança média de vida não aumentou por decreto: é Arnaut que ali anda de seringa na mão. O espírito europeu não caiu das árvores: é Jesus em Mykonos e em Mirandela.

Não é de esquerda contra direita que se fala a 8 de fevereiro. É sobre a que época queremos pertencer: se à que nos carregou até agora e resultou num dos maiores períodos de paz e progresso na história; se à da neo-indecência e rasteirice sabuja, na qual já entraram outros países. Não é sinalização de virtude: é mostrar que a outra opção é o esgoto. Não é só Seguro contra Ventura: é optar pelo modelo que mais alavancou a gente contra o que quer pôr a gente contra a gente.

Somente preocupados com o seu futuro político, Montenegro e Nuno Melo são incapazes de defender a época que herdaram, não se apercebendo que o novo mundo também os há de comer. PSD e CDS morrerão engasgados no seu próprio vómito.

Sou um democrata-cristão: creio na liberdade individual e no mercado livre, nunca esquecendo os mais pobres. Votei quase sempre no centro-direita. O meu modelo de sociedade – a democracia, a divisão de poderes, a boa-fé, a construção de pontes, as boas maneiras, a inteligência, a cultura, a previsibilidade, a responsabilidade, a defesa dos invisíveis – só existe na candidatura de António José Seguro.

A direita reacionária chama a isto sinalização de virtude. Parece-me apenas juízo e querer continuar a esculpir o mundo construído pelos gigantes que nos antecederam. Não é sobre Seguro — é sobre segurar a época.

Recomendações do cronista:

A única recomendação importante: não dar isto por vencido e ir derrotar nas urnas André Ventura, a 8 de fevereiro.  

Em janeiro descobri a eletrónica melancólica de MANARËM, artista belga que compôs no seu quarto MOVMËNT (2025): ouvido com phones, em nada difere de ir a um mercado marroquino e respirar os cheiros, notar as cores e suspirar perante os prateados dos peixes. É uma riquíssima estreia.

Este mês descobri ser ainda mais ignorante do que pensava: em Rio de Janeiro, Carnaval e Fogo (ASA, 2006), Ruy Castro ensinou-me que os primeiros a colonizar esta cidade foram os franceses e não os portugueses. Bem que os JNcQUOI, Olivier ou outras bimbalhadas podem tentar: o melhor grupo de restaurantes de Lisboa é mesmo o David. No da Buraca experimentei morcela frita com pickles ralados (o meu prato favorito dos últimos anos) e no de Benfica umas atrevidas migas de tomate.

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