Uma atenção desproporcionada face àquilo que representam na nossa vida coletiva
Diariamente, centenas de eventos ocorrem por todo o país, nas escolas, universidades, nas associações, empresas, nos teatros ou partidos. No entanto, é um evento organizado por um bando de saudosistas frustrados, que se apelidam de Reconquista, que abre os telejornais.
Momentos que estimulam o pensamento crítico, a reflexão, que projetam o futuro do país, promovem a arte e os artistas, entre tantas outras coisas boas e construtivas, não merecem a atenção das estações televisivas e, quando são dignos, resumem-se a invisíveis notas de rodapé ou pequenos segundos de peça televisiva, isto, claro, se houver uma qualquer polémica diária associada. Essas manifestações valorosas de cidadania não passam o crivo da programação e redações. Já um congresso com umas dezenas de figuras, estranhas e pouco recomendáveis, é que consumiram largos minutos de boletins informativos e painéis de comentário político.
Porque merecem eles este cuidado em comparação com todas as outras organizações? É caso para dizer que lhes dão, mesmo, uma atenção desproporcionada face àquilo que representam na nossa vida coletiva.
Compreende-se o que se pretendeu evidenciar com aquela cobertura: a ligação de um deputado do Chega a esse movimento nacionalista, racista e xenófobo, que entre outras coisas, defende a remigração de nacionais portugueses e a secundarização do papel da mulher na sociedade. Se as intenções e objetivos deste mediatismo não são assim tão claros, o resultado é evidente.
A associação entre o Chega e esses ideais há muito está feita. Basta atentar na proposta de remigração apresentada na discussão do Orçamento do Estado (um autêntico urso polar no deserto) pelo partido e em declarações como “eram precisos 3 salazares” proferidas pelo líder. Não foi exposto absolutamente nada de novo, na verdade. Ao invés, deu-se luzes e palco a um fascista lunático e à sua corja de lacaios, difundindo-se em horário nobre valores que contrariam e violam a nossa Constituição.
Atenção, este episódio é meramente um sintoma de um problema muito mais perverso, que se tem acentuado nos últimos anos. “Não há informação, há dramatização, Lágrima fácil no olho, dinheiro limpo na mão”, cantavam os Da Weasel na faixa GTA do lendário “Re-Definições”. É mesmo isso. É a “cmtivização” em curso.
Estações e jornais movidos única exclusivamente pelo ideal de lucro e em graves dificuldades financeiras têm de vender, atrair audiências e conquistar share. A forma mais fácil de o fazer? Inundar os espaços de informação com o drama, o desastre, o choque e a violência. De parte ficam o dever de informação, um pilar da Democracia, e o serviço público.
Alimentam esse monstro que tolhe e afunda a sociedade portuguesa, naturalmente pessimista e penitente: o monstro do desespero e desânimo, que projeta o sentimento de que tudo está mal e vai dali a pior. Um país decadente, em falência, é o que sobressalta. O bom e o belo, anacronicamente cada vez mais raros nos tempos que correm, não têm destaque. O importante é elevar quem mais grita, os campeões dos insultos e indecência, os odiosos (que são bem mais do que os 8 de Tarantino).
Este modelo circense deve-nos preocupar, sobretudo porque nós, espectadores, temos uma quota da responsabilidade. Somos nós que oferecemos o nosso tempo, tão precioso, a estes espetáculos. Somos a audiência que procura ativamente estes conteúdos e que alegremente, no sofá, se deleita com a miséria e o infortúnio.
Não querendo sacudir culpas dos media ou, até, do Estado, que tem a obrigação e a autoridade para inverter a tendência, cabe a esta nova geração de cidadãos a tarefa de ser mais exigente em relação ao conteúdo que consome e, fundamentalmente, imprimir uma nova cultura de valorização do positivo, que cria e edifica, da beleza, que motiva e inspira, e dos valores que nos humanizam.
