Ser mulher, um determinante de saúde

por Francisca Figueiredo,    28 Maio, 2026
Ser mulher, um determinante de saúde

No último Índice de Igualdade de Género publicado em 2025 (1), no domínio da saúde, Portugal ainda apresenta uma grande margem de melhoria para alcançar a igualdade de género. Apesar de as mulheres apresentarem hábitos de vida mais saudáveis do que os homens e terem uma esperança média de vida mais longa, reportam uma autoperceção de saúde pior e estima-se que após os 65 anos tenham menos anos de vida saudáveis do que os homens. Segundo os dados, estas diferenças entre homens e mulheres ocorrem da mesma forma nos restantes países da União Europeia. Apesar de o índice não oferecer explicações para estas diferenças, estão estudadas iniquidades entre sexos, com prejuízo das mulheres, em várias áreas como o acesso a cuidados de saúde, investigação científica, autonomia sobre o seu corpo, entre outras (2). A influência do sexo nestes e em outros pontos tornou este dado demográfico em algo mais: um determinante de saúde (3).

Mas onde nasce esta iniquidade? Por que razão prevalece nos dias de hoje? A desigualdade biológica tornou-se uma iniquidade através de processos históricos, sociais, políticos e estruturais complexos. Na maior parte do mundo, desde o início das civilizações observou-se o domínio do poder pelos homens, que, aliado a padrões culturais e tradicionais, que pressupõem a inferioridade do sexo feminino, resultou na submissão das mulheres (4). Foram construídas barreiras ao poder, à formação, ao trabalho, à participação cívica e, por fim, como consequência de tudo isto, à mesma oportunidade de ser saudável.

“A saúde da mulher é considerada uma área de nicho para o capital privado, devido à falta de dados e perspetivas de pouco retorno, atrai apenas 6% do investimento privado.”

De forma a compreender este processo, é necessário recuar centenas de anos até à Grécia Antiga, onde surgiram teorias sobre o funcionamento do corpo feminino que iriam prevalecer durante séculos. Um dos exemplos paradigmáticos é a histeria, que deriva da palavra grega hysteron (útero). Na ginecologia hipocrática acreditava-se na existência de um “útero errante” que vagueava pelo corpo da mulher e, consoante o órgão em que tocava, causava sintomas correspondentes, tal como a histeria (5). Os sintomas incluíam convulsões, sensações de sufocamento, entre outros. Eram apresentadas várias explicações para este fenómeno, uma delas era a abstinência sexual (6). Assim, fazia parte dos tratamentos recomendados casar e manter uma vida sexual satisfatória para “limpar” o corpo e humedecer o útero (7). O seu entendimento enquanto doença e a sua abordagem variaram ao longo dos séculos de acordo com as crenças filosóficas, sociais e religiosas vigentes. Mas o pressuposto pareceu sempre o mesmo: reduzir a saúde da mulher ao seu útero.

“Na maior parte do mundo, desde o início das civilizações observou-se o domínio do poder pelos homens, que, aliado a padrões culturais e tradicionais, que pressupõem a inferioridade do sexo feminino, resultou na submissão das mulheres. Foram construídas barreiras ao poder, à formação, ao trabalho, à participação cívica e, por fim, como consequência de tudo isto, à mesma oportunidade de ser saudável.

O direito ao voto, à autonomia financeira, à formação, entre outros, são conquistas femininas muito recentes na história da humanidade e assimétricas globalmente. À semelhança destas questões, a inclusão de mulheres em estudos científicos também o é. Durante dezenas de anos, as mulheres foram excluídas de estudos clínicos, apesar de muitas das condições estudadas também afetarem pessoas do sexo feminino e de os mesmos tratamentos serem utilizados em homens e mulheres. O androcentrismo (a prática, consciente ou não, de colocar um ponto de vista masculino no centro da sua visão do mundo, cultura e história) prevalecia na investigação, excluindo-se mulheres pois ora se assumia que em tudo eram iguais aos homens, exceto a nível reprodutor, ora se considerava que as suas hormonas poderiam influenciar os resultados dos estudos (8). O resultado teve um impacto nefasto na saúde das mulheres, como é o caso do zolpidem (9), que só após ter sido comercializado é que se descobriu que, para a mesma dose de medicação, as mulheres tinham o dobro da dose no organismo do que os homens, devido a diferenças do metabolismo. Sob falsos pressupostos, a falta de investigação em ambientes controlados fez com que as mesmas regras de prescrição de medicamentos para os homens se aplicassem às mulheres, e esta ação tornou as mulheres vulneráveis a efeitos medicamentosos não estudados. Para não as colocar em risco em ambiente controlado, colocaram-nas na vida real (8).

Fotografia de Etactics Inc / Unsplash

Atualmente, continua-se a verificar um desinvestimento na investigação nesta área. Como a saúde da mulher é considerada uma área de nicho para o capital privado, devido à falta de dados e perspetivas de pouco retorno, atrai apenas 6% do investimento privado. Apesar desses pressupostos, o World Economic Forum estima que o desenvolvimento de tratamentos focados na saúde feminina para apenas quatro condições como menopausa, osteoporose, doença de Alzheimer e doenças cardiovasculares, nas mulheres dos EUA, poderia desbloquear uma oportunidade de mercado superior a 100 mil milhões de dólares até 2030 (10).

Passando dos laboratórios aos hospitais, as iniquidades permanecem, prevalecendo estigmas históricos que rotulam as mulheres de “histéricas” para deslegitimar as suas queixas, e que desvalorizam a sua dor, atribuindo-a apenas a causas psicológicas (11). Este processo não só diminui a confiança das mulheres na sua autoperceção, como contribui para anos de vida sem diagnóstico ou tratamento adequado. Um exemplo deste fenómeno é o diagnóstico e tratamento da endometriose. O diagnóstico desta doença é realizado, em média, 5 a 12 anos após o início dos sintomas e após a consulta de 3 a 7 médicos (12). Parte deste atraso deve-se a vários níveis de barreiras. Ao nível da doente, o estigma menstrual, a aceitação social da dor como algo normal e a dificuldade em articular os sintomas levam ao atraso na procura de cuidados médicos (13). Por seu lado, os médicos, devido à falta de formação, consciencialização e a atitudes de desvalorização dos sintomas motivadas por um enviesamento implícito, constituem outra barreira para os cuidados adequados. Por fim, existem as próprias dificuldades dos sistemas de saúde no que concerne ao acesso a cuidados médicos especializados (14). Para além da endometriose, verifica-se em muitas outras patologias o atraso do diagnóstico, associado a critérios de diagnóstico centrados nos homens, tais como doenças cardiovasculares (15), autismo e PHDA (16), doenças inflamatórias intestinais (17), doença pulmonar obstrutiva crónica (18), entre outras.

“Durante dezenas de anos, as mulheres foram excluídas de estudos clínicos, apesar de muitas das condições estudadas também afetarem pessoas do sexo feminino e de os mesmos tratamentos serem utilizados em homens e mulheres. O androcentrismo (a prática, consciente ou não, de colocar um ponto de vista masculino no centro da sua visão do mundo, cultura e história) prevalecia na investigação, excluindo-se mulheres pois ora se assumia que em tudo eram iguais aos homens, exceto a nível reprodutor, ora se considerava que as suas hormonas poderiam influenciar os resultados dos estudos.

Recentemente, foi publicado o relatório PaRIS (19), que inqueriu mais de cem mil indivíduos com mais de 45 anos sobre a sua experiência de utilização dos sistemas de saúde e a sua perceção em relação à própria saúde. Comparando os resultados entre homens e mulheres, as últimas apresentam indicadores de saúde física e mental inferiores aos dos homens em quase todos os países inquiridos, mesmo após o ajustamento por fatores socioeconómicos e número de doenças crónicas. Em relação à confiança nas instituições clínicas, é onde se encontraram mais diferenças, sendo que os homens confiam significativamente mais nos sistemas de saúde, provavelmente devido, segundo o relatório, a enviesamentos implícitos no tratamento das mulheres ou a uma menor representação das preocupações femininas na investigação médica. Por último, as mulheres têm uma probabilidade ligeiramente menor de sentirem que os cuidados que recebem se centram nas suas necessidades.

Fotografia de Vitaly Gariev / Unsplash

Na extensão do mencionado anteriormente, outro exemplo que corrobora como o sexo determina as condições de saúde de um ser humano, independentemente do contexto, são as condições de saúde das mulheres em situação de reclusão (20). Os mesmos problemas que afetam as mulheres em liberdade, como o subdiagnóstico, um passado marcado por traumas e abusos, e barreiras sociais ao acesso a cuidados, como as responsabilidades familiares, são agravados em estabelecimentos prisionais construídos apenas para acomodar homens jovens. Numa conjuntura em que, por si só, a saúde já é mais precária do que na população em geral (21), o estado clínico das mulheres em reclusão, em comparação com os homens na mesma situação, é ainda pior.

“Ser mulher é um determinante de saúde em toda a linha, desde a forma como os sintomas são autopercecionados até ao tratamento, são múltiplas as barreiras. Assim, a abordagem desta questão não passa apenas por uma mudança do paradigma médico, mas também social. Pouco importa melhorar a investigação médica na saúde da mulher se a mesma não conseguir aceder aos cuidados de saúde devido às disparidades salariais, responsabilidades familiares desequilibradas ou desvalorização dos próprios sintomas.”

Os resultados destas desigualdades são 75 milhões de anos de vida perdidos mundialmente (10). Desta forma, constrói-se um ciclo vicioso de doença, perda de bem-estar, diminuição de produtividade e, consequentemente, de rendimentos, agravando ainda mais as desigualdades sociais entre homens e mulheres, que, por sua vez, agravam o estado de saúde das mulheres. Através dos exemplos descritos anteriormente, compreende-se que ser mulher é um determinante de saúde em toda a linha. Desde a forma como os sintomas são autopercecionados até ao tratamento, são múltiplas as barreiras. Assim, a abordagem desta questão não passa apenas por uma mudança do paradigma médico, mas também social. Pouco importa melhorar a investigação médica na saúde da mulher se a mesma não conseguir aceder aos cuidados de saúde devido às disparidades salariais, responsabilidades familiares desequilibradas ou desvalorização dos próprios sintomas. Assim, para além da necessidade do reforço de políticas públicas focadas nas iniquidades de género, de mais financiamento de investigação e formação dos profissionais de saúde em saúde feminina, é imperativa a consciencialização da sociedade para estas disparidades. Manifesta-se como uma necessidade a sociedade tornar-se mais alerta, mais vocal, mais empática em relação àquilo que pode não se aperceber, mas que metade sente.

Referências:

  1. European Institute for Gender Equality. (2025). Gender equality index 2025: Domain health: PT. (https://eige.europa.eu/gender-equality-index/2025/domain/health/PT)
  2. Gender equality in a changing world: Taking stock and moving forward. (s.d.).
  3. Hahn, R. A. (2021). What is a social determinant of health? Back to basics. Journal of Public Health Research, 10(4), Artigo 2324. (https://doi.org/10.4081/jphr.2021.2324)
  4. United Nations. (1996). Report of the Fourth World Conference on Women: Beijing, 4–15 September 1995 (A/CONF.177/20/Rev.1). United Nations.
  5. Meyer, C. L. (1997). The wandering uterus: Politics and the reproductive rights of women. New York University Press.
  6. King, H. (2015). Hysteria. In L. Grig (Ed.), Oxford classical dictionary. Oxford Academic. (https://doi.org/10.1093/acrefore/9780199381135.013.3213).
  7. Tasca, C., Rapetti, M., Carta, M. G., & Fadda, B. (2012). Women and hysteria in the history of mental health. Clinical Practice & Epidemiology in Mental Health, 8, 110 –119. (https://doi.org/10.2174/1745017901208010110).
  8. Mauvais-Jarvis, F., Bairey Merz, N., Barnes, P., et al. (2020). Sex and gender: Modifiers of health, disease, and medicine. The Lancet, 396(10250), 565–582.
  9. Liu, K. A., & Mager, N. A. (2016). Women’s involvement in clinical trials: Historical perspective and future implications. Pharmacy Practice, 14(1), Artigo 708. (https://doi.org/10.18549/PharmPract.2016.01.708).
  10. World Economic Forum. (2026). Women’s health investment outlook: 6% of funding for nearly 50% of the population – Not just a gap, but untapped white space.
  11. Thompson, C. M., Babu, S., & Makos, S. (2023). Women’s experiences of health-related communicative disenfranchisement. Health Communication, 38(14), 3135 –3146. (https://doi.org/10.1080/10410236.2022.213777).
  12. Davenport, S., Smith, D., & Green, D. J. (2023). Barriers to a timely diagnosis of endometriosis: A qualitative systematic review. Obstetrics & Gynecology, 142(3), 571 –583. (https://doi.org/10.1097/AOG.0000000000005255).
  13. Taylor, H. S., Kotlyar, A. M., & Flores, V. A. (2021). Endometriosis is a chronic systemic disease: Clinical challenges and novel innovations. The Lancet, 397(10276), 839–852. (https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)00389-5).
  14. Zondervan, K. T., Becker, C. M., & Missmer, S. A. (2020). Endometriosis. New England Journal of Medicine, 382(13), 1244–1256. https://doi.org/10.1056/NEJMra1810764
  15. Mostafa, N., Sayed, A., Hamed, M., Dervis, M., Almaadawy, O., & Baqal, O. (2025). Gender disparities in delayed angina diagnosis: Insights from 2001–2020 NHANES data. BMC Public Health, 25. (https://doi.org/10.1186/s12889-025-22214-4).
  16. Martin, J. (2024). Why are females less likely to be diagnosed with ADHD in childhood than males?. The Lancet Psychiatry. (https://doi.org/10.1016/s2215-0366(24)00010-5).
  17. Sempere, L., Bernabeu, P., Cameo, J., Gutiérrez, A., García, M., García, M., Aguas, M., Belén, O., Zapater, P., Jover, R., Hofstadt, V., & Ruiz-Cantero, M. (2023). Gender biases and diagnostic delay in inflammatory bowel disease: Multicenter observational study. Inflammatory Bowel Diseases, 29, 1886–1894. (https://doi.org/10.1093/ibd/izad001).
  18. Calle Rubio, M., Esmaili, S., Esmaili, I., Gómez Martín-Caro, L., Ayat Ortiz, S., & Rodríguez Hermosa, J. L. (2025). Sex-based disparities in clinical burden and diagnostic delay in COPD: Insights from primary care. Journal of Clinical Medicine, 14(17), Artigo 6258. (https://doi.org/10.3390/jcm14176258).
  19. OECD. (2025). Does healthcare deliver?: Results from the Patient-Reported Indicator Surveys (PaRIS). OECD Publishing. (https://doi.org/10.1787/c8af05a5-en).
  20. McLeod, K. E., Wong, K. A., Rajaratnam, S., Guyatt, P., Di Pelino, S., Zaki, N., Akbari, H., Kerrigan, C., Jones, R., Norris, E., Liauw, J., Butler, A., Kish, N., Plugge, E., Harriott, P., & Kouyoumdjian, F. G. (2025). Health conditions among women in prisons: A systematic review. The Lancet Public Health, 10, e609–e624.
  21. Favril, L., Rich, J. D., Hard, J., & Fazel, S. (2024). Mental and physical health morbidity among people in prisons: An umbrella review. The Lancet Public Health, 9(4), e250–e260. (https://doi.org/10.1016/S2468-2667(24)00023-9).

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