Valorizem-se os esforços de inclusão

por Lucas Brandão,    17 Maio, 2019
Valorizem-se os esforços de inclusão
Fotografia de: João Porfírio /Observador
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Chegamos ao ponto em que as passadeiras recebem as cores da comunidade LGBT+ (mais outras letras que desconheço, mas que possuem igual legitimidade em serem reconhecidas e apresentadas). É um ponto que começa a ultrapassar tudo aquilo que se prende com aquilo que de mais puro e de mais genuíno existe em cada um de nós: a capacidade de amar. A capacidade de, não só amar o próximo, em relações fraternas de amizade, de família e de paixão, mas também nós mesmos. Aumentamos a discriminação que nos cai em cima ao nos sujeitarmos a estas pequenas coisas, que só reforçam o facto da discriminação existir, ao invés de fazer algo pela sua limitação.

O amor poderia ser tão simples. A identidade podia ser tão simples. Levantam-se questões por tudo e por nada, já até numa dinâmica que se sente de perseguição. Há, como é óbvio, pontos em que a comunidade LGBT+ possui a moral do seu lado. A discriminação, mais do que imprópria, é incorreta e até vil. É castradora daqueles que querem ser como são e de o exprimirem, sem maltratar o outro, o poderem verbalizar e o afirmarem. Isso é claro como água, embora mexa com as ondas tão rotinadas aos olhos daqueles que veem a imagem tradicional da família, constituída pela figura do pai e pela da mãe, com um casal de filhos. O Action Man feita para o menino, a Barbie para a menina. O Ken como príncipe encantado, a Nancy como a boneca negra que pretende ser um fator de inclusão e não de separação por, novamente, alguém ser como é.

Na base de tudo isto, está o amor. Está amar. O homem amar o homem, a mulher amar a mulher, o homem sentir-se mulher e vice-versa. Qual é o mal nisso? Onde é que isso condiciona a felicidade de cada um, as aspirações íntimas e interiores de canalizarem cada um a serem felizes? Se tanto queremos amar, qual é a razão que nos obriga a impor a nossa forma de amar ao outro? Amar é um processo de aceitação, de compreensão, de reconhecimento de que o outro é igual a si, humano, dispondo de forças e de fraquezas e que caminham na superação das adversidades quando se unem. É uma união que transcende qualquer rótulo. Quem ama, simplesmente ama. Por mais redundante que soe, significa que são olhos transparentes e que em nada querem mudar o seu amado ou a sua amada.

Não é só no discurso que algo está errado. Não é nos plurais terminados por -os, e na necessidade de eliminar as discriminações trocando letras. Está no padrão de comportamentos que, quer um lado, quer o outro, na figura de uns quantos, quer impor ao outro. Uma necessidade de que só o próprio está bem, e que o outro está errado. Em muitos casos, evita-se o diálogo, evita-se o diferente e o dissonante. Causa conflito no que está assimilado desde muito cedo. Alterar estas perspetivas nunca é fácil, mas faz parte da nossa humanidade saber ver o diferente, tentar compreendê-lo, aceitá-lo e até apreciá-lo e convidá-lo a fazer parte da sua vida, fruto de uma admiração e de uma curiosidade inocente e até pueril. E não, não é porque ele está interessado no rapaz ou ela na rapariga. Existe uma história para contar em cada um deles e que está bem longe de ser a propaganda que muitos assumem como tal. Chegamos ao passo em que as passadeiras são entendidas como precisamente isso, canais de “venda” dos ideais desta comunidade em particular. Por mais que as intenções sejam benévolas, começa a ser um pouco demais. Os excessos nunca se tornam saudáveis e aqui não é exceção.

No meio de tudo isto, perde-se o essencial. A causa dos direitos dos homossexuais, das lésbicas, dos transsexuais, dos valores queer e da intersexualidade a que este movimento se dedica abdica da sua seriedade e da sua valia em prol destes excessos. A verdadeira causa da humanidade, o amor e a felicidade, que se torna independente de cada um ser como é – evidentemente que não se enumeram os criminosos, mas os códigos legais são claros nas questões discriminativas – perde o seu rumo, torna-se desencontrada de si mesma. Porque é que se torna tão difícil sermos felizes? Porque é que é tão difícil sermos verdadeiros connosco mesmos? Isto de sermos seres sociais condiciona e de que maneira o nosso ser e estar em vida e em sociedade. Tudo isto nos restringe e leva-nos a palcos dos quais nem a tragicomédia nos iliba, ao ponto das discussões que tornam a pseudociência a roçar a credibilidade.

Valorizem-se os esforços de inclusão, aqueles que se tornam práticos e autênticos canais de comunicação de uma realidade mais equitativa e, essencialmente, mais verdadeira. As máscaras caem e as essências não têm receio de se estimar e de procurar a sua felicidade. No entanto, tudo se torna menos feliz quando se envolvem nas polémicas daqueles que visam satisfazer a sua supremacia moral. É o reflexo de uma sociedade habituada a criticar, a julgar, a apontar os dedos ao invés de aceitar a necessidade de ir a exames de consciência de quando em quando. De, efetivamente, aceitar o diferente, que em nada se opõe à capacidade de amar e que até só o favorece. Não é com o exercício de uma passadeira arco-íris e de se alegar que se aceita e que não se repugna que este caminho se percorre. A passadeira serve para que quem mete a quarta na sua argumentação já tão automatizada pause e perceba o que está em causa em quem passa por ela. É assim tão difícil, simplesmente, amar?

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