Tinta-da-China edita dois novos livros de teatro de resistência da coleção “Liberdade! Liberdade!”
A editora Tinta-da-China vai publicar este mês os livros “Fábulas Teatrais Sobre a Revolução Portuguesa” e “Em Bizango de Bizangongo / A Como Estão Os Cravos Hoje?” como novos volumes na coleção “Liberdade! Liberdade!”.
“Fábulas Teatrais Sobre a Revolução portuguesa”, de Richard Demarcy e Teresa Mota, reúne quatro textos: “A noite do 28 de Setembro”, “A História do Quatro Soldados”, “As Vacas de Cujancas” e “Barracas, Ocupação”, que “usam a história de Portugal como teatro-documento e são exemplo de um teatro de intervenção e social, propondo uma motivação nas classes populares através da consciência política e artística”, refere uma nota da editora.

“A Noite do 28 de Setembro” foi a peça fundadora do Centro Dramático de Évora, estreando-se, em 1975, no Teatro Garcia de Resende, frisa ainda a Tinta-da-China.
Já “Em Bizango de Bizagongo / A Como Estão Os Cravos Hoje?” trata-se de textos de Manuel Geraldo e Orlando da Costa.
No primeiro, Manuel Geraldo “reflete sobre o manifesto descontentamento das tropas deslocadas nos conflitos do Ultramar, revelando o cansaço da guerra e o desejo de regressar a casa”, acrescenta a editora.
“Através dos diálogos, construídos como um grande coro, questionam se as mudanças promovidas pela revolução”, sobretudo “no modo como demoraram a chegar ao povo ou a produzir os efeitos desejados”, observa a editora, notando que “a par da violência no cenário de guerra, referem se as condições da partida de muitos dos soldados, estabelecendo se, desse modo, as bases para o aproveitamento político durante o regime do Estado Novo, e a ausência de alternativas para os jovens”.
Em “A Como Estão Os Cravos Hoje?”, Orlando da Costa escreve uma peça que é “um manifesto antibelicista”, elaborado a partir da sua própria experiência e de relatos de soldados, observando também as “condições de trabalho e de segurança dos operacionais no campo de combate, promovendo o fim da guerra no Ultramar”.
As duas obras integram uma coleção a editar ao longo deste ano, num total de 10 volumes, numa edição conjunta da Tinta-da-China e do Museu Nacional do Teatro e da Dança. A coleção é coordenada por Tiago Bartolomeu Costa e conta com o apoio da Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril.
Os textos que integram a coleção foram escritos, encenados ou publicados entre o final de 1960 e os anos pós-revolução, “são atos de resistência e foram quase todos censurados”, sublinha a editora, acrescentando que “do teatro de revista a novas experiências teatrais, dos sindicatos às companhias, não são o teatro todo feito em Portugal neste período — mas são parte da história dos vencidos”.
“Lê-los hoje é reconhecer lhes a marca do tempo e, com ela, contrariar a efemeridade da própria disciplina. É abrir o pano e deixar que nos seja contada uma história que se tentou conter ou controlar. ‘Liberdade! Liberdade!’ transforma o teatro em documento histórico”, enfatiza a editora.
Já editadas na coleção “Liberdade!Liberdade!” estão “Pides Na Grelha / A Ceia dos PIDES”. O primeiro texto, da autoria de Francisco Nicholson, Edgar Gonçalves Preto e Mário Alberto, usa uma estrutura de quadros de revista, numa peça que “observa, analisa e propõe, a partir de acontecimentos sociais e políticos, uma revisão do género teatral, já sem os agrilhoamentos da censura”, lê-se no ‘site’ da editora.
“Ao longo dos vários quadros, acompanham se as lutas no interior do Conselho da Revolução, o julgamento das Três Marias, a alteração da correlação de forças entre a autoridade e os cidadãos e o lugar do teatro na denúncia de costumes e retrocessos”, acrescenta.
Já “A Ceia dos PIDES”, de Eduardo Fernandes, faz uma “paródia cínica” à peça “Ceia dos Cardeais”, de Júlio Dantas, e foi publicada depois da revolução .
No lugar dos cardeais, Eduardo Fernandes coloca três inspetores da PIDE/DGS: Silva Pais (diretor), José Sacchetti e Henrique Sá e Seixas.
Embora breve, ao longo da peça “as três personagens discutem, com escárnio, métodos de tortura usados pela polícia política, e desenham estratégias de sobrevivência e acusação, com vista a uma viragem, à direita, do regime democrático”.
