Tortoise ao vivo: a música como um sistema vivo

por Bernardo Crastes,    22 Abril, 2026
Tortoise ao vivo: a música como um sistema vivo
Fotografia de Vera Marmelo

Não se fala o suficiente nos Tortoise. Eternamente associados ao género abrangente conhecido como post-rock, são um dos conjuntos mais interessantes a brotar dessa etiqueta. A sua variedade rítmica incorpora elementos do krautrock e dub, e ainda toques jazzísticos e eletrónicos que apimentam as suas canções dinâmicas e surpreendentemente orelhudas. Depois de uma série de álbuns icónicos lançados nos anos 90 e início dos anos 2000, a banda desacelerou o ritmo de produção, tendo lançado apenas 3 discos desde 2009. O último deles — Touch, lançado no ano passado — serviu de mote para o regresso da banda a Portugal, onde já não se apresentavam desde o concerto de 2016 no Primavera Sound do Porto. Depois de uma passagem pelo Theatro Circo, em Braga, foi a vez da Culturgest receber o quinteto em Lisboa — tendo Jeff Parker sido substituído por Jim Elkington, músico de digressão da banda, por motivos familiares e profissionais.

Mais do que nunca, após este concerto, entendemos que o cerne da música dos Tortoise é o ritmo. No centro do palco, duas baterias opostas eram revezadas por Dan Bitney, John Herndon e John McEntire, com uma fluidez e demonstrações de virtuosismo absolutamente inacreditáveis, notando-se a bagagem e experiência destes músicos que já tocam juntos há mais de 30 anos. “Ten-Day Interval” foi um dos ápices da sincronia dos três percussionistas, que se atiraram aos seus vibrafones (um instrumento subaproveitado na música em geral) com uma cadência impressionante.

Canções como as dos Tortoise poderiam tornar-se monótonas ou inertes, principalmente ao vivo. Mas a intuição necessária para imprimir emotividade e dinamismo está claramente presente nestes artistas. Inteiramente focados nos seus papéis em cada música, todos eles construíam e sustentavam os grooves muitas vezes hipnóticos que guiavam as músicas, dando-lhes vida e um pulso para depois as deixar evoluir de forma quase natural, como se se tratassem efetivamente de um ser vivo. Não é qualquer música instrumental que soa tão vital como esta. Por exemplo, “In Sarah, Mencken, Christ and Beethoven There Were Women and Men” culminou numa troca rítmica alucinante entre Herndon e McEntire completamente merecida, sem qualquer tipo de exibicionismo. “Pensei que estava no espaço!”, gracejou McEntire após essa canção, para gáudio do público.

Fotografia de Vera Marmelo

Aliás, John McEntire esteve sempre muito bem disposto. A certa altura, começou a rodar sobre si mesmo enquanto caminhava entre instrumentos, depois atirou as baquetas do seu vibrafone ao ar para as deixar cair nas teclas metálicas. Essa leveza passou para as músicas. “Quem pôs ácido no nosso vinho?”, brincou mais uma vez antes de a banda se atirar ao psicadelismo de “Gesceap”, do penúltimo The Catastrophist. Ao vivo, a canção potencialmente opressiva evocou a imagem de uma espiral ascendente, com a repetição da melodia de forma cada vez mais expansiva. Foi interessante perceber novos detalhes que por vezes nos escapam nas versões de estúdio, como a batida motorik que reinicia a canção para os últimos minutos.

Mesmo quando as músicas são mais calmas, enganosamente simples ou aparentemente repetitivas, a banda encontra sempre uma forma de complicar os arranjos ou de conjurar emoção nas suas melodias, redobrando o interesse nas canções, como aconteceu no final comovente de “Works and Days”. Por já não ouvirmos Tortoise há algum tempo, tendíamos a imaginar as suas músicas como mais angulosas do que realmente são. É fácil esquecer que conseguem até ser dançáveis, como no caso de “Vexations” ou “Axial Seamount”. Esta última parecia um esqueleto de uma música dos LCD Soundsystem, com um groove absolutamente inegável. “Night Gang”, que fecha Touch, é uma proto-canção de arena já com ar de clássico, com as suas guitarras cintilantes com um toque de western.

Fotografia de Vera Marmelo

O noise que eventualmente consome esta última canção até não se distinguirem as suas guitarras soa acolhedor. Esta é uma estratégia usada em algumas canções da banda, quando já levaram as suas melodias a todos os lugares onde poderiam ter ido. “Crest”, por exemplo, foi o ápice ruidoso e catártico do concerto. A melodia — à falta de uma palavra melhor — cinemática fechou com chave de ouro o alinhamento, antes de um pequeno encore em que a banda se mostrou verdadeiramente grata pela receção calorosa.

Foi só depois do final do concerto, enquanto discutíamos as valências da banda, que nos apercebemos do som irrepreensível da Culturgest. Este contribuiu largamente para a experiência auditiva de excelência do público, perfeitamente adequada a uma banda que valoriza tanto o som como os Tortoise. Os instrumentos distinguiam-se de forma tão natural que foi fácil esquecer que não estávamos a ouvir uma gravação de estúdio. Mesmo numa sala praticamente cheia, o ambiente foi íntimo e cercão.

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