Vários agentes culturais estão contra o fim da gravação do programa da RTP “Ensaio” no Centro do país

por Lusa,    19 Dezembro, 2025
Vários agentes culturais estão  contra o fim da gravação do programa da RTP “Ensaio” no Centro do país

Diversos agentes culturais da região Centro posicionaram-se contra a RTP terminar a gravação do programa “Ensaio”, no Centro do país, alegando que a medida impacta na representatividade territorial.

“Terminar a gravação [na zona central de Portugal] implica que, doravante, os assuntos que dizem respeito à cultura na região Centro passam a ter menos espaço” mediático, disse à agência Lusa o diretor do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), situado em Coimbra.

Sílvio Correia Santos adiantou que a região “tem uma dimensão, em termos culturais, que não justifica que ela seja relegada”, questionando “qual é o critério da direção de informação que leva a que seja Coimbra e a região Centro a ser preterida”.

A alteração no programa, que era gravado de forma descentralizada entre Lisboa, Porto e Coimbra, levou a que um conjunto alargado de agentes culturais, artistas, programadores, professores, assessores de comunicação e investigadores de diferentes pontos da região Centro enviassem, na quarta-feira, cartas à direção de informação da RTP e à provedoria do telespectador, solicitando esclarecimentos e a reversão da decisão.

O diretor de informação da RTP e responsável pelo programa Ensaio, Vítor Gonçalves, afirmou hoje à agência Lusa tratar-se de uma alteração no conceito do programa, passando de três para dois apresentadores, uma decisão que, garantiu, não afeta a cobertura de eventos pelo país.

“Isso é só uma questão do conceito do programa. Não tem nada a ver com a cobertura dos eventos culturais que ocorrem nas cidades e no país”, disse.

Questionado sobre se seria possível assegurar a representatividade geográfica com a mudança, em vigor desde outubro, salientou que sim, reforçando não ser obrigatório ter um apresentador numa determinada cidade para realizar o acompanhamento noticioso da atividade.

“Se fosse esse o princípio, tínhamos de ter 18 apresentadores”, um para cada capital de distrito, sustentou.

Interrogado sobre se haveria algum motivo para ter sido feita a alteração em Coimbra, e não em Lisboa ou no Porto, disse que não, reiterando que “fazia mais sentido ter apenas dois apresentadores”.

“A equipa que fazia as reportagens permanece em Coimbra. Estamos a falar da apresentação, não da cobertura. A cobertura dos eventos culturais no Centro continua”, declarou.

Para o diretor do TAGV, entretanto, essa mudança provocará “uma visibilidade muito menor de toda a dinâmica cultural da região Centro do país”.

“O que está na origem disto tudo são as obrigações que a RTP tem, enquanto entidade que tem um Contrato de Prestação de Serviço Público”, condicionando-a a questões de acessibilidade, universalidade e representatividade.

O órgão de comunicação social “não se pode focar apenas nos grandes centros, que já estão servidos por muitas empresas de media privadas”, destacou.

O diretor de informação da RTP, entretanto, afirma que a medida está em conformidade com as obrigações previstas no Contrato de Concessão de Serviço Público de Media, com a continuidade do programa e da cobertura mediática.

Confrontado com a perspetiva de reverter a situação, revelou não ser possível, “porque esta decisão foi fundamentada com esta ideia de que temos um conceito diferente”.

Os subscritores da carta alegam que, ao longo dos últimos dois anos, a gravação descentralizada do programa permitiu dar visibilidade consistente à atividade cultural desenvolvida fora dos grandes centros urbanos.

O programa, até então, tem ajudando a dar visibilidade não só a criadores e intérpretes da região, “mas muito às estruturas de acolhimento e de programação”, revelou o diretor do TAGV.

Entre os subscritores, estão os diretores do Centro de Artes Visuais de Coimbra, da AnoZero e do Museu Nacional Machado de Castro, professores da Universidade de Coimbra, a direção da Casa da Esquina e do Centro de Artes do Espetáculo de Viseu, a diretora artística do Teatrão e o presidente do Jazz ao Centro Clube, entre outros.

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