Tu sabes lá se Deus existe

por Henrique Pinto de Mesquita,    22 Julho, 2025
Tu sabes lá se Deus existe

Há um conjunto de rodas inventadas que não por acaso dizem muito a muitos seres humanos há muitos anos. São linguagens universais, formas consagradas de amor, símbolos milenares aos quais vamos buscar fôlego para aguentar a vida porque há mil anos os nossos avós já lá iam buscar fôlego para aguentar as suas vidas.

É de ignorância feito o Homem que julga ter tamanho para defender a inexistência de Deus: quem és tu, pequeno-Humano, entupido até ao nariz dos vazios mundanos que te enchem as medidas, para nos garantires que Deus não existe? Não é pô-lo em causa: é essa frase cheia de soberba que adoras dizer: «Deus não existe».

Um autor francês notava que o grande mistério da vida não era «porque estamos aqui entregues a este nada», mas «como é que estamos aqui e conseguimos extrair de nós imagens que neguem o nosso nada». A frase é boa porque assume-nos «nada», mas ao mesmo tempo eleva-nos por sermos os únicos capazes de o conseguir negar.

Parece-me que o francês tem razão: somos nada. Mas conseguimos negar essa condição. Negámo-la quando nos emocionamos a ouvir a Luz Terna e Suave; socámo-la quando apontamos ao céu a monumentalidade dos andores em Sevilla; vencemo-la quando estamos perante tudo e isto, e num plano abaixo, reparamos que o polegar de uma mãe acaricia a mão de um filho. As imagens – que nos salvam.

É cool rejeitar a Igreja: sítio de idosos bafientos e jovens beatos mais aborrecidos do que estátuas (concordo, também prefiro o Lux). Só que não é suposto a Igreja entreter: é apenas suposto que nos vire para dentro: nos enfie a cabeça no coração e unte os pensamentos-carrascos com a farta banha do amor de Deus. Depois levantamo-la e não há luzes – iluminam-te os santos.

Uma família perfilada num banco de Igreja – pai, mãe, avós, adolescentes aborrecidos e crianças irrequietas – é das imagens mais bonitas que conheço. Vê-los saudarem-se, com ternura, em paz, tem mais verdade do que toda a ciência já testada. E quando, baixinho, cantam “Ó Senhora minha”, não estão a cantar: estão na cama a ver as mães puxar-lhes o cobertor para cima com um beijo de boa noite. Eis um dos mais antigos tratados do Homem.

A Igreja e a fé são quentes: um lugar cheio de almofadas para o coração e andaimes para o espírito. Se hoje andamos tão vazios e desligados; se hoje somos mais tristes do que os nossos pais, é porque também nos falta Deus. A versão melhorada da espiritualidade-chinelo que dita tendências no Instagram encontramo-la – antiga, estruturada, musculada – numa missa bem celebrada; na boca de um Padre inteligente; nos textos de quem lhe dedicou a sua vida.

Talvez seja por precisar tanto desta monumentalidade, viver este mistério com tanta certeza, que me espanta quem tão levemente nega Deus e equivale o Homem a um pão com queijo. Enquanto houver Homem, enquanto ele criar imagens – Cristo levado em ombros por padeiros e carteiros que o amam, minaretes erguidos no céu, velhas a chorar em procissões –, haverá Deus. E como o Homem é incapaz de abandonar a fé, da mesma forma que não abandona um nariz ou um braço, Deus existirá sempre. E nós por cá continuaremos, cantando e rindo, negando o nosso nada até que nos doa a voz – ou seque o coração.

Sugestões do cronista:

Mergulhos no Atlântico seguidos de uma salada de ovas no restaurante Onda Azul, na Praia do Meco, com amigos que sejam mesmo amigos e tanto nos acompanhem na salada de ovas como em questões menores. Uns dias com a Mãe quando já não se a vê há meses. Em entrevista à TSF, a escritora palestina Shahd Widi sonha que na sua terra chova jasmim em vez de bombas — recomenda-se o jasmim. Ouvir de olhos fechados a missa em Si Menor, de Bach, interpretada pelo Collegium Vocale Gent, foi a melhor decisão de um sábado de julho.

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