Será que ainda sabemos descansar?
Não fazer nada tornou-se estranhamente difícil. Não falo de trocar o trabalho por uma aula de desporto, cumprir os oito mil passos do dia ou ler mais umas páginas no Kindle para manter em dia a meta anual de leitura. Falo de parar sem propósito, sem transformar a pausa em mais uma tarefa a cumprir. Parece simples, mas já quase não sabemos fazê-lo. O descanso transformou-se num projecto: dormir oito horas, fazer exercício, experimentar um detox digital, praticar uma caminhada consciente. Há sempre uma forma mais saudável e mais eficiente de parar. Até descansar exige desempenho. Parece que já não descansamos, optimizamos o descanso. E, no meio de tanta preocupação em descansar bem, talvez tenhamos esquecido o que havia de mais essencial no descanso: não ter de servir para nada.
Sentamo-nos para descansar e, pouco depois, surge um pensamento quase automático: devia estar a fazer qualquer coisa. Responder àquela mensagem. Adiantar trabalho. Arrumar a casa. Ler aquele livro. Como se estar parado fosse uma espécie de dívida e cada minuto sem produzir precisasse de uma justificação. De onde vem este “devia” que nos ocupa tanto a cabeça? Koo e outros investigadores estudaram aquilo a que chamam leisure guilt: a culpa que surge quando descansamos, mas sentimos que poderíamos estar a fazer alguma coisa “útil”. Os resultados mostraram que, quanto maior é esta culpa, menos as pessoas parecem beneficiar dos seus momentos de lazer. Podemos ter tempo para descansar sem conseguirmos, realmente, descansar.
Um estudo português de Cátia Sousa e Laura Silva, reforça a importância destes momentos de recuperação: entre as diferentes formas estudadas, o relaxamento foi a que apresentou uma relação mais forte com o bem-estar. Relaxar, neste contexto, significa simplesmente conseguir abrandar física e mentalmente. O descanso não deveria, por isso, ser apenas aquilo que nos permitimos depois de tudo estar feito, mas parte daquilo de que precisamos para continuar. Ainda assim, perante a possibilidade de parar, surge muitas vezes uma negociação interior: já fiz o suficiente para poder descansar? E talvez a pergunta mais interessante seja outra: porque sentimos que precisamos de merecer aquilo de que precisamos?
Esta exigência já nem precisa de vir de fora. Aquilo que reconhecíamos no trabalho, na escola, na família ou nas expectativas dos outros pode, com o tempo, tornar-se nosso. Somos nós que estabelecemos metas, comparamos, avaliamos se fizemos o suficiente e sentimos culpa quando paramos. A exigência exterior transforma-se, assim, numa voz interior — e continua presente mesmo quando já ninguém nos está a pedir mais nada.
É difícil olhar para estes dados e continuar a pensar que se trata apenas de uma dificuldade individual. Se tantos de nós ouvimos a mesma ordem para continuar, vale a pena perguntar se essa voz é inteiramente nossa, ou se fomos aprendendo, colectivamente, a confundir estar ocupados com sermos úteis, e sermos úteis com termos valor. Para algumas pessoas, estar ocupado torna-se mesmo parte da identidade: somos quem trabalha, quem resolve, quem cuida, quem está sempre disponível. Quando paramos, não desaparecem apenas as tarefas; pode surgir também um pequeno vazio. Se aprendemos a reconhecer o nosso valor naquilo que fazemos e produzimos, quem somos quando não estamos a fazer nada? Descansar pode ser difícil também porque nos obriga a separar aquilo que fazemos daquilo que somos.
Parte desta culpa pode estar na forma como aprendemos a olhar para o descanso: não como uma necessidade, mas como uma recompensa. Descansamos depois de terminar o trabalho, arrumar a casa, responder às mensagens, cumprir as obrigações. O problema é que há quase sempre mais alguma coisa por fazer. E assim adiamos a pausa até sentirmos que finalmente a merecemos — como se estar cansado, por si só, não fosse razão suficiente para parar.
Nem sempre é apenas a culpa de não produzir que nos impede de parar. Quando desaparecem as tarefas, as mensagens e os compromissos, sobra espaço para o tédio e para os pensamentos que fomos adiando. Embrey e investigadores mostraram como o próprio tédio pode ser suficientemente desconfortável para nos levar a preferir uma actividade que exige esforço mental a simplesmente não fazer nada. A propósito deste desconforto com o vazio, na crónica que escrevi “IA e a ilusão da intimidade”, reflecti sobre como fomos perdendo a capacidade de tolerar momentos sem estímulos, apesar de poder ser precisamente nesses espaços que surgem a reflexão e a criatividade. Ainda assim, preenchemos rapidamente os pequenos vazios do dia: esperamos pelo autocarro e pegamos no telemóvel, almoçamos enquanto fazemos scroll, caminhamos enquanto ouvimos um podcast. Descansar pode ser também isto: reaprender a estar nos momentos em que, aparentemente, nada acontece.
A dificuldade em parar tem também uma dimensão social. O psicólogo Adam Waytz tem chamado a atenção para uma “cultura da ocupação”, em que facilmente confundimos actividade com realização. A investigadora Silvia Bellezza mostrou também que, em determinados contextos culturais, a falta de tempo livre pode ser interpretada como sinal de estatuto: estar sempre ocupado sugere que somos competentes, procurados e importantes. Talvez por isso dizer “tenho andado cheio de trabalho” nos saia com tanta naturalidade e, por vezes, até com algum orgulho. Se estar ocupado se tornou um sinal de valor, parar dificilmente será com certeza um gesto neutro.
A lógica da produtividade entrou também no nosso tempo livre. Contamos quilómetros quando corremos, passos quando caminhamos e recorremos a aplicações para saber se dormimos bem. Até a leitura pode transformar-se numa meta a cumprir. Ler pode ser profundamente prazeroso e uma verdadeira forma de descanso — tal como caminhar, correr ou tantas outras actividades. A questão não está no que fazemos, mas na exigência que colocamos naquilo que fazemos: quando o prazer dá lugar à meta, até o lazer pode começar a parecer uma tarefa. Medir não é, por si só, um problema. O problema surge quando aquilo que fazemos parece só contar se puder ser registado, melhorado ou comparado. E, quase sem darmos por isso, deixamos que os números nos digam não apenas o que fizemos, mas se o fizemos suficientemente bem.
As redes sociais acrescentaram outra dimensão à nossa relação com o tempo: mesmo quando paramos, continuamos a ver o que os outros estão a fazer. Enquanto descansamos no sofá, alguém parece estar a viajar, a correr, a começar um novo projecto ou simplesmente a ter um domingo mais interessante do que o nosso. Não nos comparamos apenas com os outros, mas também com tudo aquilo que poderíamos estar a fazer. É neste cenário que a expressão “aproveitar o tempo” ganha outro peso: como se uma hora sem planos fosse uma hora perdida e até o lazer precisasse de deixar provas de que foi bem vivido. Talvez a questão seja esta: conseguimos simplesmente viver o tempo, sem sentir que temos de o aproveitar?
A forma como justificamos o descanso revela, por sua vez, uma contradição: sentimos frequentemente a necessidade de provar que ele é útil. Uma meta-análise que reuniu 32 estudos concluiu que as férias têm um efeito significativo no bem-estar e que o desligamento psicológico do trabalho parece ser particularmente importante para essa recuperação. Mas isto nós já sabemos. São benefícios importantes, mas será preciso justificar o descanso através daquilo que ele nos permite fazer depois? Dormir para produzir melhor, parar para regressar com mais energia, tirar férias para voltar mais eficiente. Até quando defendemos o descanso, parece difícil libertá-lo da linguagem da produtividade.
Há, porém, uma questão que não podemos ignorar. Nem todas as pessoas tem a mesma possibilidade de descansar. Um relatório da ONU Women a partir de dados de dez países, mostra como o tempo dedicado ao trabalho, aos cuidados, às tarefas domésticas e ao lazer continua a ser distribuído de forma desigual, falando mesmo em “pobreza de tempo”. Parar é, por isso, muito diferente para quem acumula empregos, enfrenta dificuldades económicas ou tem outras pessoas a seu cargo. E há quem pare fisicamente sem conseguir deixar de estar de serviço: antecipar necessidades, organizar horários, pensar nas refeições, garantir que nada fica esquecido. Esta carga mental, muitas vezes invisível, continua a recair de forma desproporcionada sobre as mulheres. Quando tratamos o cansaço apenas como um problema individual, esquecemos que as condições em que vivemos também determinam quem pode, efectivamente, parar.
Num mundo que nos ensinou tão bem a perguntar “o que fiz hoje?”, talvez esteja na altura de questionarmos a forma como damos valor ao nosso tempo. Nem todas as horas precisam de ser aproveitadas, medidas ou transformadas em alguma coisa. Há valor numa caminhada sem passos contados, num livro lido sem metas, numa tarde da qual não temos nada para mostrar. Há tempo que não precisa de servir para nada — precisa apenas de ser vivido.
Talvez, então, não tenhamos desaprendido a descansar. Talvez tenhamos aprendido a sentir culpa quando paramos. A acreditar que há sempre mais alguma coisa por fazer, que descansar é uma recompensa e que, se deixarmos de produzir, valemos um pouco menos. Mas se conseguirmos separar o nosso valor daquilo que fazemos, talvez consigamos também libertar o descanso dessa culpa. Porque parar não nos torna menos úteis, menos importantes ou menos valiosos. O descanso não deveria começar quando finalmente o merecemos. Deveria começar quando precisamos.
