Tolentino de Mendonça e a arte de ouvir em “Para os Caminhantes Tudo É Caminho”

por Mário Rufino,    12 Janeiro, 2026
Tolentino de Mendonça e a arte de ouvir em “Para os Caminhantes Tudo É Caminho”
José Tolentino Mendonça / Fotografia de ANTÓNIO0196 – Wikimedia Commons

Tolentino de Mendonça (n.Machico, 1965) propõe um caminho. Nos seus livros há uma hipótese de conduta, obviamente de índole cristã, para escolha dos leitores. Não necessariamente católicos ou mesmo religiosos, mas para quem tem na sua existência algo de divino. Para Tolentino, somos todos parte de algo celeste. “Chegará o momento em que compreenderemos que sabedoria é amar tudo”, diz-nos logo na frase de abertura. 
 
“Para os Caminhantes Tudo É Caminho” (Quetzal) é uma extensão desse trilho. São 152 textos, mais de uma centena de passos, que nos abrem perspetivas de vida e traçam um código de conduta. Nestas propostas há ideias transversais. Uma delas é a ideia de parto contínuo. Toda a vida é um processo de nascimento. 

“Era Erich Fromm quem dizia que as pessoas felizes são aquelas que encaram todo o curso da sua história como um processo de nascimento, distanciando-se da explicação mais comum que considera que cada um de nós nasce só uma vez (…) vivemos no decurso dos dias o processo lentíssimo do nosso próprio parto (um processo cheio de avanços, espaços e retrocessos)” 

“Para os Caminhantes Tudo É Caminho”

As palavras do cardeal incentivam cada indivíduo, cada leitor, a encontrar respostas longe do rebuliço e superficialidade dos dias. O passo do viajante faz parte da viagem ao encontro de si mesmo e da derrota da lógica de isolamento do outro. A defesa da comunidade, baseada na empatia, é pedra angular do pensamento do autor. 

O caminho ensina a enfrentar e aceitar as dúvidas e os erros, parte indissociável da condição humana. Todas as experiências são fundamentais na edificação do indivíduo, desde a sede à saciedade.  
É necessário não abdicar do espanto, da capacidade de nos espantarmos com o que nos rodeia. “Espanta-te ainda», sugere o Evangelho de São João. 

Capa do livro / DR

São Paulo explica que Jesus não se valeu da sua condição divina, mas antes se fez servo da humanidade. E foi nessa condição que se dirigiu a uma mulher samaritana para lhe dizer três palavras: “ Dá-me de beber”. 

Jesus, junto ao poço, aparece fatigado; o seu corpo não foi poupado, é um corpo que apresenta o cansaço do caminho.  

O cardeal Tolentino Mendonça defende que a vida é um processo e não somente um percurso produtivo e de conquistas materiais. A vida é um constante recomeço, como no poema de Cesariny: “Ama como a estrada começa.” 

A sua filosofia contraria o imediatismo e as certezas, isentas de pedras na estrada e erros no passo. Em contraponto, defende a escuta, o amor ao próximo, a paciência e uma abertura a tudo, seja amargo ou doce, que a vida oferece. Estas narrativas breves falam de encontros e são habitados por pessoas (e não avatares).

É um livro belíssimo, cheio de humanidade e de histórias. É um caminho para a luz. 

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