The Weeknd: da invisibilidade a estádios lotados

por Linda Formiga,    10 Setembro, 2026
The Weeknd: da invisibilidade a estádios lotados
Fotografia de Sebastien Nagy
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O digressão europeia After Hours Till Dawn de The Weeknd teve início em Lisboa a 6 de junho de 2023 e terminou três anos depois em Lisboa, a 5 e 6 de setembro de 2026. Na noite de abertura, no Passeio Marítimo de Algés, Abel Tesfaye entrou mascarado para dentro de um cenário citadino que parecia sair diretamente de “Blade Runner” cruzado com “Metropolis” — uma lua insuflável gigante, uma estátua rotativa de autómato, colunas de som erguidas como gruas por cima de arranha-céus falsos. A meio do espetáculo, ao morder o lábio sem querer, sangrou um pouco para dentro da luva branca. “Olhem como sangro por vocês, Portugal”, disse ao público, antes de seguir para mais uma dezena de canções. Foi esse gesto involuntário de sangue verdadeiro a escorrer por baixo de tanta cenografia calculada, que ficou a ecoar três anos depois, quando a digressão regressou a Lisboa, já em 2026, com um alinhamento que, inesperada e surpreendentemente, recuperou raridades que ninguém ouvia ao vivo há dez anos.

Nos entretantos, a cenografia evoluiu, mas manteve no centro a estátua dourada de doze metros esculpida pelo artista japonês Hajime Sorayama, encomendada especialmente para esta digressão. Em Algés, a cidade futurista ainda estava de pé, coroada por uma lua insuflável gigante; no Restelo, os mesmos arranha-céus já apareciam destruídos, uma cidade em ruínas iluminada por figuras de vermelho (algo reminiscentes de Handmaid’s Tale) a dançar entre o fumo. Tesfaye entrou outra vez de máscara, agora com os olhos substituídos por dois pequenos pontos de luz de LED, mantendo a distância da personagem durante as primeiras canções, até a retirar e mudar por completo o tom, ficando mais descontraído, menos mecânico e cénico. Por um instante, debaixo de doze metros de estátua dourada e de uma cidade inteira em ruínas, é como se o homem do quarto de hotel de 2020 espreitasse cá para fora — a mesma pessoa, sem o fato vermelho amarrotado nem os adesivos no nariz, mas ainda a precisar, de vez em quando, de sair de personagem para respirar.

Fotografia de Sebastien Nagy

Também a setlist mudou de intenção. Na abertura, em Algés, o gesto era ainda o de um artista a mostrar-se em espetáculo, com nostalgia incluída. The Weeknd recordou ao público os concertos que já tinha dado em Portugal, um deles ainda em 2012, no Primavera Sound, antes de ser a figura que hoje enche estádios. No fecho, no Restelo, não havia grande espaço para conversas, mas as recordações mantiveram-se com vários temas do álbum Kiss Land (2013) numa só noite — a faixa-título, “Belong to the World”, “Professional” depois de dez anos de silêncio, “Adaptation” ao vivo pela primeira vez desde 2014, e ainda ecos de “Wanderlust” e de “Pretty” enfiados dentro de outras canções. Playboi Carti, que tinha assegurado a abertura da noite sem falhas, voltou ainda ao palco a meio do concerto para “Timeless” e para um dueto de “Rather Lie”.

Kiss Land não é um álbum qualquer para se trazer de volta. Escrito logo a seguir às primeiras digressões de arena de Abel Tesfaye é, mais do que qualquer outro disco seu, um álbum sobre o desgaste e a paranoia de andar constantemente na estrada, sobre acordar em cidades que não se reconhecem, sobre a distância que a fama abre entre quem sobe ao palco e tudo o resto. Algures em “Professional” (ouvida no concerto em gravação), ouve-se uma frase que parece ter envelhecido juntamente com o próprio artista: “You made enough to quit a couple years ago / But it consumes you”. Em 2026, depois de uma década de estádios, prémios, discos e digressões, é quase impossível não a ouvir também como uma pergunta dirigida ao próprio Tesfaye, principalmente na digressão onde promete reformar, por tempo indeterminado, The Weeknd, para dar lugar ao seu ego Abel Tesfaye.

Fotografia de Sebastien Nagy

Ao longo de 2 horas (ou mais) de concerto, Abel Tesfaye foi-se despedindo de Lisboa e da Europa ao seu jeito pinga-amor, com muitos beijos pelo ar, um sorriso impagável e, talvez, com um sentido de missão cumprida. O público respondeu-lhe com euforia, com o encanto de uma produção absolutamente incrível e com um adeus sentido.

Esta despedida de The Weeknd chama-se, oficialmente, trilogia — After Hours (2020), Dawn FM (2022) e Hurry Up Tomorrow (2025) — e tem uma arquitetura que só se percebe bem quando os três álbuns são ouvidos como um só objeto. After Hours é a noite, a negação, o excesso, um homem sozinho num quarto de hotel em Las Vegas, o nariz coberto de adesivos, o fato vermelho cada vez mais amarrotado, a fingir que ainda está tudo controlado. É essa imagem pequena, quase caseira, sem estádio nenhum à volta, que a trilogia inteira passa a tentar justificar em maior escala. Dawn FM é o limbo que se segue a essa noite, o álbum imagina literalmente uma estação de rádio de purgatório, guiada por uma voz que conduz o ouvinte como quem faz um trajeto matinal qualquer, sem pressa e sem grande alarido. Hurry Up Tomorrow é o que resta depois do limbo, já não negação nem trânsito, mas confronto direto, e o título — pedir ao amanhã que se despache — lê-se facilmente como o desejo de sair de uma vez por todas de dentro da própria história.

Fotografia de Sebastien Nagy

Menos glorioso do que a mitologia da trilogia sugere foi o facto de, em 2022, Abel Tesfaye ter tido uma falha de voz a meio de um concerto em Los Angeles. Sem saber ao certo se tinha sido a voz a falhar-lhe ou ele a falhar à voz, este episódio que o corpo pareceu impor-lhe como um limite foi transformado depois em ficção, tendo dado origem ao filme Hurry Up Tomorrow, realizado por Trey Edward Shults e com Jenna Ortega, que estreou meses depois do álbum homónimo. O filme começa como thriller psicológico que se torna progressivamente mais agressivo. Essa mudança de tom repete, ponto por ponto, a mesma curva da trilogia – a negação controlada de After Hours ao confronto sem rede de Hurry Up Tomorrow.

A revista The New Yorker notou, num perfil publicado pouco antes da estreia do álbum, um pormenor que ajuda a perceber por que razão esta despedida nunca parece completa. Depois de Blinding Lights não ter recebido qualquer nomeação para os Grammys de 2021, The Weeknd anunciou que deixaria de submeter a sua música à consideração da Recording Academy, criticando o processo de nomeação e, em particular, os seus comités secretos. Quando voltou a actuar na cerimónia, em 2025, foi apresentado pelo CEO da Recording Academy, Harvey Mason Jr., que reconheceu as críticas feitas à instituição. Tesfaye surgiu de capuz e óculos escuros.

Fotografia de Sebastien Nagy

É por isso que aquele lábio a sangrar em Algés continua a ser, três anos depois, a imagem mais honesta desta digressão inteira. Não foi ensaiado, não fazia parte da cenografia de néon e distopia, foi só um corpo a reagir, por um segundo, sem gerir a imagem que estava a dar. Tudo o resto, como a estátua dourada a vigiar agora uma cidade em ruínas em vez de uma cidade intacta, os dois pontos de luz onde deviam estar os olhos, um álbum de paranoia de estrada recuperado depois de anos, é o que The Weeknd sabe fazer bem. Encher um estádio inteiro sem nunca deixar de se esconder dentro dele.

Estes dois concertos de The Weeknd integraram também o Super Bock Super Rock, que assume agora uma nova “roupagem”. À semelhança do que acontecia entre 1999 e 2001, em que a chancela promovia concertos em várias cidades durante 10 dias, o Super Bock Super Rock, em conjunto com a Live Nation, pretende criar experiências de concertos ao longo do ano, protagonizados por verdadeiros fenómenos globais da música. The Weeknd foi um excelente ponto de partida nesta nova fase do SBSR. Que venham mais!

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