“The Unexposed” e a busca do Canal 180 por “um tipo de fotografia onde interessa mais a vulnerabilidade do que a ostentação”

por Daniel Dias,    25 Novembro, 2019
“The Unexposed” e a busca do Canal 180 por “um tipo de fotografia onde interessa mais a vulnerabilidade do que a ostentação”
Fotografia: Cian Oba-Smith (“Woolwich”).
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Cian Oba-Smith trabalha em Londres, mas tem ascendência irlandesa e nigeriana. O artista gosta de fotografar “diferentes subculturas” porque interessa-lhe reflectir sobre a “sensação de pertença” que nelas existe. Maria Baoli adora a “falta de informação” numa fotografia. Jetro Emilcar parece concordar, e diz que ela deixa “um espaço em branco que precisa de ser preenchido por quem a vê”. Alec Castillo tenta não ser intrusivo quando tem a câmara nas mãos. Prefere ser uma espécie de “mosca na parede”, que fotografa os amigos mais próximos como se a sua máquina analógica não estivesse fora da mochila.

O que une estes quatro artistas é “um tipo de fotografia onde interessa mais a vulnerabilidade do que a ostentação”, refere Ana Marta Dias, do Canal 180, que arrancou em Outubro com a série The Unexposed. À Comunidade Cultura e Arte, Ana Marta explica que o projecto nasce da necessidade de “pensar no papel da fotografia hoje em dia”: se, por um lado, as redes sociais permitem que “qualquer pessoa possa publicar fotografias e ganhar exposição”, é preciso ter cuidado com “uma determinada banalização”. Há “um certo ar encenado” em plataformas como o Instagram, e para o 180 importa saber se a fotografia “ainda pode ser algo sincero e captar momentos verdadeiros”, se “ainda assume importância na vida dos jovens enquanto algo documental”.

O trabalho de Cian, Maria, Alec e Jetro vai de encontro à sinceridade e ao “olhar cru” que o Canal 180 procura na cultura jovem. Cian, por exemplo, desafia e tenta desconstruir estereótipos em projectos como Andover & Six Acres ou Concrete Horsemen, com uma abordagem que o 180 descreve como “realista mas afectuosa”. Por outro lado, Maria, que começou por encontrar inspiração nos retratos intimistas de Nan Goldin, ou Alec, que volta a sua objectiva para os melhores amigos em Stay a Little Longer, usam a fotografia como um processo imersivo e introspectivo de auto-descoberta. Maria gosta muito de “estar na sala escura” e de olhar para a forma como as suas memórias se “tornam palpáveis e ganham vida”.

The Unexposed, realizado em colaboração com a Negative Feedback, divide-se em quatro episódios com uma duração aproximada de dez minutos, e cada um dos capítulos centra-se nos diferentes fotógrafos. O espectador é convidado a acompanhar um dia normal nas vidas dos artistas, que falam sobre o seu portefólio e as suas motivações. “A ideia da série era eles próprios filmarem, ou serem filmados por amigos”, o que contribui para o cariz pessoal das gravações. “Eles mandavam-nos o que tinham e nós fazíamos a edição”, recorda Ana Marta Dias. Só no primeiro episódio é que isso não verificou: Ana Marta viajou até Londres e conheceu Cian Oba-Smith pessoalmente.

A ideia, assegura Ana Marta, passa por “dar continuidade à série” e à reflexão sobre aquele que poderá ser o papel da fotografia e dos jovens fotógrafos numa era de instantaneidade e clicks. Os episódios de The Unexposed sobre Cian Oba-Smith e Alec Castillo são exibidos na sexta edição do Porto/Post/Doc a 26 de Novembro, no Pequeno Auditório do Teatro Rivoli. Ana Marta Dias, George Muncey, da Negative Feedback, e Cian participarão ainda de uma sessão de perguntas e respostas.

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