Uma dúzia de palavras para a Ministra da Cultura (des)Graça Fonseca

por Cronista convidado,    26 Abril, 2020
Uma dúzia de palavras para a Ministra da Cultura (des)Graça Fonseca
Imagem do Jornal da Tarde da RTP1
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Transversalmente falando — utilizando esta que é a palavra favorita da nossa ministra — o possível não é suficiente.

E “esta altura” de medidas de emergência vem só revelar que “a outra altura”, que foi a anterior e será, miseravelmente, a posterior a esta, deixou a maioria dos artistas e técnicos sem possibilidades de poupança para situações de emergência, a viver num estado de sobrevivência, onde todo o dinheiro poupado vai para rendas altíssimas, uma segurança social sanguessuga que não os protege e para um Estado que lhes garante reformas miseráveis e zero capital em alturas de paragem da actividade e que investe na educação artística dos seus cidadãos de forma terceiro-mundista e/ou trendy.

Exige-se que “na outra altura” os artistas e técnicos vivam num país que lhes garante a possibilidade de poupança para aquilo que é mais importante no exercício da actividade artística: o investimento pessoal a nível intelectual e material (e necessário também, ministra, devia saber, à prática do Governo das Artes, a ministra terá feito esse investimento ao longo da sua vida também de forma possível, mas não suficiente).

Ministra, o país que nos deixou “nesta altura”, é um país no qual só há poupanças para os artistas das grandes famílias de grandes herdades e grandes empresas, desigualdade classista, medíocre por não obedecer a uma ideia mínima de justiça cultural, sem noção porque das universidades artísticas (e outros percursos que tais) nascem artistas de qualidade superior à dos seus governantes, ainda que sem famílias de suporte e que têm o direito à criação. Artistas obrigados a páginas e páginas de justificação financeira e matemática (não, não é justificação artística que lhes pedem nas candidaturas da DGArtes, é matemática — como se se pudesse justificar a Arte) dos seus trabalhos como se fossem as crianças mal-comportadas de uma escola onde os bons alunos são os banqueiros com livre passe de trânsito para tudo que necessitem.

Voltando à sua palavra de eleição, a História escreve-se no Futuro, fazendo um olhar transversal ao Passado. Fique sabendo que, possivelmente para seu bom grado, o seu nome figurará nas páginas dos manuais de História. Mas se não mudar a sua atitude com a qual decide, deliberadamente, ignorar a realidade (e possivelmente, ignorar a massa artística portuguesa — aposto que nem 100 nomes de artistas portugueses vivos consegue enumerar), será Vergonha aquilo que os seus descendentes, no Futuro, terão ao ler o seu nome nos manuais de História. O seu nome e o do governo do qual faz parte.

Não seja medíocre. Faça o impossível — nesta e na outra altura — ou demita-se.

Crónica de Isac Graça
Isac Graça é um actor formado pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Trabalhou em Teatro com Luis Miguel Cintra, Carlos Avilez, Jorge Silva Melo, Pedro Carraca, Teresa Gafeira, Luis Moreira, Miguel Maia, entre outros. Estreia-se em Cinema no premiado Cartas da Guerra de Ivo M. Ferreira, entrando ainda em filmes de Pedro Cabeleira, Dean Radovanovic, Tiago Amorim, Gonçalo Galvão Telles e Jorge Paixão da Costa. Colabora com colectivos audiovisuais como o Comicalate. Em televisão, destaca-se a interpretação de Fernando Ribeiro de Mello em 3 Mulheres, de Fernando Vendrell, em breve com segunda temporada.

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