Tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos

por Hélder Verdade Fontes,    7 Janeiro, 2026
Tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos
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E assim, de repente, ainda nem tínhamos acabado de engolir as passas, tudo mudou. Soubesse eu o que ia acontecer e teria reservado uma para a Venezuela. Existem décadas nas quais nada acontece e semanas nas quais décadas passam. E nós, que ainda nem ao final da primeira semana chegamos, já avançamos na História. Não, ela não acabou, como previu Fukuyama — acabou de recomeçar.  

A confirmação da nova ordem mundial chegou. Engane-se quem pensa o contrário, dos iludidos da democracia americana aos burocratas europeus. E não há epítetos suficientes para mudar a leitura da coisa. Ditador, autocracia, responsável pelo povo na miséria. Tudo absolutamente verdade, mas que não justifica uma invasão ao arrepio do direito internacional, uma ingerência ilegal e sem qualquer respaldo jurídico, ético ou moral. Sobretudo porque o povo, o cidadão, o jovem, que sendo igual a mim, continuará na miséria. Oprimido por uns e agora por outros, mas como estes últimos são ricos, deve ser uma opressão mais simpática.

A Europa ainda não percebeu bem a situação em que está. Nem quer, na realidade. Tal como a avestruz, tem a cabeça enterrada há muito tempo. Há tanto que ganhou medo de a tirar para fora e ver que já não é a Europa pela qual se ousava lutar no passado. Não quer ver como os Estados Unidos voltaram ao imperialismo declarado, como a China domina meio mundo, como a Rússia planeia subjugar ainda mais povos. A Europa está esmagada entre dominadores. E, por isso, prefere continuar com a cabeça enterrada, não vá ter noção que já não determina absolutamente nada.

Mas não tem de ser assim — não tem mesmo. No entanto, é preciso querer mudar e eu, francamente, tenho sérias dúvidas que haja vontade. Há um receio da mudança. Há um receio de mandar uma pedrada no charco. Há um receio da autonomia. Há um receio de enfrentar o perigoso lobby do mercado livre. De receio em receio, jamais dormiremos sossegados. É da maneira que ficamos acordados quando a invasão nos tocar.

Não é possível fazer-se Europa sem Europeus, mas também não é possível fazer-se Europa sem um sonho Europeu, de justiça, de paz, de bonança, de dignidade, de humanismo. É o principal erro de quem critica o aprofundamento dos pilares europeus — na defesa, na coesão ou na ecologia —, e julga agora a inoperância da UE face a uma invasão ilegal. Só a união dos povos europeus, de forma declarada contra todos os tipos de opressão — a dos ditadores e a do mercado —, contra todo o tipo de ingerência, contra qualquer tipo de miséria, pode salvar-nos.

O saudoso Eduardo Galeano, nas Veias Abertas da América Latina, escreveu: “Pobre México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos”. Desta vez foi a Venezuela a estar perto do centro nevrálgico do imperialismo. Da próxima, seremos nós. A Gronelândia está ali já ao virar da curva. E Deus continua muito longe. Honestamente, mais vale continuar com a cabeça enterrada. É da maneira que sentiremos menos quando a cortarem.

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