Uma máquina do tempo chamada Amazónia
Este ano começou com um dos maiores privilégios que alguma vez tive: visitar um lugar prístino, imaculado e ancestral, no qual a natureza é maior do que o Homem. São raros os sítios do planeta que não tenham sido dominados pela espécie humana. Estar na Amazónia é, acima de tudo, um exercício de humildade. Como Sísifo na sua montanha, cada dia é uma luta contra a natureza, na qual a pedra é substituída pelas inúmeras picadas de insetos que carregamos a cada dia. Porém, nesse confronto cru, em vez do absurdo, encontra-se muito mais significado do que se estaria à espera.

A primeira coisa que salta à vista é a desconexão. Estar imerso na floresta é algo regenerador para a nossa condição humana e faz-nos recuar para um tempo muito mais saudável, anterior às redes sociais. Recebemos “shots” constantes de dopamina, mas os reels e vídeos engraçados são substituídos por uma estimulação contínua dos sentidos. Ora é um inseto novo que surge diante de nós, ora é uma árvore com dezenas de metros que se afigura diante de nós. Uma mera ida à casa de banho é uma aventura, porque a probabilidade de encontrar um novo inseto pousado na berma da sanita é elevada. O clima húmido gera um suor permanente que nos obriga a estar presentes no corpo e no momento.
Mas, acima de tudo, não há rede. Durante a minha experiência, para conseguir um simples sinal de Wi-Fi era preciso caminhar cerca de 15 minutos a pé, a partir do local onde estávamos. E, mesmo assim, a ligação costumava ser fraca. Ter internet estável tornava-se algo raro e, curiosamente, libertador.
Esse período levou-me a refletir sobre uma expressão muito carioca: “tem que estar ligado”. No Rio de Janeiro, ela é usada para lembrar que, na rua, não se deve baixar a guarda; é preciso estar sempre atento aos pertences, sobretudo ao telemóvel. Foi então que percebi como, do momento em que acordamos até à hora de dormir, também permanecemos “ligados”: numa atenção contínua e cansativa às notificações, à próxima notícia, ao próximo pequeno estímulo de dopamina.
E é difícil, porque desde que saí de lá voltei aos mesmos hábitos, embora queira afastar-me deles. Na Amazónia, senti a minha ansiedade reduzir significativamente. O aborrecimento acabou por me tornar mais criativo, e a conexão comigo mesmo ficou muito mais profunda, como se a minha integração com tudo o que estava à minha volta tivesse também reforçado a minha ligação interior.
Como cheguei a discutir com uma amiga por lá, acredito que venha a existir um mercado turístico cada vez maior para quem queira desconectar-se no futuro, porque hoje em dia é extremamente difícil fazê-lo. Quando é que é socialmente aceitável estarmos afastados do WhatsApp? Nunca. Parece haver sempre uma pressão para responder, e isso não é saudável.

A espiritualidade também está sempre presente. Tudo na Amazónia parece carregar uma dimensão espiritual. As rotinas das comunidades indígenas que visitei giram em torno dos seus rituais e de uma conexão constante com a natureza. Tal como nos tempos antigos, a espiritualidade organiza a vida: os pontos altos da semana são as cerimónias de consagração da medicina, aquilo que nós, na nossa perspetiva ocidental, chamamos mais habitualmente de ayahuasca.
Esta substância carrega uma narrativa muito mais profunda do que eu esperava. No Ocidente, tende a ser associada ao psicadélico, ao recreativo, a uma droga. Mas, ali, tudo tem significado. A toma da medicina é acompanhada por uma profunda gratidão à natureza, vista como a fonte que permite alcançar um estado espiritual mais elevado. Depois, o foco passa a ser a conexão com o nosso deus interior, como se a substância fosse apenas o veículo para comunicar com algo maior. Em todas as cerimónias a que assisti havia um padrão: primeiro as rezas, depois música ao vivo e, por fim, dança ou partilhas. Numa cerimónia específica da religião Santo Daime, iniciaram com o Avé-Maria e o Pai-Nosso; e antes da toma da medicina em si, benzeram-se. Noutras ocasiões, as rezas eram em línguas nativas. Este contexto é essencial, porque sinto que, no Ocidente, existe uma clara descontextualização de tudo o que envolve a ayahuasca.
Esta substância não deve ser excessivamente romantizada. A sua toma apresenta riscos de saúde relevantes e, fora do contexto original, esses riscos podem aumentar. Entre os povos indígenas, existe uma preparação cultural e mental que começa desde cedo, inserida numa cosmovisão própria e num acompanhamento comunitário contínuo. Retirar apenas o elemento da substância, sem o resto do contexto, não é só redutor, mas também perigoso.
Numa sociedade em que estar ligado é quase obrigatório, gostava de conseguir preservar pequenos bolsões de desligamento no quotidiano. Ter momentos em que a atenção não é fragmentada, em que o tempo volta a ter densidade e em que o corpo volta a ser um lugar habitável. Talvez não seja preciso regressar fisicamente à floresta para recuperar isso, mas sim criar rituais simples: existir sem telemóvel, aceitar o tédio sem o preencher imediatamente, adiar respostas que não são urgentes, permitir silêncio. Porque, no fundo, aquilo que encontrei não foi apenas a ausência de rede, mas a presença, uma qualidade de estar que parece cada vez mais rara.

Da Amazónia, levo mais certezas de algo que me tem apoquentado bastante durante esta viagem. Não quero romantizar as condições de vida que estas comunidades vivem, mas há algo que perdemos no nosso desenvolvimento ocidental, a espiritualidade. Isso tem consequências profundas. Existe uma perda de consciência comunitária e um extraordinário empobrecimento do sentido de pertença. Tornámo-nos mais eficientes, mais produtivos e mais tecnologicamente avançados, mas também mais isolados, mais ansiosos e, muitas vezes, mais vazios de significado. A Amazónia foi um regresso ao futuro, um lugar onde percebi que parte do que procuramos à frente pode, afinal, ser ancestral.
Sugestões do cronista:
O livro “Amazônia”, de Sebastião Salgado, oferece uma forma extraordinária de explorar a região sem nunca ter estado lá, através do olhar de um dos fotógrafos mais consagrados do mundo. Ao longo de seis anos, o autor percorreu a Amazónia brasileira, registando em imagens dezenas de comunidades indígenas e revelando, com um olhar único, a sua beleza mística e incorrupta.
Se estiverem interessados em acompanhar mais aventuras, sintonizem o podcast Périplo feito pelo cronista.
