“Surto”: aprender a crescer com as feridas abertas de Milhanas

por Francisco Silva,    2 Outubro, 2026
“Surto”: aprender a crescer com as feridas abertas de Milhanas
Milhanas / DR
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Ao entrar na sonoridade da Milhanas, depois de Sombra a Sombra (2023), esperávamos canções e, a chegar ao Surto (2026), encontrámos uma experiência totalmente nova, indivisível em toda a sua magnitude: uma lufada de ar fresco onde descobrimos a vontade de criar um projeto que não se reduz a uma sonoridade. Surto caracteriza-se a si próprio. Constrói-se num multipétalo onde se cheiram o rock, o jazz, a música erudita, contemporânea e a urbana. Todas estas pétalas livres e separadas entre si, mas de alguma forma interdependentes, como se vivessem numa simbiose natural.

E não é por acaso. O disco conta com a produção de Rodrigo Correia (guitarra acústica e elétrica, contrabaixo e baixo elétrico), Manuel Oliveira (piano e teclados), Jon e da própria Milhanas. Rodrigo Correia já mostrou o seu trabalho em nome próprio com Promessa (2025) e Cantar as Dores Baixinho (2026), este em colaboração com Carolina Deslandes. Para além da produção, João Lencastre (percussão) e João Paulo Esteves da Silva (arranjo de cordas em Ou então leva-me) deixam uma marca imprescindível de bom gosto nesta equipa de excelência.

Não ouvimos apenas subtileza musical. A poesia que alimenta esta obra recusa-se a ser um mero instrumento de apoio. De Fernando Pessoa a Fausto Bordalo Dias e Godard, Milhanas não deixa de dar as mãos aos poetas que a inspiram. Em Ou então leva-me e O tanto que posso, encontramos um rio calmo que anseia a brisa da manhã que virá; Se eu pudesse chorar traz a aceitação dos ventos adversos da tarde e, finalmente, Passed Away leva-nos a um encontro com a noite, onde a perda é amiga da libertação.

Numa movimentação sonora complexa, Milhanas propõe ao ouvinte um desafio mais profundo e, ainda assim, encontra uma maneira de partilhar o pão português do Norte ao Sul e o vinho de todas as vindimas do mundo, sem nunca perder a sua identidade.

Como a artista referiu em entrevista à Lusa, há uma estética onde Godard, Patti Smith, Bergman e Nick Cave se sentam à mesa, mas nenhum deles ocupa a cabeceira. Esse lugar pertence a Milhanas, e essa é a maior demonstração, a nosso ver, do passo dado rumo à sua própria maturidade musical.

Uma maturidade, no entanto, imperfeita e incontida. A explosão musical que nos arrasta nesta viagem tem como quadrante a introspeção, uma reflexão sobre a catarse em que acabámos de mergulhar. E talvez seja esse o objetivo de Surto: compreender que a urgência de nos conhecermos a nós próprios é o caminho para uma comunhão espiritual onde cabemos todos.

Este disco leva-nos às horas de tensão entre a noite e o dia, numa afronta direta à rotina em que vivemos. É um convite à observação interior. Faz-nos perguntar se as forças que nos ajudam a suportar a fadiga do nada ser e do tudo esperar são suficientemente fortes para sarar as feridas abertas que nos impedem de crescer.

Mas Surto não nos quer confortar: tem crueldade, deslumbro e, essencialmente, descoberta pessoal. Quer antes nadar no sangue vivo de Milhanas, num despertar de consciência em que possamos conviver com a escuridão e a manhã.

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