“The Shrouds”, de David Cronenberg, ou dos feios e obscuros cantos do luto matrimonial

por Afonso Marrocano de Almeida,    1 Maio, 2025
“The Shrouds”, de David Cronenberg, ou dos feios e obscuros cantos do luto matrimonial
“The Shrouds”, de David Cronenberg

Este artigo pode conter spoilers.

Falecida a sua esposa em 2017 e o cinema desde sempre foi o seu diário pessoal, veículo da mais alucinante expressão dos seus desejos e frustrações, David Cronenberg (“A Mosca”, “Crash”, “Uma História de Violência”) manifesta o seu magoado luto neste “The Shrouds” (“As Mortalhas”). Porém, num total mas tipicamente seu choque com a norma temática, ao invés de focar no espírito da pessoa enviuvada, na perdição amorosa, o cineasta canaliza a saudade e frustração para as carnalidades, do corpo que já não consta e do impossível desejo pelo mesmo. Alicerçado em ficção-científica e na comédia mais negra, eis um retrato de mórbida, depravada e, simplesmente, “tesuda” superfície, base que tem garantido críticas ao filme, demarcando uma suposta grotesca e desumana insensibilidade face a tão pessoal tragédia. Apesar das falhas na sua materialização, este trata-se de um ângulo igualmente digno de trato artístico, mais outra fascinante desconstrução de taboo sexual pelo cineasta, com crítica e até da mais honesta autocrítica inseridas.

Naquela que marca a terceira colaboração juntos, é Vincent Cassel (“Promessas Perigosas”; “Um Método Perigoso”) quem assume a azarada sorte de protagonizar tal louvável esforço em humilhada resignação. Um magnata tecnológico que conduz um Tesla e lidera um negócio de campas eletrónicas dotadas de um ecrã que permite a vigilância do corpo por qualquer cliente cujo luto simplesmente não cessa. É Diane Kruger (“Sacanas Sem Lei”) quem trabalha com a vida e a morte, tanto a falecida esposa que inspira tal negócio e a sua ainda viva irmã gémea. A fechar o elenco principal, Guy Pearce (“Memento”; “O Brutalista”) faz de isolado informático e vingativo ex-cunhado, e Sandrine Holt de esposa de um pretendente a patrocinador do negócio, cega da sua visão como de amores.

“The Shrouds”, de David Cronenberg

Comece-se pelas falácias disto, nenhuma mais inflamada que a narrativa. Cronenberg pega neste conceito de cemitérios com ecrã para os cadáveres enterrados e neste mundo que tal negócio permite prosperar e arrasta-os por uma história com tantas curvas e contracurvas que o interesse que inicialmente desperta desvanece, exaustiva inconsequência assume o lugar. Tal texto labiríntico deve-se à tentativa do cineasta canadiano em analisar o crescente clima de paranoia entre elites imorais face a receios de hipervigilância, mas que acaba por sair secundarizada. Cúmulo deste clima de inconsequência, tem-se a cena final, conclusiva em nada. Em Q&A aquando da estreia do filme no festival LEFFEST, Cronenberg afirmara que a película era uma materialização dos dois primeiros episódios de uma cancelada série e tal plano comprova-o. Ainda, quando a plena riqueza em caracterização e tom não preenche suficientemente, caindo no buraco narrativo, algumas cenas e peças de diálogo sofrem dessa exaustão.

Porém, as virtudes mais que mantêm este barco à tona de quaisquer icebergs narrativos. Parta-se pela premissa central disto, o negócio de cemitérios com janelas digitais para os corpos dos falecidos, o que tal temática de imediato diz sobre o mundo recém-futurista em que se insere, materialista e desumano ao ponto de nem os mortos em paz deixar. Reúne uma fascinante podridão humana, potencial em desconstrução imenso. O pico representativo deste trágico futuro, as nossas personagens que olham para tecnologia como substituto do ser humano, pessoas internamente dominadas por uma tempestade em ciúmes, paranoia e carnalidades, culminando no nosso magoado protagonista, alucinante luto sobre a sua esposa, ideia de negócio surgindo do seu corpo a que já não tem acesso. Tal como com o mais nefasto acidente, não há como tirar os olhos de tal elenco que se devora mutuamente por animalesco romance. Por sua vez, talvez o mais importante aspeto, o tom cómico-negro sediado em tragédia-romântica que daqui emana, para além de assentar e tornar lacerante a crítica efetuada, consagra ao filme o seu densamente depravado mas humano espírito, uma mistura em magoado humor que cicatriza o inconsciente.

“The Shrouds”, de David Cronenberg

Evidência máxima do brilharete tonal, as melhores cenas do filme são todas as partilhadas entre Cassel e Kruger, da dualidade das personagens da última e, por conseguinte, da relação de cada com o viúvo. Aqui o dom para cinema de género de Cronenberg totalmente elevado. Do erotismo no adultério tanto cómico como sensual entre o magnata e a cunhada, ao terror-corporal “body horror” dos horripilantes e tristíssimos sonhos com a falecida mulher, corpo a ser progressivamente mutilado e devorado pelo cancro que acabou com a sua vida. Tal como com os melhores dos dramas, este é um filme dotado de um contrastante corpo emocional, da sua superfície resignadamente cómica que esconde um coração dramático profundamente magoado. 

Finalmente, toque-se então na pessoalidade de “As Mortalhas”. Da criatividade e identidade que apresenta, por detrás um cineasta de alma incompleta, sem a sua segunda metade, e a que resta fragilizada por saudade. Da crítica que estabelece para com esta elite tecnológica de hedonistas obsessões, talvez também se critique a si mesmo. Dos momentos íntimos que partilhou com a sua esposa, memórias carnais que putrificam o luto espiritual. Da metade biológica, animalesca do artista cujos estímulos intelecto e alma condenam, ainda mais em tão delicada situação. Cronenberg escolhe gozar com os seus sentimentos, mas sem nunca esconder as feridas amorosas, nomeadamente, a vulnerável vergonha que sente das sexuais.

“The Shrouds”, de David Cronenberg

Em entrevista para o L.A Times, o cineasta aponta para a sua possível reforma: “O mundo não precisa do meu próximo filme”. Caso termine a sua carreira de meio-século aqui, tal película seria do mais representativo do seu legado artístico Mais uma vez, um filme na vanguarda das sensibilidades, apaixonada polarização o resultado inicial que, com o passar do tempo, vai cedendo lugar a universal aclamação. Isto, enquanto continua a quebrar novas barreiras cinematográficas na intimidade que permite entre audiência e a sua pessoa, apesar dos 83 anos de idade.

Eis “As Mortalhas”. Um filme sobre o outro lado do romance, animalesco mas igualmente humano.

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