Trump é o novo presidente da Venezuela
A captura de um líder de um Estado soberano e o anúncio da intervenção americana na gestão de um país da sua vizinhança, sem acordo do Congresso, dos aliados tradicionais, da ONU, da NATO ou da União Europeia, representam uma alteração substancial da ordem internacional, assumida de forma unilateral por Donald Trump, acompanhado de um pequeno e assustador grupo de acólitos.
Ao fazê-lo, os Estados Unidos abandonam a visão de um mundo multilateral, onde a sua liderança se exercia pela força da democracia e das regras comuns, para adotarem uma lógica de poder regional e imperial que, no método e na visão do mundo, se aproxima perigosamente de qualquer ditadura.
A escolha da Venezuela não é dirigida pelo tráfico de droga, nem pela ameaça aos Estados Unidos. É um sinal de poder de Trump. Não se trata de uma ditadura alinhada com Washington nem de um aliado estratégico cuja repressão seja convenientemente ignorada. Trata-se de um regime simbolicamente relevante na América Latina. A mensagem não é apenas dirigida a Caracas. É dirigida a todos os estados, na vizinhança dos Estados Unidos, que se recusem a capitular a esta estranha visão do mundo de Trump.
Mais grave ainda é a rutura total com as normas que estruturaram o mundo no pós-Segunda Guerra Mundial. Não houve sequer um telefonema prévio aos líderes do Congresso americano, coordenação com os aliados históricos, enquadramento nas Nações Unidas ou cobertura da NATO. Não houve, sequer, a tentativa de construir uma narrativa de exceção legítima. Nem mesmo os mecanismos controversos do pós 11 de Setembro — que já representaram uma erosão profunda do direito internacional — servem aqui de enquadramento.
A isso soma-se um elemento particularmente perturbador. A monetização explícita da liderança americana. A gestão de recursos estratégicos, em particular do petróleo, é assumida como parte da solução política. A liderança deixa de ser normativa e passa a ser transacional. A defesa de valores é substituída pela exploração assumida de ativos.
O efeito desta operação não se esgota na Venezuela. Cria uma perturbação profunda em toda a América Latina. Que segurança sentem hoje os cidadãos de países que não capitulam politicamente a Trump? Dormirão os latino-americanos, os brasileiros, mexicanos, colombianos, como dormem hoje os países do Báltico, sob a sombra das pretensões regionais russas? Ou como dormem os taiwaneses, conscientes da ameaça permanente da China? É por isso que este momento exige uma resposta europeia.
A nossa união, a União Europeia, não é uma potência militar clássica. A sua força reside na defesa das regras básicas que, com todas as imperfeições, garantiram décadas de paz e prosperidade no espaço europeu. Num mundo cada vez mais caótico, onde grandes potências abandonam as normas que elas próprias ajudaram a construir, a União Europeia tem a obrigação histórica de ser o último bloco político a aderir, sem ambiguidades, às regras fundamentais do direito internacional.
Defender a democracia não é capturar ditadores e governar países a gosto. É defender as regras que impedem que a força governe tudo.
Um mundo onde agentes políticos como Stephen Miller, Hegseth, JD Vance e Trump se servem do poder americano para por e depor de países, é um mundo tão perigoso quanto as mais perigosas distopias.

