Uma revolução ainda por cumprir

por Manuel Clemente,    24 Abril, 2021
Uma revolução ainda por cumprir
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Hoje é um dia especial. Um dia que nem todos vivemos, mas que todos, ainda hoje, recolhemos os seus dividendos. Há precisamente 47 anos, Portugal atingia o seu ponto de ebulição. As roupas ideológicas que envergávamos deixaram de nos servir. Estávamos apertados, reprimidos e aquém de tudo o que poderíamos ser enquanto nação. Não havia espaço para sonhar e muito menos para despertar. A cegueira coletiva, encabeçada por uma liderança míope, conduziu-nos a um abismo social no qual, infelizmente, muitos acabaram por cair. Somos a prova viva de que é possível mudar, basta alcançar um nível de desconforto insuportável o suficiente. Quando a revolta atinge uma determinada temperatura, torna-se urgente encontrar um escape em quem a transporta.

Portugal transformou-se. Na opinião de alguns para melhor, na de outros para pior. São pontos de vista. A liberdade de expressão (felizmente) tem destas coisas. Ainda assim, é inegável o facto que houve uma evolução. Abrimo-nos ao mundo e começámos a ver mais além. Enquanto sociedade, quero acreditar que somos melhores. Apesar de ainda pairarem alguns resquícios do “antigamente é que era”, hoje existe uma consciência social e ambiental que não existia há 50 anos. Mesmo que seja fruto dos desafios dos tempos modernos, não devemos tirar-nos o mérito.

Orgulho-me de ser um dos filhos de abril. Não do mês nem do ano, mas do capitão. O meu pai fez parte do Movimento das Forças Armadas e ajudou a organizar o golpe de estado. Na altura, era mais novo do que eu. Tinha 30 anos. Parece quase ficção imaginarmos que um conjunto de “miúdos” conseguiu fazer aquilo que fez. Hoje seria algo entre o impensável e o utópico, mas a verdade é que aconteceu mesmo. Cresci a ouvir episódios mirabolantes, histórias de quem não conseguiu sobreviver para contá-las e como é possível transformar os sonhos em realidade. Passadas quase cinco décadas, muitos dos ideais do 25 de Abril ainda se encontram por cumprir. As rugas de quem o fez não conseguem esconder alguma desilusão. A semente foi lançada, chegámos inclusive a colher alguns frutos, mas infelizmente ainda existem inúmeras ervas daninhas a roubar os nutrientes do solo lusitano.

Dentro do nosso imaginário, sempre que se pensa numa revolução, surge de imediato o conceito de algo que acontece fora de nós. Estas mudanças bruscas nunca foram verdadeiramente coletivas. Partiram sempre de um grupo de pessoas que, bem ou mal intencionadas, tentaram impor a sua visão e ideais à maioria. Logicamente que, numa segunda fase, precisam do apoio de um determinado número de pessoas para que o sucesso da implementação seja assegurado. De qualquer das formas, este grupo de apoiantes surge quase sempre por osmose. Uma espécie de “apanhar a onda” que aí vem. Talvez este fenómeno seja a explicação para acreditarmos em heróis, alguém que venha salvar-nos, um cavaleiro que irrompa por entre a neblina e nos diga: “Vai ficar tudo bem”.

Esta crença profundamente enraizada, silenciosamente, recostou-nos no sofá à espera que alguém faça algo. Descartámos por completo o maior trunfo que possuímos: a nossa revolução. A mudança individual que ninguém pode fazer por nós. Aquela que não tem cravos e onde nem tudo são flores, mas que pode permitir-nos desabrochar. Cada um de nós precisa de trabalhar mais em si mesmo. Esculpir-se, elevar-se, ser melhor pessoa, resgatar a sua essência e despertar para uma consciência mais humana, responsável e sensível. Não podemos acusar o mundo de estar perdido quando nem sequer tentámos encontrar-nos. As revoluções duram pouco porque não fomos nós a fazê-las. Foi alguém que, tantas vezes, nunca vimos nem conhecemos. Alguém que arriscou, sacrificou a sua integridade e ousou pensar de forma diferente. No meio de tudo isto, qual foi o nosso contributo?

A verdadeira liberdade de expressão não é dizer o que se quer, numa tentativa irresponsável de pisar os limites do outro. Para podermos expressar-nos livremente precisamos antes de aprender quem somos. Parar de reprimir o que sentimos. Permitir-nos a tentar, falhar e errar as vezes que forem necessárias. Deixar de perseguir o passado que nos assombra e que nos impede de descobrir o nosso lugar ao Sol. O mundo nunca será a mudança que pretendemos ver em nós próprios. Todos querem que as coisas mudem, mas quantos estão dispostos a mudar(-se)?

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