Um teatro político para tempos apressados
Variedades (… como uma ópera bufa erótica e satírica) está em cena no Teatro Variedades, em Lisboa, até 16 Agosto, para celebrar cem anos de um teatro que testemunhou a história da cidade e, nela, das que viveram várias vidas a partir do palco. Um surpreendente exercício de generosa reflexão pública, construído por Fernando Heitor, João Paulo Soares e Flávio Gil, como uma fábula social, servida por dez atores e personagens nossos antepassados.
É preciso memória e vontade para conseguir que Variedades (… como uma ópera bufa erótica e satírica) prossiga numa relação de permanente desfilar de histórias, sobretudo de imaginários coletivos no lugar das falhas individuais, como se tomássemos a parte pelo todo e, através do teatro, preenchêssemos não apenas o que não sabemos, porque não vivemos, mas o que não vivemos porque não o soubemos contextualizar.
“Mas a vida não pára e finca pé”, cantam os atores no início e como eco de uma viagem reconstruída, onde a história do Teatro Variedades, tal como Fernando Heitor, João Paulo Soares e Flávio Gil a querem contar, e fixar, é também a história de espectadores que passaram pelo teatro como pela cidade, a história e o tempo, e estes por eles, tendo como centro uma ideia romantizada do Parque Mayer, lugar temporário, de relação malsã, vítima e responsável de todos os preconceitos, desejos e contradições. Um lugar maldito e, por isso, um lugar irresistível. Como o palco, aliás.

O que este espetáculo propõe e constrói, numa justa relação entre a economia de meios e a imaginação, é mais do que uma viagem ao que possamos saber, ali se possa ter passado ou, sobretudo, sobre aquele espaço, aqueles nomes e aquelas biografias se pudesse ter querido que representassem. São dez personagens-tipo, servidas por um elenco que é a reunião de escolas, gerações e modos de estar em cena, reunidas num espaço onde só existem cadeiras e mesas e, no final, um telão. É um dispositivo de tal modo simples, que nos volta a lembrar que o teatro existe porque alguém se dispôs a contar uma história a partir dos elementos à sua volta. No caso, as histórias de um teatro com tantos anos quantos os do golpe militar que tolheu o país e, por isso mesmo, um teatro que testemunhou todas as formas encontradas para lhe sobreviver e, no fim, acabou vítima, isso sim, de tudo quanto, e felizmente, mudou por causa disso.
Nas mãos de outros, e este Variedades seria nostálgico, conservador, velho-restelista, incapaz de olhar em frente, adorador de fantasmas, cultor de preguiçoso e perigoso revivalismo e, sem pudor, revisionista. E, não sem espanto, mas com aliviado e contagiante entusiasmo, é um espetáculo livre, aberto e atento aos seus limites, criando com essas personagens-tipo as figuras que atravessavam as ruas para o palco e, a partir dele, se transformavam em heróis, anti-heróis, inadvertidos protagonistas e projeções de versões melhores do que a crueza da realidade, “juntos a marchar/ livres de vaidades”.

O que ali se assiste, apenas e só socorrendo-se do pacto de confiança entre o espectador e os atores, é mais do que um desfilar de referências, umas perdidas no tempo, transformadas em jargão que as devolve à rua de onde saíram, e outras refeitas a partir de lugares-comuns: o tocador de gaita de beiços que veio do Minho (“Tremidinho”, Bernardo Souto); o homem bravo que veio da Lezíria (“Jacinto”, Bruno Madeira); o marujinho do Ginjal (“Cigano”, Carlos Malvarez); a ovarina da Madragoa (“Palmira”, espantosa e inexcedível, de voz e presença, Cátia Garcia, que exemplifica o melhor da ausência de origens e referências, transformada em lisboeta, como os são todos os que aqui chegaram); o rapaz que foi amamentado por uma gata (“António”, Flávio Gil); a transmontana que trocou as saias pelas calças (“Zé”, Maria João Luís, numa evocação superlativa de Marlene/Irene Isidro, que alimenta os fantasmas e o sentido de resistência dos que “são do teatro”); o homem triste que veio de África (“Camarão”, criação de Miguel Raposo em tudo feita de justeza e tristeza afinadas, num jogo de dobras e de sombras que melhor reflete quem, de facto, acreditou na mudança); a mulher que trocou Copacabana pelo Parque Mayer (“Carmen”, Sandra Rosado); a menina dos tiros nascida em Viseu (“Marquinhas”, que Teresa Zenaida transforma em espelho de gerações de raparigas esperançadas, entre o pragmatismo da sobrevivência e filigrânica inocência) e a costureirinha de Caneças (“Catarina”, dentro da qual Wanda Stuart desaparece, na mais explosiva homenagem às figuras que nem nas notas de rodapé das histórias do teatro terão direito a surgir, mas sem as quais nenhum das outras pode existir). São no seu conjunto, e eventual injustiça individual, pretéritos-mais-que-perfeitos dos ombros de todos os fantasmas sobre os quais caminham os que se vão escondendo, envergonhados pelo prazer natural, nas cadeiras desenhadas a modernismo, esse sim revivalista, da plateia do renovado Variedades.
Deve-se tudo a essa dupla de histórica memória, Fernando Heitor, que os encena como se não precisasse mais do que gerir o saber acumulado das escalas, das condicionantes e da inevitável e fatal pressa em querer ser eficaz, e João Paulo Soares, que cria uma estrutura musical que é um primor de detalhe referencial, e que conjuga as marchas, as canções orelhudas, os confortos musicais, os escapes à censura e as tentativas de tradução da história em partitura, numa melodiosa e ácida banda-sonora, que serve o elenco e, de permeio, o próprio espectador. Acompanhados por Flávio Gil, que coassina a encenação e o texto, bem como algumas das canções, fazem desta ópera bufa erótica satírica, como se acrescenta no título um trabalho que escapa às armadilhas da enumeração, e que trata a história, e os espectadores contemporâneos, como responsáveis pelo modo como a quiseram recordar, e a pretendem prolongar.

O espetáculo parte destas dez figuras que, fantasmas que são de quem ali viveu e se recusa a sair do teatro, para articular o impacto de cem anos de vivências de um lugar construído para o elogio da efemeridade. É neste dispositivo a que só o teatro pode valer, numa adequadíssima fórmula entre edifício e disciplina, que se projetam as outras figuras, os bordões, os lugares, aquilo que se ouviu e viveu, sem a preguiçosa defesa do antigamente.
Sim, dão-se os nomes de atores, de artistas, de peças, de autores, de zangas, de lugares que já desapareceram e de outros que não souberam aceitar que o seu tempo acabara; citam-se diretamente os rantanplans, as caras-lindas, os fados lirós, os ardinas, os patos marrecos, os chicos das pegas, as plumas e perfumes, os amores e os ciúmes, os cavalheiros, as sirigaitas, as gentes a cantar, as bocas de meninas, os piratas das chinas, os pó d’arroz para os bailes até à manhã, as paródias e os saricotés. Cita-se isso tudo, para quem se lembrar e quem se quiser juntar, do festeiro ao Zé Cacilheiro, do Pinguinhas ao Ardina, do Rosa Araújo à Rosinha da Serra d’Arga. Fazem-nos porque seremos herdeiros do que não sabemos, e perpetuadores da forma como no-la for contada, essa história sobre a Lisboa Antiga, à luz do gás, da qual não se sabe que cidade sobrou, mil vezes cantada, tantas vezes mudada, e sempre a caminho do Parque para ali, “sem medo, cantar”.

Por um momento, aquele que dura esta viagem, não é de um teatro apenas que se fala, mas de um modo de transformar, através do teatro, o próprio curso da história. O que há de mais entusiasmante neste Variedades… não é só a clareza do dispositivo cénico, dramatúrgico e musical e o compromisso ético dos atores para com o que os antecedeu, e só isso seria muito, raro, e de agradecimento. É também o modo como nos responsabiliza para com os lugares onde a história também se escreve, numa cidade que os reduz, chamando-lhes de bairro, mas nem isso serem; aglomerando-os em nome de uma duvidosa gestão já não de teatros, mas, na novilíngua reducionista, equipamentos culturais.
No fundo, esta ópera bufa erótica satírica, liberta das expectativas da definição – teatro-cabaré, musical, revista não é certamente, teatro político, e de documento, só se o quisermos usar como argumento – é o melhor gesto de persistência nestes tempos apressados. Pede que perguntemos de que histórias queremos ser herdeiros, e como podemos alargar a reflexão sobre a sociedade. No fundo, nos cem anos de um teatro que se inaugurou poucos meses depois do golpe de 28 de Maio, de que lado da história queremos estar.

