Tu sabes lá se Deus existe
Há um conjunto de rodas inventadas que não por acaso dizem muito a muitos seres humanos há muitos anos. São linguagens universais, formas consagradas de amor, símbolos milenares aos quais vamos buscar fôlego para aguentar a vida porque há mil anos os nossos avós já lá iam buscar fôlego para aguentar as suas vidas.
É de ignorância feito o Homem que julga ter tamanho para defender a inexistência de Deus: quem és tu, pequeno-Humano, entupido até ao nariz dos vazios mundanos que te enchem as medidas, para nos garantires que Deus não existe? Não é pô-lo em causa: é essa frase cheia de soberba que adoras dizer: «Deus não existe».
Um autor francês notava que o grande mistério da vida não era «porque estamos aqui entregues a este nada», mas «como é que estamos aqui e conseguimos extrair de nós imagens que neguem o nosso nada». A frase é boa porque assume-nos «nada», mas ao mesmo tempo eleva-nos por sermos os únicos capazes de o conseguir negar.
Parece-me que o francês tem razão: somos nada. Mas conseguimos negar essa condição. Negámo-la quando nos emocionamos a ouvir a Luz Terna e Suave; socámo-la quando apontamos ao céu a monumentalidade dos andores em Sevilla; vencemo-la quando estamos perante tudo e isto, e num plano abaixo, reparamos que o polegar de uma mãe acaricia a mão de um filho. As imagens – que nos salvam.
É cool rejeitar a Igreja: sítio de idosos bafientos e jovens beatos mais aborrecidos do que estátuas (concordo, também prefiro o Lux). Só que não é suposto a Igreja entreter: é apenas suposto que nos vire para dentro: nos enfie a cabeça no coração e unte os pensamentos-carrascos com a farta banha do amor de Deus. Depois levantamo-la e não há luzes – iluminam-te os santos.
Uma família perfilada num banco de Igreja – pai, mãe, avós, adolescentes aborrecidos e crianças irrequietas – é das imagens mais bonitas que conheço. Vê-los saudarem-se, com ternura, em paz, tem mais verdade do que toda a ciência já testada. E quando, baixinho, cantam “Ó Senhora minha”, não estão a cantar: estão na cama a ver as mães puxar-lhes o cobertor para cima com um beijo de boa noite. Eis um dos mais antigos tratados do Homem.
A Igreja e a fé são quentes: um lugar cheio de almofadas para o coração e andaimes para o espírito. Se hoje andamos tão vazios e desligados; se hoje somos mais tristes do que os nossos pais, é porque também nos falta Deus. A versão melhorada da espiritualidade-chinelo que dita tendências no Instagram encontramo-la – antiga, estruturada, musculada – numa missa bem celebrada; na boca de um Padre inteligente; nos textos de quem lhe dedicou a sua vida.
Talvez seja por precisar tanto desta monumentalidade, viver este mistério com tanta certeza, que me espanta quem tão levemente nega Deus e equivale o Homem a um pão com queijo. Enquanto houver Homem, enquanto ele criar imagens – Cristo levado em ombros por padeiros e carteiros que o amam, minaretes erguidos no céu, velhas a chorar em procissões –, haverá Deus. E como o Homem é incapaz de abandonar a fé, da mesma forma que não abandona um nariz ou um braço, Deus existirá sempre. E nós por cá continuaremos, cantando e rindo, negando o nosso nada até que nos doa a voz – ou seque o coração.
Sugestões do cronista:
Mergulhos no Atlântico seguidos de uma salada de ovas no restaurante Onda Azul, na Praia do Meco, com amigos que sejam mesmo amigos e tanto nos acompanhem na salada de ovas como em questões menores. Uns dias com a Mãe quando já não se a vê há meses. Em entrevista à TSF, a escritora palestina Shahd Widi sonha que na sua terra chova jasmim em vez de bombas — recomenda-se o jasmim. Ouvir de olhos fechados a missa em Si Menor, de Bach, interpretada pelo Collegium Vocale Gent, foi a melhor decisão de um sábado de julho.
