Um teatro fechado em cada bairro
A Câmara Municipal de Lisboa decidiu interromper o trabalho da direção do Teatro do Bairro Alto (TBA). O argumento jurídico é o fim do mandato, que havia sido prolongado por mais uns meses, esperando a tomada de posse do executivo, a aprovação do orçamento municipal, e a nomeação do Conselho de Administração da Lisboa Cultura, o nome que agora se dá à EGEAC.
A Câmara Municipal de Lisboa não decidiu abrir um concurso público, mantendo em funções o diretor, Francisco Frazão, até nova decisão, ou reconfirmando a sua escolha, caso vencesse esse concurso, como venceu o anterior que lhe atribuiu o lugar.
A Câmara Municipal de Lisboa não optou por fazer seguir o anúncio de cessação de funções informando sobre o que acontecerá, não só ao modelo de funcionamento, mas a todos os compromissos assumidos em quadros que vão muito para lá da gestão quotidiana do TBA, e que envolvem coproduções e trabalho em rede em escalas nacionais e internacionais.
A Câmara Municipal de Lisboa decidiu, no que estará no seu direito, interromper um projeto de programação que sublinhava a importância de Lisboa enquanto uma cidade plural, atenta às boas práticas, aberta e à escuta. Fê-lo de forma consciente – e nisso o contexto é de relevo – depois de críticas públicas de uma deputada municipal eleita pelo partido Chega sobre uma programação à esquerda, ideológica e contrária à vontade da maioria que reforçou a votação, à direita, no mesmo executivo que, antes, aprovara essa mesma programação, e no qual se integra o atual vice-presidente que, enquanto vogal do Conselho de Administração da Lisboa Cultura, nunca se fez ouvir sobre o rumo do TBA.
Se insisto em indicar a Câmara Municipal porque na reorganização de pelouros resultante das eleições de 2025, o presidente Carlos Moedas partiu a vereação da cultura em dois, ficando com a estratégia e deixando uns trocos a Diogo Moura.
O que agora sucede é, por isso e porque não há explicações nem apresentação de estratégia, uma cedência ao discurso populista que é sempre a armadilha na qual a direita cai, esquecendo-se que a defesa da pluralidade é feita na demonstração prática das programações. Se a ideia for a de prevenir para evitar a crítica, sabemos os resultados. É ler os clássicos, do “Ricardo III” ao “Triunfo dos Porcos”.
E se a guerra dos números for o melhor que se consegue para desviar a conversa da ideologia, já aqui estivemos. No Porto, em 2009, o então presidente da câmara, Rui Rio, mandava fechar o Rivoli porque tinha 30 espetadores por noite. Sabemos o que se seguiu, e o tempo que demorou a reconstruir uma relação de confiança entre o Estado com pessoa de bem e as comunidades a que deve saber servir. E o que se perdeu, bem como o precedente que se estabeleceu.
Em Lisboa não é diferente. Interessam os números, e há uns melhores do que outros, sobretudo se os números servirem a cartilha ideológica, que só é perigosa se pender, como dizem que pende sempre, para a esquerda. Mas que números são os mais adequados para um equipamento municipal que deve responder ao que o mercado não oferece? Os do TBA são bastante claros quanto ao seu propósito: uma bancada, que por razões de segurança, tem que ser forçosamente reduzida (146 lugares); uma estratégia pensada para acolher projetos de pequena e média escala de artistas em fase de afirmação ou com percursos em construção, o que leva, forçosamente, a uma maior rotatividade – também porque não há alternativas na cidade –, e a carreiras mais curtas, às quais acrescem os dias de montagem e desmontagem (porque um teatro fechado pelas melhores razões é um teatro onde se trabalha diariamente para se poder abrir ao mais alto nível); um número de projetos (e encontros, leituras, lançamentos, concertos, clubes para espetadores) apresentados que, no seu conjunto revelam uma diversidade que não encontra par em equipamentos congéneres. Corre sempre tudo bem, e são sempre consensuais? Não, mas o pensamento único só existe nas máquinas políticas opressoras. Se os equipamentos culturais forem todos iguais, o que sobra da missão cultural de um executivo?
O TBA é um exemplo de compromisso municipal. E, desde 2018, um exemplo de inclusão, na programação e no edifício, prolongando uma história longa de experimentação, primeiro, em 1967, como Centro de Amadores de Ballet, de Maria Magdalena de Mello, depois a partir de 1975 como sede do Teatro da Cornucópia. Surgiu com o fim da exploração do Maria Matos, após a saída de Mark Deputter para a Culturgest, e a separação em dois das linhas programáticas que ali se desenvolviam: a experimentação performativa, que foi para o TBA; a programa para a infância e juventude, que foi para o Lu.Ca, dirigido por Susana Meneses, sobre cuja renovação de mandato se aguardam resultados.
O que o TBA fez nos últimos anos, depois de um concurso público que Francisco Frazão ganhou, foi atribuir-lhe uma identidade: contrastante, desafiadora, afirmativa, apostada no risco, no desconhecido e na expetativa. Fê-lo antes da abertura, durante a pandemia, com artistas que, em muitos casos, ainda nem nome tinham, e que o teatro ajudou a validar. Para isso, precisou de tempo. Porque só com tempo, que é coisa que corre ao arrepio das pressões políticas, é que as cidades mudam. Cidades onde todos, incluindo os que criticam as escolhas feitas, beneficiam. Foi um oásis que, não obstante a evidente correção e acertos que sempre decorre da aprendizagem, é agora suspenso. Mas o contexto importa.
Se os rumores que pesam os corredores se vierem a confirmar, todos e como dominó, Lisboa deixará de ser uma cidade com capacidade de resposta na produção e programação teatral e coreográfica, quando concentra um peso muitíssimo considerável das estruturas apoiadas pelos apoios da Direção-geral das artes, aos quais se juntam todos os outros. As obras no Teatro São Luiz, que o deixarão fechado por mais do que uma temporada já em 2027, sem sinal de qualquer alternativa de continuidade noutros equipamentos; a ameaça de revogação da concessão do Teatro Taborda ao Teatro da Garagem, depois de quase vinte anos de trabalho, muito em prol de projetos sem meios e de início de percurso; a continuação da concessão do Teatro Maria Matos à Força de Produção, num valor muitíssimo abaixo do que seria suposto face ao que programam, e ao que, em bom rigor, é um prolongamento daquilo que a produtora já oferece no Villaret; a dificuldade de se encontrarem espaços de média escala, porque a continuidade do projeto “Um teatro em cada bairro” é, em bom rigor, uma lista de espaços sem condições de produção, sem equipa nem equipamento técnico, que se vendeu acriticamente renomeando antigas bibliotecas, como a dos Coruchéus e a da antiga Biblioteca-Museu República e Resistência, e cinemas como o Turim, ou espaços como a Casa do Jardim da Estrela ou a Quinta Alegre, que de teatro tem apenas a dramaturgia que as sombras fazem nos caminhos. Se a isto acrescentarmos a incapacidade de coprodução dos teatros Capitólio e Variedades, o desinvestimento em espaços como o da Biblioteca de Marvila e a ausência de resposta, desde outubro sobre o programa de apoios encerrado em Julho, e que tem deixado à míngua diferentes estruturas de programação e projetos de criação, e a crise imobiliária que impede que existam espaços informais, para associações e coletividades, que cidade cultural quer esta câmara municipal?
Acabar com uma visão que a protegia das críticas, tornando-a, por entre unicórnios, tribecas e animação de rua, uma cidade garante de visão, de trabalho reconhecido internacionalmente precisamente naquilo em que o mercado não quer estar: pensamento, persistência, luta, diálogo e escuta, é um equívoco. E disfarça mal a necessidade de conter as críticas da extrema-direita.
E, entretanto, a oposição ainda existe? Onde estão o Partido Socialista, o Livre e a CDU? É-vos devida a responsabilidade pelo escrutínio. A cidade precisa disso. Até para que os esclarecimentos surjam, numa altura em que há uma nova administração na Lisboa Cultura.
Em 2023, dizia Pedro Moreira, então presidente da EGEAC e agora reconduzido na Lisboa Cultura, ao jornal online Observador: “Foi feita uma avaliação [do trabalho de Francisco Frazão] e demos continuidade”. Ou seja, não está em causa a eventual mudança de rosto na direção do teatro. Mas o que aconteceu, se não sabemos o que se segue? Sabemos isto: a empresa municipal responsável pela cultura na cidade de Lisboa é, desde 2021, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Performart, a associação que reúne estruturas e instituições na defesa, reflexão e ação sobre políticas públicas e que se pauta pelo estabelecimento de exemplos de boas práticas no setor, desde a contratação de equipas ao estatuto dos profissionais. Ou seja, tem participado, assinado e defendido, pelo menos dentro de um coletivo, tomadas de posição que contrariam a opção agora apresentada. Vai a Lisboa Cultura sair da Performart? Porque as duas coisas não são compatíveis. Como não é o silêncio institucional dos parceiros. Quando se perde um, perdemos todos.
