Sem mães não há sociedade

por Nelson Nunes,    7 Agosto, 2025
Sem mães não há sociedade

Eu bem vi como a minha mãe me educou. Tudo começou quando, farta da violência doméstica, a minha mãe me disse que íamos fugir de casa. Respondi-lhe: “Vamos, o pai é mau”. E eu hoje imagino o que terá visto uma criança de dois anos para dar uma resposta destas.

Os anos seguintes foram de uma dureza que ainda hoje me é difícil compreender. Com os pais emigrados e um irmão a viver em Lisboa, a 30km do nosso bairro, a minha mãe fez tudo praticamente sozinha. Trabalhava, tratava da casa, educava-me como podia. Conseguiu esmifrar o ordenado a ponto de arrendar uma casa minúscula, o resto sobrava para pagar água, luz e alimentos. Às vezes, não tinha dinheiro para me dar de comer. Imagine-se a angústia inimaginável.

No supermercado, eu não fazia birras. A minha mãe nunca me pediu aquele silêncio, mas a minha cabeça de três, quatro anos terá compreendido sem palavras que os tempos não estavam para luxos como Bollycaos ou ovos Kinder. Calculo que a aflição no seu rosto tenha bastado me silenciar os caprichos. Do lado dela, só posso imaginar a dor de não poder dar ao filho o que era urgente: o trabalho roubava a presença, e nem o dinheiro sobrava para amansar angústias ao cachopo.

Escusado será dizer que a minha mãe não podia pagar infantários ou ATL onde me deixar. Por sorte, encontrou uma senhora que se disponibilizou para tomar conta de mim, por uma quantia simbólica e comportável. Essa senhora tornou-se praticamente minha avó, um reduto emocional que nos salvou. Foi minha ama durante 13 anos, e ainda hoje a visito, mais de duas décadas depois do acolhimento que me deu. A dívida será sempre impagável.

A minha mãe trabalhava numa fábrica, na qual os horários eram impiedosos. Andava a pé quatro quilómetros, depois de deixar o filho na ama, fizesse chuva ou sol, para não falhar o picar do ponto. Durante dez horas por dia (no mínimo), estava sem o próprio filho. Seria de esperar que não fosse tão difícil ser mãe nos dias que correm, mais de 30 anos depois da minha infância, mas a guerra persiste. A luta só mudou de rosto.

A minha mãe foi heroica no que conseguiu sozinha, mas não tem ilusões – diz frequentemente que teve muita sorte no meio da desgraça. Eu concordo. Por uma sucessão de meros acasos, não me tornei num delinquente. A crescer num ambiente de violência, solidão e desesperança, o desamparo poderia ter-me levado a procurar caminhos soturnos. E, se o Estado tivesse sido companheiro, rede de segurança, talvez se tivesse poupado muito sofrimento.

O nível de desenvolvimento de uma sociedade pode ler-se na forma como protege o seu próprio futuro, a começar pelo modo como cuida das suas crianças.

Condenar as mães à ausência é tortura infantil.

Quantas empresas evitam contratar mulheres, não vá dar-se o caso de engravidarem nos próximos meses? Agora, o belicismo anti-mães estende-se ao Governo, que prioriza o trabalho e secundariza a fundamental função da maternidade. Pior: lança suspeições injustificadas sobre as mães, que nada mais querem além de estar perto dos filhos e ser isso mesmo: mães.

As mães, essas mandrionas que querem ter algum tempo para cuidar dos filhos, amamentá-los, estar perto, cultivar a relação. Que loucura, preferir ser mãe perante os louvores gloriosos do trabalho. É assim que pensa a nossa força política contemporânea. Mas sem mães não há sociedade.

O nível de esclarecimento científico e cultural destes ministros é tão elevado que me fazem crer que o último livro de divulgação científica que leram foi numas férias em Armação de Pêra, naquele Verão luminoso de 1962.

Os nossos políticos demonstram tanta sensibilidade com o povo que quase parece que só se habituaram ao cheiro a pobre graças à criadagem que tinham lá em casa a fazer-lhes os jantares, a mudar-lhes os lençóis, e a educar-lhes os filhos.

Se a guerra aberta à natalidade continua, o futuro do País será uma miragem. E, dentro de 50 anos, os líderes políticos que adoram fazer títulos de jornal com alarvidades serão alvo da mais bela chacota. Isto, claro, se houver gente que povoe o País para gozar com eles. Porque, pelo ataque à natalidade que se tem visto, ser pai e mãe é cada vez menos recomendável.” 

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